Crítica | Power Rangers: Morfagem Feroz (1ª temporada)

Hasbro inicia sua era com temporada independente da versão japonesa e com forte impacto para a expansão da mitologia dos heróis na TV.

Power Rangers é uma franquia que está no ar há mais de 25 anos e continua atravessando gerações. Desde 2018, a marca pertence à fabricante de brinquedos Hasbro (a mesma de Transformers) e de lá pra cá ela mostrou que tem grandes planos para sua transformação, tanto para a TV quanto para outras mídias.

A chamada “Era Hasbro” começou oficialmente em 2019, ano em que estreou Power Rangers: Morfagem Feroz (Power Rangers Beast Morphers) pela Nickelodeon americana. Havia muita expectativa entre os fãs, principalmente por ser uma adaptação de Tokumei Sentai Go-Busters, uma série Super Sentai originalmente planejada para ser a 21ª temporada da franquia (fazendo ligação com Power Rangers na Galáxia Perdida) pelas mãos do roteirista Amit Bhaumik (Força Animal e Tempestade Ninja), mas que foi descartada pela extinta Saban Brands. A produção da época alegou que Go-Busters tinha poucas cenas japonesas aproveitáveis para a adaptação, o que não deixa de ser verdade.

 

Entendendo as origens

A série original Tokumei Sentai Go-Busters

Go-Busters foi uma produção de 2012 que quebrou padrões da franquia da Toei Company em sua época. Substituindo Kaizoku Sentai Gokaiger (série que marcou os 35 anos de Super Sentai em 2011 e que é a versão original de Power Rangers Super Megaforce), Go-Busters contou a história de três jovens dotados de superpoderes que sobreviveram a um acidente que concebeu a organização maligna Vaglass. Os Go-Busters lutam para deter o vírus de computador Messiah e seus generais, antes que eles dominem uma fonte de energia chamada Enetron. Cada episódio era chamado de “Mission” e pela primeira vez vimos heróis da franquia com trajes de couro. Sem contar que foi a única equipe até o momento com o nome oficialmente referido no plural.

Esta série Super Sentai teve referências aos Power Rangers. Os braceletes de transformação se chamavam Morphin Braces. Tais dispositivos de transformação diziam “It’s morphin time!” (É hora de morfar!) e os robôs gigantes eram denominados como Megazords (!). Em outras palavras: o que era uma heresia para os mais “ortodoxos”, que sempre destilavam um ranço boboca contra a versão americana pelas redes sociais, serviu como um carimbo para autenticar a parceria (comercial) entre as franquias japonesa e americana.

Go-Busters teve uma premissa interessante, caiu em episódios arrastados durante a primeira metade, mas logo recuperou seu fôlego do meio da série até o final. Provou que tinha potencial para fazer a diferença e ainda reservou um espaço para um crossover com o Gavan Type-G, num arco de dois episódios que serviram para promover o filme de Uchuu Keiji Gavan (Space Cop no Brasil), a primeira série Metal Hero, produzida em 1982. Não fez grande sucesso e obteve média de 4.1% em audiência nas manhãs de domingo da TV Asahi. Um número inferior a Gokaiger, que teve média de 5.0%. A Toei optou por investir em novas séries Super Sentai com temáticas mais leves para que o público infantil japonês tivesse mais afinidade. Por outro lado, desde 2013, a audiência das séries Super Sentai nunca mais foi a mesma e ainda patina em torno de 3%, mesmo com o novo horário das 9h30 da manhã (inaugurado em outubro de 2017). Em tempo, a maior audiência do antigo horário foi em Gaoranger (de 2001), com a média de 8.8%. Pode ser que a baixa da taxa de natalidade tenha contribuído para tal, mais isso é outro assunto.

 

Soltando as feras

Os Rangers se preparam para entrar em ação

O que parecia ser improvável na época da Saban, se tornou realidade nas mãos da Hasbro. Power Rangers: Morfagem Feroz se passa num futuro próximo da fictícia cidade Coral Harbor, onde a agência secreta Grid Battleforce descobre uma combinação entre a substância recém-descoberta chamada Morph-X e DNA animal para criar uma nova equipe formada por um trio de Rangers. Por outro lado, surge o vírus de computador Evox que ameaça dominar a fonte de todo poder da Rede de Morfagem.

