Imagem: Denji e Pochita em 'Chainsaw Man'. Enquadramento nos padrões de resenhas do JBox.

Crítica | Chainsaw Man: Uma grata surpresa | Volume 1 (Panini)

Ainda preso a algumas convenções dos “shounen de lutinha”, ‘Chainsaw Man’ consegue se sobressair.

Antes de começar, quero chamar a atenção para uma coisa curiosa: a fórmula por trás de Chainsaw Man lembra a de um filme da Sessão da Tarde, já reparou? “Essa é a história de um garoto órfão que passa por dificuldades, mas que vê sua vida mudar ao encontrar um ser ferido. Desse encontro, nasce uma amizade capaz de superar qualquer desafio.”

Calma, não precisa pegar tochas e forcados para correr atrás de mim, pois Chainsaw Man é diferente de qualquer filme que encontramos nas tardes da Vênus Prateada e na sua revista de origem também, apesar de carregar alguns vícios. E, neste caso, diferente é bom.

Imagem: Pochita em cima de Denji.
Reprodução.

A publicação de um mangá na Shonen Jump traz um problema para seu criador, mas geralmente isso é contornado. O problema em questão é o tempo que um autor tem para emplacar uma obra e evitar seu cancelamento, então ele precisa chegar o mais rápido possível na parte que interessa ao leitor – no caso de Chainsaw Man, a ação.

Isso faz o início da história ser corrido, sem aproveitar ao máximo o que o mundo criado pode nos oferecer. Felizmente, com o decorrer da história isso deve mudar, em especial com uso de flashback e expansão desse mundo. Mas se você for esperando um começo detalhado, as chances de se decepcionar são enormes.

O mangá em seu primeiro volume tem uma história simples, e aqui estarei me atendo apenas a ele, lançado recentemente no Brasil pela editora Panini. Claro, não podemos esperar muito de um volume introdutório de uma obra, a não ser uma boa apresentação. Se por um lado a história em seu início é rasa, o autor usa todo o tempo disponível para trabalhar melhor seu protagonista e os personagens que o rodeiam.

Denji é um órfão, perdendo seu pai após este tirar a própria vida e deixar uma dívida de herança para o filho. Cabe a ele fazer de tudo, até mesmo vender partes de seu corpo, para quitar o débito com a máfia. Após passar pela sinopse vista lá em cima, ele se une a um demônio motosserra chamado Pochita e faz um pacto com ele.

Assim, os dois saem caçando demônios em troca de dinheiro. Até eles caírem numa armadilha feita pelos próprios mafiosos e Denji se vê à beira da morte, quando Pochita assume seu corpo. Ele agora se torna um meio-demônio e ganha a habilidade de transformar partes de seu corpo em serras elétricas.

A história sempre parece prestes a dar uma guinada, mas parece frear bruscamente quando chega perto de um pouco mais de desenvolvimento. Não é raro encontrarmos um personagem que parece falar mais sobre si, mas termina ficando só na promessa.

Vínculos precisam ser criados o mais breve possível e assim fica difícil. Sem contar linhas de histórias que são descartadas logo, como o problema de coração de Denji, mas que aparentemente não será um obstáculo maior em sua vida depois. Mas como disse, são coisas que o autor pode melhorar no decorrer da obra, mas neste primeiro momento, fazem falta.

Imagem: Denji falando "Eu posso ter virado um caçador de demônios por um motivo besta, mas..."
Reprodução.

Denji é um sopro de ar fresco no mundo de personagens shonen, a começar pelo seu objetivo de vida. Não, nada de alcançar o maior posto de sua comunidade, salvar o mundo ou resgatar alguém. Sua meta é simples e infelizmente muito real. Suas vontades de ao menos conseguir sonhar com uma refeição simples, ou de um dia conseguir abraçar uma garota – algo que escalona mais pra frente na história – casam muito bem com a realidade do personagem, que não tem medo de esconder o choro ou ser capaz de fazer qualquer coisa, até mesmo se humilhar para atingir seus objetivos.

