Imagem: Capa do mangá nacional de 'Homem Sem Talento', dentro dos padrões de resenha do JBox.

Crítica | O Homem Sem Talento: Uma triste narrativa sobre a busca pelo nada (Veneta)

Triste, incômoda, revoltante e especialmente tocante, ‘O Homem sem Talento’ é uma obra-prima que nos destrói a cada página através de uma procura incessante pelo que de mais desimportante há na vida adulta.

Pouca gente nos relata, quando mais novos, o quão vazia de significado a vida adulta pode ser. As partes mais dificultosas são frequentemente apontadas: contas para pagar, saúde para cuidar, frustrações para lidar, pessoas mais novas ou mais velhas para se responsabilizar.

As mais prazerosas, claro, com merecimento, são exaltadas: independência, maturidade, desprendimento, autoconhecimento, por aí vai. Mas o enorme espaço inerte, plano e neutro entre esses dois opostos é bem menos comentado do que deveria ser.

O Homem sem Talento (Munou no Hito, no original), obra do autor Yoshiharu Tsuge, originalmente publicada no Japão em 1985, recentemente trazida ao Brasil pela editora Veneta, é uma triste, esquisita, desconfortável e, ao mesmo tempo, belíssima história sobre a busca desse “nada”. Nada esse que não é literal, tampouco pejorativo, mas sim existente e capaz de render muito pano para manga numa discussão.


Na trama, observamos alguns pedaços da vida do ex-quadrinista Sukezou Sukewaga. Após desistir de desenhar, ele se aventura em diferentes ramos, como recuperar câmeras antigas para vendê-las a colecionadores, antiguidades variadas e, atualmente, após uma série de fracassos, decide se tornar vendedor de pedras.

Imagem: Sukegawa em sua "loja de pedras".
Reprodução.

Não pedras raras, bonitas, chamativas, mas pedras ordinárias, que ele cata na beira de um rio perto de onde mora e as vende numa banca ali mesmo.

A falha no plano é clara: obviamente, ninguém pagaria por uma pedra que poderia pegar de graça no chão desse mesmo lugar. Ainda que ele insista que as que foram escolhidas e expostas são especiais a seu modo, ainda que ele tenha dedicado longos anos de trabalho ao selecioná-las.

Numa primeira vista, essa parece uma história de injustiça, na qual Sukewaga, por empecilhos do destino, não havia alcançado o sucesso que mereceria, sendo empurrado a uma vida de fracassos profissionais e miséria por consequência disso.

No entanto, conforme os capítulos vão passando, o leque de possibilidades se abre e podemos enxergar que as coisas vão um pouco além disso. Sukewaga, na verdade, optou por ativamente abandonar o mercado de quadrinhos, onde morava o seu maior talento, pois acreditava que esse é um mercado que não lhe traria tantos lucros futuramente.

Nas chances que teve de retornar, pois tinha certo renome no meio, recusou com gosto. E a energia e dedicação que poderia ter utilizado para exercer esse talento, o mesmo decidiu engatilhar em atividades que, ao fim, não fariam diferença alguma.

Sukewaga optou pela busca pelo “nada”. A venda de câmeras, sobretudo a venda de pedras, assim como os sonhos com o antiquário próprio e com a construção de uma ponte: todas esses são propósitos fadados ao fracasso, seja pelo total desinteresse que a sociedade retratada aqui tenha por empreendimentos assim a médio prazo, seja pelo entendimento que o protagonista tem disso ao observar seus pares e ainda assim manter tais propósitos. Mas a falta de sucesso parece ser o seu objetivo. O desejo de não vencer. De optar pelo vazio de significado, coletivo e próprio.

Imagem: Quadros com Sukegawa e outro personagem.
Reprodução.

A narrativa amplia essa ideia ao inserir uma gama de coadjuvantes que, cada um a sua maneira, também compartilham dessa meta de vida. Há um livreiro que tinha pretensões de coletar obras raras e colocá-las em circulação, mas que se acomodou ao encontrar uma esposa, que já tinha uma livraria, e agora passar os dias literalmente dormindo no trabalho; o caso de um ex-dono de pousada, que viu sua mulher abandoná-lo por um caçador de pedras e, ao fim, virou empregado deles; um vendedor de passarinhos proibidos de serem comercializados que ninguém quer comprar.

Mesmo representações mais icônicas vão jogando atenção para isso. Uma das mais impactantes é a de um monge duma seita zen budista proibida (literalmente, um monge que busca o “nada”), que aparece para Sukewaga e sua família quando eles vão ao interior, já que não haveria mais espaço para figuras assim perto das metrópoles. A passagem com um “homem pássaro” e a relatando a vida de um ex-ronin poeta se afundando na bebida levam tudo prum lado mais surreal e tocante.

As coisas ficam ainda mais interessantes ao percebermos que O Homem sem Talento é um exemplar de história em quadrinhos “sobre o eu”. Yoshiharu Tsuge foi um autor bastante importante em seu tempo dentro de um nicho de revistas alternativas, mais experimentais, originalmente criadas para circulação em “locadoras” de livros.

Ao não acompanhar o avanço do mercado de gibis no Japão, ele passou um período afastado do nicho, até ser recuperado por publicações mais específicas, que lhe davam bastante liberdade artística, onde ele pode se tornar ainda maior e influenciar toda uma geração de quadrinistas dali em diante.

Não é que O Homem sem Talento seja 100% autobiográfico. O que acontece é que Tsuge inseriu experiências próprias que pudessem ser abarcadas pela trama criada por ele aqui. E isso é feito com um primor tão grande e com o auxílio de tantas técnicas narrativas que exploram esse viés mais realista que é impossível passar incólume à leitura.

O jeito mais cru que ele desenha os personagens, sem o “embelezamento” cartunesco que se tornou característico das bandas nipônicas, acentua esse caráter.  Não há um arco de redenção, piora ou melhora de situação para ninguém. É tudo de uma linearidade terrível, fria e muito angustiante de acompanhar. Mesmo o final é estranhamente brusco, sem floreios, como finais de períodos específicos da vida são.

Imagem: O Homem Sem Talentos com as mãos no rosto, frustrado talvez.
Divulgação.

E essa história pode também ser lida como uma possível crítica aos avanços, comerciais, tecnológicos ou sociais, que o Japão vinha sofrendo anos antes de época de sua publicação.

Sukezou Sukewaga pode ser entendido como um avatar a todos os autores mais artísticos que não quiseram (ou conseguiram) se adaptar à evolução do mercado interno de quadrinhos; o segmento com o vendedor de pássaros, reclamando que as aves mais procuradas naquele momento eram estrangeiras, pode ser posta como uma crítica à ocidentalização; e, de certa forma, toda a melancolia de vendedores de antiguidades sem tanto sucesso comercial quanto outrora pode representar uma idealização tóxica de um passado que não voltaria mais.

O Homem sem Talento é uma sensacional narrativa sobre o nada. Passa bem longe da obviedade e, de uma maneira bem simples, consegue despertar uma imensidão de sentimentos no leitor. É o tipo de obra que permite tantas interpretações quanto o leitor se permitir afundar, além de despertar uma enorme curiosidade acerca de outros gibis, desse ou de outros autores, que fizeram parte desse ponto mais alternativo da história de publicações nipônicas. Adoraria, por exemplo, ler O Pântano, Chiko, o Pardal de Java e, principalmente, Neji-Shiki.


Essa resenha foi feita com base em uma edição de O Homem sem Talento cedida como material de divulgação para a imprensa pela editora Veneta. Seu preço de capa está por R$64,90.


O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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