Nos últimos anos, o mercado brasileiro de mangás vem se diversificando bastante, com publicações cada vez mais rápidas de obras de sucesso no Japão e editoras começando ou voltando a publicar mangás, e com isso gerando maior variação no mercado.

Essa variação, felizmente, está dando oportunidade para que mangakás renomados que nunca tiveram chances no Brasil comecem a ser publicados. Esse é o caso de Hisashi Sakaguchi, que teve seu 12 Cores anunciado pela Conrad e seu clássico Ikkyu, em publicação pela Veneta.

No primeiro volume de Ikkyu, conhecido originalmente como Akkanbe Ikkyu, somos apresentados a um dos nomes mais importantes da contracultura japonesa: o monge budista que dá nome ao mangá. A obra, como biografia, apresenta durante essa fase inicial, chamada de Ikkyu: Terra, a infância, adolescência e início da vida adulta de Ikkyu, durante os primeiros anos do período Ouei (1394-1428), durante a Era Muromachi/Ashikaga (1336-1573).

imagem: Ikkyu, ainda criança, se questionando se conseguirá lidar bem com a vasta quantidade de ensinamentos budistas.

Foto: Teke/JBox.

O início de Ikkyu é focado em mostrar como ele, devido ao risco de viver como filho ilegítimo do imperador Go-Komatsu, teve que adotar a vida monástica ainda quando criança.

Durante esse período da história, o mangá tem foco em apresentar a imagem popular de Ikkyu, a de uma criança travessa que era cheio de esperteza, algoreforçado através de livros infantis e até mesmo nos animês no Japão, como é no caso do sucesso Ikkyu-san, série em que o próprio Hisashi Sakaguchi trabalhou.

Mas, além do foco no monge, nessa parte do quadrinho acompanhamos de perto também o funcionamento de um templo de zen-budismo da escola Rinzai. Lá, o monge perde seu nome de infância, Sengikumaru, e passa a se chamar Shuuken.

A história faz um ótimo trabalho em apresentar a rotina básica e como é o templo, e acaba funcionando muito bem para os leitores justamente porque descobrimos tudo através dos olhos de uma criança que não sabia nada sobre os detalhes daquele local. Shuuken precisa acordar cedo, limpar o lugar junto a outros aprendizes, participar dos rituais monásticos e respeitar o funcionamento do templo.

Só que, claro, essa rotina não é nada fácil para uma criança tão nova, então ele acaba sofrendo bastante nesse processo, principalmente pelas crianças mais velhas. Elas maldizem o seu ritmo de trabalho, seu comportamento e às vezes até tentam propositalmente atrapalhar a vida do garoto dentro do templo. Em certo ponto, Shuuken acaba sofrendo até mesmo abuso sexual.

O foco nessas dificuldades pelas quais Ikkyu passou na infância é bastante importante para a figura do monge como um todo, pois ele foi bastante crítico da religião organizada. Além de passar por abusos que iam contra as doutrinas do zen-budismo, ele também viu seu primeiro mestre abraçar a avareza da sociedade japonesa na época, dominada pelo poderio militar.

imagem: Ikkyu aponta a hipocrisia das escolas budistas sobre preceitos da religião.

Foto: Teke/JBox.

Essa visão começa a ficar ainda mais clara durante a adolescência de Shuuken, momento na história do mangá em que vemos o jovem se debruçando cada vez mais nos ensinamentos do zen-budismo, buscando se tornar um monge digno, assim como sua mãe desejava.

Neste momento, o rapaz percebe que eram poucos que seguiam os preceitos da religião como se deveria, ficando desiludido com o templo. Apesar dos seus esforços, aqueles ao seu redor não parecem se dedicar realmente à vida monástica. Isso começa a ser retratado, inclusive, na produção poética de Shuuken, que estava conseguindo destaque dentro e fora do mundo monástico (e no futuro também seria vastamente reconhecida no meio literário japonês).

Para reforçar a crítica do mangá e também para fornecer o contexto histórico, Ikkyu também apresenta bastante da sociedade japonesa daquela época, mostrada como um período de ganância, quando o dinheiro começava a dominar e fazer parte do poder militar era o melhor meio de se sair bem na vida.

Tudo isso, no entanto, mostrando a brutalidade da guerra, que surgia devido à opressão e à pobreza que tomava o Japão enquanto os militares e outros nobres aproveitavam a vida boa. Toda essa retratação é apresentada de forma bem incisiva para o leitor, deixando bem evidente os problemas sociais que o Japão estava passando. Nesse contexto, um dos pontos de virada para o pensamento de Shuuken é justamente o momento em que ele vê seu mestre fazer de tudo para agradar ao xogum Ashikaga Yoshimitsu, mesmo que sua representação avarenta fosse contra tudo que o garoto aprendeu durante sua vida no templo.

