Crítica | Ultramarine Magmell – Volume 1 (Panini): Um mundo não tão novo assim

Não se sabe de onde veio, o que é e para onde vai.

Um novo continente surge subitamente no meio do oceano e deixa a população do planeta terra de cabelo em pé. Aventureiros movidos pelo furor da curiosidade e a promessa de um mundo novo e cheio de mistérios, que atiçam as ambições mais remotas, se encaminham diariamente para esse pedaço de terra batizado de Magmell.

Contudo, o que esse lugar possui de preciosidades, possui também de perigos, as almas audazes que empreitam jornadas no novo mundo (na maioria gritante das vezes) ao invés de voltar para casa com riquezas, nem voltam mais. É nesse problema profundo de logística que o escritório “Drift”, um esforço conjunto dos protagonistas Inyo e Zero, entra com tudo para resolver o problema daqueles que foram e agora não conseguem voltar, oferecendo o serviço especializado de resgate.

Esse cenário empreendedor constitui a apresentação temática de Ultramarine Magmell, onde Inyo, um rapaz púbere com características muito comuns e preocupantes entre adolescentes — como a completa falta de gordura corporal e expressão cansada, coisas provavelmente causadas pela alimentação deficitária em nutrientes — além de sua visível tentativa constante de parecer desinteressado em suas atividades cotidianas e laborais, insatisfação essa muito comum também nessa faixa etária, momento da vida onde os adjetivos “dedicado” e “espirituoso” são frequentemente tratados como traços a serem evitados a todo custo.

Acompanhando esse adolescente está Zero, uma garota aparentemente mais jovem que Inyo, mas que também compartilha vários traços desse comportamento típico, além de uma obsessão profunda por seios.

O sono excessivo pode ser sintoma de diversas doenças. (Reprodução / Panini)

Os dois adolescentes foram apresentados, mas… E os responsáveis por essas duas figuras centrais neste mangá? Claro, eles podem ser órfãos, ou até mesmo fugitivos, mas valeria pelo menos uma menção, já que eles possuem uma empresa e moram sozinhos.

Além disso, eles são irmãos, amigos, amantes? Nada disso é esclarecido, talvez nem mesmo mencionado, mesmo que exista entre eles uma relação de pelo menos cooperação que a medida que as páginas são folheadas se desenvolve em no máximo uma camaradagem, uma coisa não muito expressiva, claro, para não entrar em conflito com a falta de interesse basilar à personalidade de ambas as pessoas.

A abertura desse escritório também é um pouco confusa, é curiosa a ideia de dois adolescentes conseguindo abrir uma empresa e efetuarem serviços para empresas bem estabelecidas, como ocorre já no primeiro capítulo.

Seria Inyo um Micro Empreendedor Individual? Será que ele emite notas fiscais? Ou será que ele simplesmente ignora a legislação e trabalha por debaixo dos panos como um grande gangster do mundo dos resgates, um ancap que se nega a pagar seus impostos e declarar imposto de renda?

Essas também são especulações que servirão apenas para inquietudes e conjecturas, pois o máximo que ocorre no campo da administração de empresas é a ida de Inyo e Zero a uma loja que vende apetrechos bélicos perigosíssimos, onde estes dois fazem de tudo (até o impensável) para arrancar um desconto do proprietário.

Um péssimo gosto para decoração de ambientes. (Reprodução / Panini)

Também não fica muito claro como e onde essas figuras adquirem suas proficiências e habilidades, deixando assim a avaliação das suas capacidades sem um chão onde se possa pisar.

Eles possuem uma profunda expertise em técnicas de resgate e na compreensão dos desafios que Magmell pode oferecer, justificando o desinteresse ambos, já que onde não há o frio na barriga do desconhecido, muito dificilmente existirá o entusiasmo pela descoberta.

Ambos os personagens no fim das contas parecem muito amargurados e pragmáticos, alguns poderão dizer até cínicos, aspectos que talvez sejam o resultado daquilo que apontei antes, a completa ausência de figuras afetivas.

Mas não se preocupe, esta obra passa longe de explorar essas nuances emocionais, o que é uma pena, pois fiquei muito condoído com a situação mental de ambos. O que a obra sim se preocupa é em picotar animais nativos de Magmell. Inyo usa seus possantes poderes em situações de perigo para transformar os espécimes agressivos que atentam contra a vida dos resgatados em cubinhos ou pó. Inclusive, não para por aí: não apenas os animais nativos são assassinados, mas também os visitantes, já que existe também a morte de seres humanos por seres humanos, o crime inaugurado por Caim e Abel na cultura cristã. A morte e a representação gráfica desta é disposta sem muita parcimônia, mas não há sangue, órgãos ou componentes comuns em seres vivos, o que talvez seja uma grande decepção aos apaixonados por anatomia.