Durante a finalização da mutação, Blaze (Colby Strong) e Roxy (Liana Ramirez), os respectivos aspirantes para Rangers Vermelho e Amarela, são infectados por Evox e se tornam avatares do mal. Seus corpos ficam inconscientes, enquanto suas cópias malignas se preparam para tocar o terror. O único sobrevivente é Ravi, que é salvo pelo jovem Devon e pela zeladora Zoey. Os três são submetidos à experiência com Morph-X em caráter emergencial e se tornam Power Rangers.

A Grid Battleforce mantém a preservação da identidade secreta dos Rangers. Devon Daniels (Rorrie D. Travis), o Ranger Vermelho, tem uma relação distante com seu pai, o prefeito de Coral Harbor, e sonha em um dia contá-lo sobre sua nova missão. Ele é impaciente e demonstra um excesso de autoconfiança, porém tem um instinto de irmandade por seus companheiros. Zoey Reeves (Jacqueline Scislowski), a Ranger Amarela, também deve esconder esse segredo de sua mãe, que é uma repórter de uma estação local de TV. Ela é criativa e acredita na solução de problemas ao invés de fugir deles. E Ravi Shaw (Jazz Baduwalia), o Ranger Azul, é filho da Comandante da GB, porém esconde sua vocação para as artes. É rigoroso com as regras da agência e, com isso, decidiu terminar seu antigo relacionamento com a Roxy por causa da regra que proíbe o namoro entre Rangers.

Por possuírem DNA animal, os Rangers possuem fraquezas específicas. Devon tem o poder da chita e por isso tem cinofobia (aversão a cães). Ravi tem o poder do gorila e o uso excessivo de sua força lhe causa superaquecimento. E Zoey tem o poder do coelho e sofre de hipermetabolismo ao usar seu poderes por muito tempo, levando-a a consumir muita cenoura para restaurar suas forças. Nesta adaptação, seus pontos negativos são mais consistentes. É que em Go-Busters, suas contrapartes tinham fraquezas parecidas e algumas não tinham muito a ver com os animais que eles representavam. Fazendo uma breve comparação: Hiromu Sakurada/Red Buster tinha alectorofobia (medo de galinha) e Yoko Usami/Yellow Buster tinha depleção de calorias, precisando se alimentar de doces. Já a fraqueza de Ryuji Iwasaki/Blue Buster foi mantida por sua contraparte americana, mas a diferença é que ele mudava sua voz e entrava em colapso.

A dupla de Cybervilões Roxy e Blaze

E assim como os Go-Busters tinham os robôs Buddy Roids como parceiros, os Rangers da GB tem os Beast Bots, capazes de auxiliá-los durante a operação de seus Zords. Cruise (Cheeda Nick na série original) é o parceiro de Devon e pode se converter numa moto. Smash (Gorisaki Banana) é o parceiro de Ravi, gosta de dar abraços e fica triste quando não é retribuído. E Jax (Usada Lettuce) é o parceiro de Zoey e odeia ser chamado de “fofinho” ou coisas do tipo.

O braço direito dos novos heróis é o jovem cientista Nate Silva (Abraham Rodriguez), que cuida do arsenal e está sempre pronto para ajudar os heróis no que eles precisarem. Filho único, sente-se sozinho por não ter um irmão e sofre de aracnofobia. No meio da temporada, Nate se torna o Ranger Dourado e cria seu próprio Beast Bot chamado Steel (Beet J. Stag em Go-Busters), que passa a ser como seu irmão e capaz de morfar no Ranger Prateado. E não menos importantes, porém quase inúteis, os Rangers também contam com a ajuda do atrapalhado casal de irmãos Betty e Ben Burke (talvez uma tentativa frustrada de serem Bulk & Skull da atualidade).