As desilusões com a escola Rinzai, que era parte da religião institucionalizada fortalecida pelo xogum, fizeram com que Ikkyu, na primeira oportunidade que teve, abandonasse sua vida no templo. Essa oportunidade surgiu quando o rapaz conheceu Ken’o, um monge zen que vivia sozinho em um templo abandonado. Quando Shuuken vê o monge agindo de forma humilde, dando já seu escasso alimento para os mais necessitados, ele decide que irá tentar se tornar seu discípulo.

Depois de alguns esforços para tentar convencer o eremita, Ikkyu finalmente ganha um novo nome de seu novo mestre, passando a se chamar Soujun. No entanto, as coisas não vão tão bem quanto ele esperava, já que Ken’o não parece levar a sério os ensinamentos budistas. Ele apenas enche Soujun de trabalhos domésticos e outras obrigações, sem nunca, aparentemente, ensiná-lo sobre o zen-budismo de fato. A única atividade budista praticada por Soujun nesse período é a mendicância, mas a falta de um trabalho do mestre como guia faz com que o jovem o questione bastate. E essa situação é essencial para o fechamento maestral desta primeira edição.

imagem: Ikkyu cercado por ilusões sobre coisas que perturbam sua mente e também por uma ilusão de sua mãe, que o acalma.

Foto: Teke/JBox.

O capítulo final desta primeira fase de Ikkyu definitivamente é o ponto alto do volume. Sakaguchi faz um trabalho excelente em mostrar como todos os receios da vida monástica se acumularam e estão afetando a mente de Soujun.

Para escapar dos pensamentos impuros, ele decide apelar para a meditação, algo constantemente repreendido por Ken’o, o que piora ainda mais os sentimentos conflitantes de Soujun. A partir daí, vemos cenas fascinantes onde o jovem não consegue mais distinguir ilusões e a realidade, tudo gerado pelas dúvidas em seu coração.

Toda a situação carrega uma carga dramática envolvente que impulsiona a história além do teor biográfico e deixa o leitor curioso não só para saber mais sobre a vida do monge, mas também como ele lidará com tantas perturbações e se tornará a figura despreocupada e devassa apresentada nas páginas iniciais do mangá.

Fora da história do mangá, a edição brasileira de Ikkyu faz um trabalho excelente fortalecendo o contexto do roteiro com um ótimo prefácio por Kenzo Suzuki, um dos maiores especialistas da obra de Sakaguchi.

Outra coisa que merece elogios é o glossário, que, além de notas do próprio autor, também conta com apontamentos de Kenzo Suzuki, da tradutora Drik Sada e do editor Rogério de Campos, que também escreveu para a edição um ótimo resumo sobre a importância de Hisashi Sakaguchi para a cultura dos animês e mangás.

O maior problema da edição brasileira provavelmente é seu tamanho enorme. Apesar de realçar a beleza dos desenhos de Sakaguchi, a soma do tamanho com a capa dura torna muitas vezes ler o quadrinho um perrengue que poderia muito bem ser evitado. Claro, fica bonito na coleção, mas não deixa a leitura muito prática.

No trabalho geral, Ikkyu traz um primeiro volume magistral que quebra as barreiras da biografia e nos envolve com um roteiro banhado por lirismo. As liberdades tomadas pelo autor junto aos acréscimos criados pelo imaginário popular dão um tom interessante para a história do famoso monge. Esses pontos casados com veracidade histórica se mesclam de forma natural, criando uma profundidade digna para uma figura tão importante do Japão, deixando evidente o talento de Hisashi Sakaguchi como um dos grandes mangakás da história.


Galeria de fotos

Confira no álbum abaixo alguns registros da edição nacional de Ikkyu pela Veneta:


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imagem: capa do volume 1 de ikkyu.

Volume 1: Terra


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O Rio Grande do Sul segue em situação de calamidade pública, passando por uma das piores tragédias da história do estado, após fortes chuvas e enchentes que permanecem em algumas regiões. O governo estadual reativou o PIX do “SOS Rio Grande do Sul”, criado ano passado, quando o estado foi também assolado por fortes chuvas, para receber doações que serão direcionadas para dar apoio humanitário às vítimas. Para ajudar, doe pela chave CNPJ 92.958.800/0001-38.

Alternativamente, há outras opções de doação, que também trabalham com ajuda premente, como a Vakinha (Movimento SOS Enchentes) e as Cozinhas Solidárias, do MTST (oferece comida para desabrigados e necessitados). Os Correios estão recebendo doações de insumos (roupas, itens básicos, alimentos etc) para envio sem custo às vítimas. Se preferir, doe para outra instituição de sua confiança.


Essa resenha foi feita em parte com base na edição cedida como material de divulgação para a imprensa pela editora Veneta, que disponibilizou o primeiro volume da obra ao JBox.


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