Só faltou o sol com um sorriso no canto do desenho. (Reprodução / Panini)

Aos apaixonados por biologia ou paisagem, também não se pode dizer que seja ofertado muita coisa ao deleite visual, pois a fauna é francamente menos criativa do que aquela criada pela mãe natureza. O ornitorrinco é indiscutivelmente um animal muito mais maluco do que qualquer habitante de Magmell.

Na flora, a paisagem provavelmente decepcionaria muito o interessado em fazer uma tomada aérea utilizando um drone, bem como ao adepto de trilhas no meio de florestas, já que as plantas não possuem qualquer tipo de especificidade ou diversidade agradável ou instigante.

Claro que eu seria um tolo em avaliar uma paisagem sem conhecer a estação do ano na qual as cenas retratadas estão ocorrendo, porém isso tampouco é explicitado, deixando-me completamente desarmado e profundamente consternado.

No que diz respeito aos aspectos combativos de Inyo, coisa importantíssima já que essa é a grande atração, pode-se dizer que não há muita virtuosidade representativa ou abstração mais sofisticada das suas capacidades sobrenaturais. Além disso, como já dito antes, não se sabe de onde elas vieram, nem como funcionam especificamente, dando uma liberdade grande até demais para a surpresa.

É estranho porque não fiquei muito surpreso com os poderes de Inyo, tudo ali parecia muito familiar, nada muito fora daquilo que se espera de um super poder, tanto na sua potência, visualização e nomenclatura. E aí se poderia dizer também, que os nomes das coisas em si sejam excessivamente estrangeiras, mas longe de mim querer ser nacionalista ou coisa do gênero. I Love New York.

Animais fascinantes. (Reprodução / Panini)

Zero também não foge dessa indefinição constante, operando com fluência um robô flutuante que só deus sabe de onde surgiu, a partir de um monitor gigantesco que surge ao soar de palavras mágicas.

Não sei como anda o desenvolvimento tecnológico do mundo onde eles moram, mas me parece que é sim algo que as grandes empresas do Vale do Silício devem almejar como o apogeu da informática.

Retomando a sua obsessão por seios femininos, poderia ser isso um grito de socorro de uma criança que não foi devidamente amamentada até a idade recomendada pelos especialistas? Eu acredito que sim, e por isso me preocupo ainda mais.

Ao situar esses dois personagens misteriosos nesta trama mais misteriosa ainda acabamos sendo testemunhas de um mistério desafiador até para especialistas na arte da análise de evidências. Entretanto, me parece que a história não é justa com o investigador e dá pouca ou nenhuma pista sobre si mesma, de forma deselegante e esnobe.

Lembrando até o conto de Edgar Allan Poe onde, apesar dos esforços hercúleos de investigação de uma mente brilhante, o culpado do assassinato era inesperadamente um orangotango africano (se bem me lembro), animal nunca mencionado em qualquer linha da história. Desnecessário dizer que fiquei revoltado com esse causo de Allan Poe, da mesma forma que fico com Ultramarine Magmell.

O que demarca este mangá do começo ao fim é a vagueza, Di Nianmiao não parece saber lidar com a liberdade que ele tanto tenta conservar ao longo deste primeiro volume. Ultramarine Magmell quer muito se ver fora de quaisquer constrições específicas, não se comprometendo com definições ou traços mais distintivos em sua composição narrativa, mas ao mesmo tempo não oferece algo que justifique essa postura liberal, já que em todos os seus aspectos, com exceção da sua premissa talvez, este mangá é comum e previsível.


Para essa resenha, foi utilizado o primeiro volume de Ultramarine Magmell, publicado aqui no Brasil pela Panini em novembro de 2019. Ele tem tradução do Luciane Yasawa, capa cartonada, miolo em papel offwhite e vem com um marcador de brinde. O preço de capa está por R$22,90, com seis volumes já tendo saído por aqui até então. O fascículo foi enviado ao JBox como material de divulgação para a imprensa à época do lançamento. Porém, por problemas de logística aqui do site, agravados mais tarde pela pandemia do COVID-19, só pode ser resenhado essa semana.


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