Imagem: Eren entre nuvens, Bordas indicando ser um artigo de opinião.

Com final constrangedor, ‘Shingeki no Kyojin’ desafia a boa vontade do leitor | Comentário

Apesar do potencial, história de Hajime Isayama oscila de maneira comprometedora e termina tão mal quanto poderia.

O texto a seguir conta com spoilers do mangá de Ataque dos Titãs (Shingeki no Kyojin, Attack on Titan).


O processo de produção de grandes revistas tende a ser cruel com os autores e os demais envolvidos na criação de um mangá. Com longos anos de publicação, as séries mais populares do Japão geram um desgaste inimaginável para aqueles que embarcam neste ramo. Por esse motivo costumo não atribuir um peso tão definitivo aos desfechos de obras seriadas em periódicos de grande circulação, já que a desumanização causada pelo excesso de trabalho tende a afetar a prática criativa dos artistas — e pode levá-los a resultados pouco satisfatórios do ponto de vista estético.

O final de Attack on Titan (Shingeki no Kyojin), no entanto, foi mais que um final fraco. Não é possível ignorá-lo em nome da famosa “experiência de leitura”, o que é um argumento válido para títulos em que o desfecho não está diretamente relacionado ao desenvolvimento de todas as ações anteriores.

Esse é o ponto que faz do encerramento da trama de Eren um tanto quanto decepcionante. Quando o leitor conhece a história daquela nação ameaçada pela existência de titãs e cercada por enormes muralhas, a primeira coisa que vem à sua mente é: como isso tudo vai terminar? Ora, a escolha narrativa de Hajime Isayama desde o início da série é das mais arriscadas, já que estabelece este problema inicial que terá necessariamente de ser respondido (com ou sem uma solução). A busca por essa resposta é o que irá, no texto, fazer a roda girar, e, fora dele, instigar o leitor a continuar acompanhando o desenvolvimento da história a cada capítulo.

Imagem: Cena do mangá de 'Attack on Titan' com Titã invadindo cidade do Eren.
Reprodução.

Fica óbvio, portanto, que essa resposta tem de ser construída numa certa linearidade de ações em que o quebra-cabeças montado de forma progressiva tem sua última peça encaixada apenas no ato final. Trata-se da forma mais usual dos mangás shounen mais populares da atualidade. Basta pensar em qualquer nome que venha a sua mente e essa será provavelmente a estrutura formal da obra.

Attack on Titan tinha, no entanto, uma peculiaridade: apesar da necessidade da resposta, ela não era óbvia para o leitor (compare por exemplo à Naruto, cujo objetivo de se tornar hokage é alcançado no final como não poderia deixar de ser). Muitas eram as possibilidades de desfecho e mesmo os eventos ao longo da história — geralmente carregados de revelações sobre os mais diversos aspectos da trama — eram capazes de atiçar a curiosidade de qualquer um.

Ao mesmo tempo em que isto abria possibilidades, dava margem para frustrar o leitor que esperava essa ou aquela conclusão. É de se esperar, em qualquer gênero de criação artística (filmes, séries, romances, quadrinhos), que uma parte sinta suas expectativas correspondidas e outra não. Porém esse não deve ser o critério para se determinar se uma obra é boa ou não, já que as expectativas tendem a ser muito particulares.

O problema de Shingeki, no entanto, não tem a ver com expectativa, mas com a falta de profundidade que várias das decisões do autor para a trama apresenta ao longo de seus 139 capítulos.

Imagem: Cena do mangá de 'Attack on Titan' com personagem de cabeça para baixo.
Reprodução.

A primeira queixa é que muitos pontos carecem de explicação. A gênese dos titãs é uma das questões que não ficaram absolutamente claras. De acordo com o que se desenvolve a partir do capítulo 122, o início de tudo ocorre após Ymir Fritz, uma jovem escravizada pela família real, cair numa abertura dentro de uma árvore enquanto fugia de ser violentada a mando do rei.

Ao cair nessa vala pra lá de misteriosa, Ymir adquire o poder de se transformar em titã, solução bastante questionável para um dos principais problemas do enredo.

E este é apenas um dos momentos em que o leitor terá de fazer concessões e prosseguir a leitura sem questionar uma descrição mais detalhada sobre o que está acontecendo. Neste arco final isso ocorre com uma enorme frequência.

De uma hora pra outra somos surpreendidos com o poder do titã de ataque de prever o futuro (num flashback envolvendo o pai de Eren). Descobrimos, lá no capítulo 133, que a titã fêmea, que está em posse de Annie, pode copiar as habilidades de outros titãs, outra possibilidade que sequer havia sido aventada.

Aquela dimensão na qual vive a Ymir, onde Zeke e Eren travam um diálogo a respeito do que cada um deseja para a humanidade, também surge como se já soubéssemos que aquilo era possível dentro das possibilidades apresentadas pelo enredo. Enfim, várias informações são colocadas como se não houvesse nenhum compromisso narrativo para com o leitor, que deve decidir até onde vai a sua boa vontade em ignorar a falta de estofo de certos eventos. A verossimilhança é deixada de lado diversas vezes, como se o autor fosse tão senhor daquilo criou que pode inclusive tomar decisões que vão além de uma coerência textual mínima.