Evox e seus capangas se ocultam nas profundezas da Cyber Dimensão e contam com os avatares de Blaze e Roxy para ganhar um corpo físico para transitar pela nossa dimensão. Junto com eles também está o robô-cientista Scrozzle (visual original), que cria novos Robotrons (Metaloids), Gigadrones (Megazords) e os soldados Trônicos (Buglars) para atacar Coral Harbor, além de servir como o superior dos avatares. Blaze e Roxy podem se transformar em Cybervilões com visuais reaproveitados de Dark Buster (visual de Enter nos dois últimos episódios de Go-Busters) e Escape Evolve (a forma monstruosa de Escape; originalmente de cor roxa, o traje foi adaptado para a amarela). No meio da temporada surge Vargoyle (Danganloid), um antigo robô criado por Scrozzle que volta para dar mais dor de cabeça aos Rangers na reta final.

 

Renovando o legado

O Ranger Vermelho e seu possante power-up

Power Rangers: Morfagem Feroz veio com a proposta de abrir o leque da expansão do universo na TV, algo que já acontece em constante atividade nos quadrinhos da BOOM! Studios. Temos essa impressão logo no primeiro episódio quando alguns vilões de antigas temporadas são mencionados (incluindo o nome de uma feiticeira conhecida pelos mais velhos). Morfagem Feroz tem méritos, primeiramente por não se prender ao plot de sua contraparte original. Os trajes de couro tiveram que ser refeitos (levando em conta a diferença de tempo) e visuais dos vilões de Vaglass foram mais independentes ainda. Praticamente as cenas japonesas com as maquetes são as mais reutilizadas na série e quase nada (re)vemos das cenas de ação da equipe original. Ponto positivo e reforça a produção de cenas originais de ação com os Rangers transformados (coisa que acontece desde a segunda temporada de Mighty Morphin Power Rangers).

A série tem alguns problemas como as dispensáveis trapalhadas de Betty & Ben, além de saídas fáceis demais para serem solucionadas em alguns episódios. Mas o forte de Morfagem Feroz são o carisma e a evolução dos heróis no decorrer da jornada contra as forças do mal. Até aqui, a série está impactando o público e tem grandes chances de iniciar uma era mais ousada na mitologia de Power Rangers.

Só para se ter uma ideia, vem aí um episódio especial para a segunda temporada (que não levará o nome “Super” no tútulo) com a volta de Jason, o primeiro Ranger Vermelho, e outros heróis com temáticas sobre dinossauros para um episódio especial (baseado no filme Kyoryuger vs. Go-Busters). Possivelmente um gancho para a exploração da Rede de Morfagem e até mesmo do recém-estabelecido multiverso para futuras temporadas na TV. Isso sem mencionar que há rumores de que alguns personagens de Power Rangers RPM (2009), que é de outra cronologia da franquia, na segunda temporada de Morfagem Feroz. Toda essa expectativa tem agitando o fandom nos últimos meses.

O nascimento dos Rangers Prateado e Dourado

Sobre a dublagem, a Marmac continua com os trabalhos com a franquia. Algumas vozes combinam, outras são intragáveis. Precisa ter um pouco mais de cuidado com a tradução, visto que Steel foi chamado por, pelo menos duas vezes, de “Aço”.

Não espere que Power Rangers: Morfagem Feroz seja um Espaço, uma Galáxia Perdida, um Resgate ou uma Força do Tempo da vida. É sim superior a algumas séries da recente fase Neo-Saban e tem tudo para cativar a antiga e a nova geração da franquia. O legado continua e sempre transmitindo bons valores para os novos espectadores, bem como os heróis multicoloridos da terra do sol nascente. A Hasbro tem mais arrojo que a Saban para ir mais além. Ainda precisa fazer alguns ajustes com o tempo, mas ela está num bom caminho. Power Rangers tem tudo para ter sua mitologia ainda mais enriquecida no futuro próximo e isso pode ser apenas o começo.


Todos os 22 episódios da primeira temporada de ‘Power Rangers: Morfagem Feroz’, incluindo os especiais de Halloween e Natal,  já estão disponíveis na plataforma de streaming Netflix, com opção de dublagem em português. Atualmente a série está em reprise no canal pago Cartoon Network, sendo exibida às segundas-feiras a partir das 16h30 (horário de Brasília).

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