Dá para comparar nosso mercado de mangás com o japonês? Tradutor Thiago Nojiri conta sua experiência

O JBox conversou com o atual tradutor da NewPOP, que viveu no Japão durante a infância.

O mercado brasileiro e o mercado japonês de mangás são muito diferentes. No Brasil, os mangás são parte de um nicho pequeno entre os leitores, já no Japão, é muito mais comum encontrar leitores regulares de quadrinhos. Para entender um pouco mais sobre essas diferenças, o JBox entrevistou Thiago Nojiri, tradutor de japonês que passou parte da infância no Japão.

O papo começou com uma das diferenças mais básicas entre os mercados: o formato como as obras são seriadas em cada país. No Japão, como já sabido por boa parte do público otaku, a maioria das histórias são publicadas em revistas periódicas, contendo várias séries. Cada edição nova da revista traz um novo capítulo de cada obra seriada nela – os tamanhos dos capítulos geralmente variam conforme a periodicidade da revista (as publicações semanais têm capítulos menores em comparação às mensais, por exemplo).

Quando uma história contém em torno de 200 páginas, a editora compila os capítulos em um encadernado específico dessa obra (os japoneses chamam esses encadernados de tankobon). Aqui no Brasil, tradicionalmente são publicadas apenas as versões encadernadas (recentemente algumas séries ganharam publicação de capítulos simultâneos devido ao formato digital).

Reprodução. | Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Apesar das revistas seriarem os capítulos antes dos tankobons serem lançados, Thiago nos contou que no Japão é bastante comum pessoas lerem apenas os volumes encadernados – ele acredita que essa prática foi ficando mais comum com a entrada de serviços digitais, como a Jump+, pois eles facilitam o acompanhamento das séries individualmente. A venda de revistas têm caído, mas o mercado geral de quadrinhos não parece sofrer a mesma queda, indicando que muitos hoje preferem acompanhar apenas as histórias preferidas. Em 2019, a circulação de revistas impressas sofreu queda de 4,9% enquanto a venda de “e-comics” cresceu 29,5%, segundo relatório da Associação Nacional de Editoras (do Japão).

Aqui no Brasil, apesar do mercado ter se diversificado nos últimos anos, os animês de sucesso ainda são uma grande referência das editoras na hora de trazer novos títulos. Segundo Thiago, apesar de ser comum mangás serem adaptados em animê por já terem muito sucesso, como foi com Mob Psycho 100 e One-Punch Man, também há casos de quadrinhos que se tornam realmente populares após uma adaptação em animê, como Demon Slayer: Kimetsu no Yaiba e Attack on Titan. Contudo, ele acredita que, mesmo assim, a adaptação animada ainda é bastante refém do desempenho dos quadrinhos, mirando sempre em impulsionar as séries com vendas já relativamente boas.

Thiago ficou no Japão dos 5 aos 13 anos, frequentando escolas japonesas. Ele conta que acompanhar a Shonen Jump era quase como futebol aqui: no dia que a revista saía, sempre havia alguém que levava a edição mais recente para a escola, fazendo um rodízio entre os alunos, aí todos comentavam sobre os novos capítulos das séries favoritas. Hoje em dia é relativamente comum encontrar propagandas de mangá nas ruas ou na TV japonesa, como esta, de Otonari Complex.

Falando um pouco de light novels, Thiago contou que esse conceito é relativamente recente – antes os livros, mesmo baseados em mangás ou animês, entravam na categoria “romance”. Perguntado sobre as diferenças entre ambos, ele explica que não há muita. Embora esteja associada a um formato sem muito compromisso com uma estrutura narrativa tradicional (não precisam respeitar regras gramaticais, formatação, etc), no fundo, é uma questão editorial: tudo que sair pelo selo “light novel” de uma editora, é uma light novel, não importando a história, formatação ou o autor.

 

Shimoku Kio, Kodansha / Comitê de Produção da Segunda Geração Genshiken.

 

Apesar de haver essa diferença “formal” entre light novel e romance,  não existe um preconceito social de uma ser “menos literatura” que outra para os japoneses – também não há nada do tipo com o mangá, provavelmente por haver um público leitor muito grande no país. O preconceito fica mais relacionado a fãs adultos de animê, considerados tradicionalmente como “produtos para criança”.

Questionado sobre o motivo de light novels não terem “pegado” tanto no Brasil quanto em outros países, Nojiri acredita que está mais relacionado a uma discussão social sobre cultura de leitura. Não são só mangás ou novels que acabam sendo “produtos de nicho”, o público leitor geral aqui é menor. Ele ainda conta que, no Japão, como há um costume muito maior de ler, existem muitas livrarias por todo canto e a acessibilidade a livros também é maior.

Por fim, para Thiago, a diferença mais marcante entre os dois mercados de mangá é a diversidade. No Japão, principalmente nos últimos anos, há uma variedade muito grande de temas e gêneros – inclusive, para ele, isso se relaciona com a queda de venda de obras individuais, supondo que as pessoas não deixaram de ler mangá, só passaram a ler outros tipos de obras e por isso as vendas gerais se mantêm, ou até crescem, enquanto as vendas de revistas e algumas obras específicas caem. Nojiri frisa, no entanto, que é muito difícil fazer comparações entre Brasil e Japão por serem escalas de mercado muito diferentes.

O JBox agradece ao tradutor pela entrevista. Thiago já traduziu para a JBC e hoje está na NewPOP, além de participar de diversos eventos como intérprete japonês-português. Caso queira acompanhá-lo, ele é ativo no Twitter e, eventualmente, publica alguns textos no Medium.

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