Resenha: O Mito de Arata Volume 1 – Editora Panini

O primeiro shounen de Watase.

O Mito de Arata, ou Arata Kangatari, é a primeira série shounen da famosa autora de mangás shoujo, Yuu Watase. O título começou a ser publicado nas páginas da Weekly Shounen Sunday (lar de Kekkaishi, Zatch Bell, MÄR, Ranma 1/2, Inuyasha e várias outras obras conhecidas no Brasil) em outubro de 2008 e atualmente conta com 12 volumes e ainda está em andamento.

Arata é lançado nos EUA pela Viz (e sempre aparece nos rankings de mangás mais vendidos), na França pela Kurokawa, na Alemanha pela Egmont e na Itália pela Panini.

Resumo
Em um fantástico mundo alternativo chamado Amawakuni (País da Paz Celestial) vive um garoto chamado Arata, que com sua avó Makari são uns dos poucos descendentes do clã Hime. As mulheres da família Hime são portadoras de um poder chamado Amatsuriki (Poder que Flui do Paraíso) e por isso a cada 30 anos uma garota do clã é escolhida para se tornar a Hime-ou, a governante de Amawakuni.

A Hime-ou é a única que consegue controlar os 12 Shinshous (Bainhas de Deus), que são os mais poderosos Shous (bainha). Um shou é uma pessoa que consegue controlar um Hayagami (Deus-espada). Em Amawakuni os deuses têm forma de espadas com poderes místicos que escolhem aqueles que vão controla-los e por sua vez são controlados pela governante, a Hime-ou.

Tudo estava correndo normalmente na vida de Arata (15 anos) até o dia em que a sucessão da Hime-ou chegou e para sua infelicidade, sua avó o registrou como mulher, pois fazia muitos anos que não nascia nenhuma mulher no clã Hime e os governantes ameaçaram matar qualquer menino que nascesse. Para salvar a vida do neto, Makari o registrou como uma menina e agora que chegou a época da sucessão da Hime-Ou ele deveria assumir o posto como sucessor da princesa. Mas ele não pode assumir o cargo, já que só as mulheres possuem o Amatsuriki, então para ganhar tempo enquanto procura em ramos mais distantes da família por alguma garota que possa assumir o cargo de Hime-ou, a avó o manda vestido de mulher para a capital com sua amiga-serva Kotoha.

Quando chega ao palácio Arata é levado diretamente para a cerimônia de sucessão, mas ela é interrompida por Kannagi que fere mortalmente a Hime-Ou. Kannagi é um dos doze shinshous que deveriam proteger a Hime-ou, entretanto os shinshous se rebelam contra o controle da princesa e aproveitam que ela estava distraída durante a cerimônia de sucessão para atacá-la. Obviamente a culpa cai em cima do Arata que se torna um fugitivo procurado. Ele foge para a floresta de Kando sem saber que as pessoas que entram nessa floresta são “devoradas” e transformadas em pessoas diferentes.

Ao mesmo tempo em que a ação se passa em Amawakuni, no nosso mundo um rapaz chamado Arata Hinohara (daqui pra frente ele será conhecido como Hinohara) está prestes a começar sua vida no colegial. Nova escola, vida nova: ele quer esquecer de todo o bullying que sofreu e começar do zero.

No metrô a caminho da escola ele desmascara e captura um tarado que bolinou uma mulher e com isso ele salvou também um colega da futura turma, Suguru. Ambos se tornam amigos, o primeiro que Hinohara faz na escola. Por causa da captura do tarado, Hinohara se torna popular e todos os clubes o querem – pela primeira vez ele tem amigos.

Só que tudo muda com a chegada de Kadowaki, antigo colega de escola e principal responsável pelo bullying que Hinohara sofreu até então. Bullying pode acontecer por qualquer motivo, no caso de Hinohara o bullying aconteceu por ele ser atlético e modesto, para Kadowaki ele se achava “O Bom”. E Kadowaki faz a vida escolar de Hinohara virar um inferno, novamente.

Depois de penar um bocado na mão de Kadowaki, Hinohara foge e escuta alguém o chamando. Ele é literalmente engolido pelos prédios e se vê em um outro mundo. Enquanto isso o Arata da família Hime depois de ser “devorado” pela floresta Kando se vê no nosso mundo. A partir daí o Arata vai ter que lidar com os problemas de bullying do Hinohara e o Hinohara vai ter que provar a inocência do Arata e derrotar os doze Shinshous.

Impressões
O Mito de Arata é um mangá bem comum e clichê: garoto da Terra troca de lugar com garoto de mundo encantado, onde tem que salvar uma princesa ferida mortalmente, blablablá… E ainda assim consegue ser um ótimo mangá. É como eu costumo dizer, a diferença entre um bom mangaká e um mangaká mediano é que o bom sabe usar o clichê a seu favor.

Yuu Watase começou sua carreira em 1989 e são mais de vinte anos de uma carreira consolidada com vários mangás famosos em seu curriculum, inclusive dois deless lançados no Brasil pela Conrad (Fushigi Yugi e Zettai Kareshi).

O Mito de Arata tem um traço lindo, é divertido e apesar de ter muito texto não fica cansativo, mal dá pra perceber o tempo passar. Até o momento não é nenhuma obra prima, mas dá pra sentir empatia pelos personagens (principalmente com o Arata Hinohara, ele sofre muito…) que são todos muito carismáticos, tanto os mocinhos quanto os vilões; os poderes místicos são bacanas; as situações (uma perguntinha: Por qual razão 90% dos protagonistas de shounen têm que dar um jeito de aparecer em um banho feminino e apanhar das garotas? Afinal, a tara é espiar as garotas no banho ou apanhar delas?) apesar de clichê ao extremo ainda assim funcionam muito bem.