É o tipo de personagem capaz de nos ganhar logo de cara, em especial pelo seu balanceamento: ele não é perfeito, mas também está longe de ser terrível; consegue ser inocente em certos pontos e esperto quando necessário. Com certeza, um dos melhores protagonistas a dar as caras na revista nos últimos tempos.

Além dele temos Makima, quem contrata Denji como caçador de demônios de um esquadrão experimental numa agência em Tóquio, do qual é líder. Ela tem a melhor apresentação de todas, pois de uma página para outra, vai da moça amigável interessada no bem dele para uma mulher sem escrúpulos, tratando-o como seu cachorro.

A confusão que a moça causa em Denji é a mesma causada em nossa primeira leitura. É impressionante como o autor consegue de uma forma tão simples, nos impactar. Depois vemos Aki Hakayama, o personagem mais sério e rival/parceiro de Denji, basicamente mais um coadjuvante de shonen. E por fim Power, uma garota demônio que não consegue se controlar. Ela consegue contrastar bem com o protagonista, sendo mais explorada dentro da narrativa inicial, ganhando até um mini-arco próprio.

Infelizmente, quem mais sofre é Pochita, o pequeno demônio motosserra presente apenas no início da história. Seu sacrifício passa sem qualquer peso por nós, pois não o conhecemos tão bem e não temos empatia o suficiente para nos importarmos com ele (e só eu acho estranho falar de empatia com um demônio?). No fim, a vitória pírrica, mesmo que momentânea, de Denji no início acaba não trazendo o efeito desejado de nos fazer sentir algo.

Imagem: Quadro cheio de gore de 'Chainsaw Man'.
Reprodução.

A arte de Tatsuki Fujimoto é excelente. O autor decidiu por uma divisão de estilos complementares. Em momentos casuais ou de interações, o mangá tem um estilo de arte limpo, simples, com cenários vazios para chamar a atenção para os personagens, sempre com feições bem detalhadas. Mas é na ação que o mangaká realmente mostra todo seu potencial.

Com traços crus, quadros cheios e pesados e usando do máximo de violência possível, ele nos entrega cenas de encher os olhos e nos deixar pedindo mais. Alguns traços de demônios deixam a desejar, é verdade, mas o visual de Denji transformado vale cada linha desenhada.

Me arrisco a dizer que demoraremos para ver um personagem com visual tão único e bonito de novo na revista. Infelizmente, o que parece vender a obra é o uso excessivo de violência, mas aqui ainda não chega a ser o caso, pois tudo é resolvido rapidamente. Mas como é um mangá shonen, logo devemos ver inimigos mais fortes e mais difíceis de derrotar.

Chainsaw Man ainda está longe de ser profundo, porém consegue satisfazer em sua simplicidade. O mundo criado ainda pode apresentar muitas coisas, pois alguns elementos mostrados, mesmo apenas de forma breve, abrem infinitas portas para que o autor use de sua imaginação.

Chainsaw Man ainda carrega muito do DNA de mangás shounens de lutinha, algo totalmente compreensível. Porém, num momento em que todos os mangakás parecem querer copiar a mesma fórmula e personagens, Tatsuko Fujimoto traz algo diferente – pelo menos em seu início. Para quem deseja uma mudança de ares, o mangá do menino motosserra é uma boa pedida.


Ficha técnica

Imagem: Capa brasileira de 'Chainsaw Man 1'.
Divulgação: Panini

Tatsuko Fujimoto
R$ 29,90,

 

Editora: Panini
Status no Japão: Completo em 11 volumes (com uma segunda fase programada)
Status no Brasil: 1 volume lançado
Periodicidade: Bimestral
Licenciante: Shueisha

 

Capa: brochura
Formato: 13,7 x 20 cm
Páginas: 200, papel offwhite
Tradução: Felipe Monte
Editor-chefe: Helcio de Carvalho
Gerente editorial: Beth Kodama
Produção editorial pela Mythos


Esta resenha foi produzida com base no primeiro volume de Chainsaw Man. A editora Panini cedeu o material ao JBox para divulgação.


O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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