O mais intrigante é que a premissa da Attack on Titan é genuinamente interessante. Isayama conseguiu, no início, apresentar personagens com ethos distintas e com potencial (o trio de protagonistas, Levi, Reiner, Hange etc.), mas o autor não conseguiu trabalhá-los de maneira satisfatória no decorrer da história. Armin não apresenta qualquer desenvolvimento na sua postura conciliatória, que inclusive abandona ao término do estrondo, quando protagoniza a cena mais infeliz de todo o capítulo final. Mikasa, uma figura feminina bastante prestigiada pelo público quando Shingeki se tornou fenômeno de popularidade, por volta de 2013, não teve outra função além da total subordinação a Eren, um dos pontos de maior constrangimento de toda a narrativa.

Impressionante é o potencial desperdiçado nesses casos, em que o autor parece não avançar na constituição de personagens complexos. Armin é aquele a quem se recorre quando é preciso traçar uma nova estratégia, e apenas isso. Mikasa se destaca por sua incrível habilidade em batalha, e só. Eren não é mais que o portador de um enorme poder — que pode decidir os rumos de Paradis e do resto da humanidade — cuja personalidade se resume aos conflitos que lidar com isso imprime em sua subjetividade. Nem o trauma vivido pelo garoto na infância, quando vê sua mãe ser devorada por um titã logo no segundo capítulo, é explorado com mais profundidade (e poderia ser melhor trabalhado do ponto de vista psicológico), servindo apenas como uma espécie de justificativa para as suas ações condenáveis (e injustificáveis) no fim do mangá.

Imagem: Cena do mangá de 'Attack on Titan' com garoto e Eren.
Reprodução.

O salto temporal que antecede o ataque a Marley foi um recurso utilizado como numa recusa a explicar a transformação do Eren num autêntico genocida. Honestamente, o autor poderia ter economizado em outros pontos da trama, como os cansativos conflitos internos de Paradis, e ter dado mais atenção os aspectos da tensão entre as nações, que parecia um momento bastante promissor (um dos poucos além do início, quando a curiosidade ainda é o que move a leitura).

Muitas poderiam ser as reflexões sobre racismo, xenofobia, totalitarismo e outros problemas de primeira importância, mas tudo não sai do plano superficial do esboço. O que parece importar mesmo para Attack on Titan é a plasticidade dos movimentos realizados com o DMT (dispositivo de manobras tridimensional) durante as batalhas entre os dois lados, a capacidade destrutiva dos titãs originais… Ou seja, o que a princípio parecia se desenhar como uma história algo densa, acaba por incidir na mais trivial das formas de battle shounen.

Imagem: Cena do mangá de 'Attack on Titan' com titã comendo alguém.
Reprodução.

As cenas chocantes dos capítulos iniciais, que para muitos indicava algo “mais sério” do que um simples mangá para adolescentes, não passam na verdade de mero recurso – e dele o mangaká usa e abusa. Muita gente enxerga nas escolhas chocantes de Isayama o suprassumo da arte, algo comparável ao que se via em alguns momentos de séries como Game of Thrones, quando a morte de personagens relevantes é encarada como sinal de coragem do autor. Mas essa coragem não significa nada se não tiver um propósito. No fim das contas, a morte de Carla Yeager não é mais do que uma imagem terrível para causar impacto no leitor, sem muita penetração no desenvolvimento da narrativa, assim como diversas outras imagens.

Por fim, não entrarei em méritos morais a respeito da solução encontrada pelo protagonista por supor ser consenso o quão absurda ela é. Tampouco é razoável a saída sugerida por Zeke, cujo plano da eutanásia é tão eugenista quanto o de seu irmão. É preocupante a naturalidade com que essas proposições são colocadas pelas personagens, dado o histórico da realidade material em que vivemos. Os objetivos de Zeke não diferem muito do que se via na Alemanha entre as décadas de 1930 e 1940, com a nota de ridícula de que o líder do intento é parte do próprio grupo oprimido.

Imagem: Cena do mangá de 'Attack on Titan' com Levi numa cadeira de rodas.
Reprodução.

Constrangedora é a combinação de um desfecho catastrófico com ares de final feliz. Ao fim e ao cabo, a série tenta passar algo positivo justificando a eliminação de 80% da população da Terra como uma tarefa feita “em nome da amizade”. Juntar genocídio ao mote mais clichê dos shounens de lutinha é o que poderia haver de mais infeliz, do ponto de vista formal, para uma obra como Attack on Titan e nem o mais hater do mangá poderia imaginar algo tão esdrúxulo.

O prosador e dramaturgo russo Anton Tchekhov (1860-1904) escreveu uma vez, num caderno de anotações, que a vida é uma “marcha rumo ao cárcere” e caberia à literatura “prometer a liberdade”. No mangá de Isayama, essa marcha vira uma passeata, com direito a lágrimas de saudade e sorrisos de agradecimento direcionados àquele que promoveu a barbárie.


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