Edição e Adaptação
O trabalho da Panini está ótimo, não dá pra perceber erros de edição (eu não notei nenhum). O acabamento gráfico está no padrão de sempre da editora, papel offset, no mesmo formato que Naruto e Bleach, a impressão estava boa e no meu mangá não havia nenhum borrão nem efeito moiré (quando dá pra ver na página marcas da impressão do outro lado, também é chamado de efeito sombra). No verso das páginas foram colocadas as imagens que estavam no verso da capa original e dos comentários da orelha, mas vale ressaltar que não mantiveram uma das ilustrações que vinha na original.

A adaptação está bacana, os sufixos honoríficos foram mantidos, os termos japoneses criados pela autora (Hayagami, Shou, Shinshou, Kamui, Hime-Ou etc.) continuaram em japonês e são explicados no glossário. Como se trata de uma história que se passa em um mundo fantástico japonês não vejo problemas em manter os honoríficos e termos japoneses.

O glossário apesar de útil está bem grandinho, foram três páginas. Daí eu me pergunto se realmente há a necessidade de tudo isso, se não poderiam usar apenas uma página e colocar as outras para fazer propaganda de novos títulos da editora? Não é implicância com o glossário, eu os acho muito úteis, mas algumas pessoas têm preguiça de ler páginas sem figuras e ficam de “mimimi” com o glossário, então eu acredito que deveria haver apenas o extremamente necessário.

Interessante notar que todas as capas de Arata formam uma única figura (clique no link apra ver a montagem).

Considerações Finais
Eu gostei muito de O Mito Arata, daria uma nota entre 7.5~8 para esse primeiro volume e recomendo a todo mundo que gosta de histórias de fantasia a comprar. Watase se adaptou muito bem ao demográfico shounen e não dá nem pra notar que ela é uma experiente autora de shoujo –  O Mito de Arata é shounen até a medula.

Infelizmente acho que esse título não vai ser muito bem recebido no Brasil. Em primeiro lugar porque a Yuu Watase é autora de shoujo e os shounen-boys da vida (que são a maioria dos consumidores de mangá) odeiam shoujo e costumam ter preconceito com os mangás shounen vindo de autoras de shoujo (já li alguns comentários infelizes por aí). Por outro lado o público-alvo da Yuu Watase é o de consumidores de shoujo, consumidores que são mais flexíveis, mas acredito que entre um shounen e um shoujo eles vão optar por um shoujo e deixar esse mangá de lado.

Acho que foi uma escolha ruim da Panini lançar o título agora, por enquanto o mangá ainda tem 12 volumes, mas como é um shounen da Weekly Shounen Sunday a gente não sabe a quantas edições pode chegar (pode acabar em 15 ou em 60, não se sabe). Além disso a Yuu Watase tem muitas obras mais curtas e que são shoujo de fato, exemplos: Alice 19th (7 volumes), Imadoki (5 volumes), Ayashi no Ceres (14 volumes), antes de se arriscar com um shounen de uma autora shoujo deveriam criar um vínculo do público com ela (Yuu Watase não é Clamp, Tezuka ou Akira Toriyama para ter público cativo). Nos outros países em que Arata vem fazendo sucesso todas essas obras foram lançadas antes dele.

É lógico que há a possibilidade de eu estar falando bobagem (espero que sim, eu amei o mangá) e das pessoas irem com a cara do título nas bancas e o levarem para casa, mas esse ano eu achei a maioria das escolhas de títulos da Panini muito infelizes. Se eu fosse a editora e tivesse que lançar um mangá da Shounen Sunday seria Kami nomi zo Shiru Sekai (The World God Only Knows), Hayate no Gotoku (Hayate the Combat Butler), Zettai Karen Children ou até mesmo Ken’Ichi antes de pensar em O Mito de Arata que é um mangá praticamente desconhecido aqui no Brasil. Sejamos sinceros, ninguém falava nele antes de aparecer o anúncio do mangá pela Panini, até mesmo os fãs da autora pediam outros títulos dela.

Há um boato de que a série vai ganhar animê em breve, eu vi isso no Shoujo Café e no Mision Tokyo. Espero que realmente aconteça, isso deve alavancar as vendas do mangá, mas se o animê estava programado para 2011 e como nós estamos quase no fim do ano e não apareceu mais nenhuma notícia a respeito é bem provável que tenham cancelado o projeto ou não tenha passado de boato mesmo. Se aparecer uma animação no fim do ano muita gente pode correr atrás do mangá, mas ainda acho um mau momento para o lançamento, deveriam esperar a animação sair e aumentar a popularidade da história.

O preço reajustado (R$10,90) também não parece muito convidativo pra quem quer tentar algo novo, pode não parecer muita coisa, mas para quem compra muitos mangás como eu, um real em um título pode fazer uma bela diferença e acho difícil alguém que não conhece nada sobre mangás optar por ele do nada. Espero que a capa – que é muito bonita – atraia compradores.

Em suma, estou torcendo pelo mangá, é uma ótima história que merece ser lida, mas a Yuu Watase tinha muita coisa pra ser lançada no Brasil antes dele.

Título: O Mito de Arata (Arata Kangatari)
Autora: Yuu Watase
Formato:
13,7 x 20, 208 páginas
Duração: 12 volumes, continua
Periodicidade: Bimestral
Preço: R$10,90
Demográfico: Shounen
Gênero: Aventura, Fantasia.

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