Imagem: Tomie em enquadramento de resenha do JBox.

Crítica | Tomie: A criação de um mito (Pipoca & Nanquim)

Já em sua primeira obra, Junji Ito acerta ao fundar uma lenda ao mesmo tempo em que desperta o leitor para a barbárie presente nas ações humanas.

A primeira série regular do consagrado autor de Uzumaki foi também o meu primeiro ponto de contato com a cosmogonia do considerado “mestre do horror”, criador de um sem número de histórias que são referência do gênero. Leitor de mangás há mais de uma década, conheci a obra de Junji Ito através de Tomie.

E o shoujo de 2 volumes, segundo a edição publicada no Brasil pela Pipoca & Nanquim, pode ser mesmo uma boa porta de entrada para esse universo, visto que apresenta os principais traços da estética do autor e permite ao leitor flagrar um processo vivo de desenvolvimento do seu fazer criativo.

Tomie narra a história de um mistério envolvendo a garota que empresta seu nome ao título do mangá, a colegial Tomie. Conhecida por possuir uma beleza estonteante, a jovem é dotada de uma absoluta capacidade de seduzir os rapazes à sua volta — transformando os que são alvos de seu “feitiço” em verdadeiros capachos.

Acontece que o ápice desse jogo de sedução é sempre o mesmo: o objeto da magia tomieniana acaba por se tornar sujeito, matando a garota de maneira violenta. Entretanto, a morte de Tomie não significa o seu fim, já que ela possui um misterioso poder de regeneração que lhe permite voltar à vida como se nada tivesse lhe ocorrido.

Imagem: Tomie como um monstro perante um rapaz.
Reprodução.

Em linhas gerais, este é o mote com o qual trabalha Junji Ito durante todo o mangá. Num esquema episódico, os capítulos constituem contos com histórias que se encerram em si, mas fazem eco ao todo coeso da trama, pautada nesta proposta inicial.

Ao fim e ao cabo, o que vemos em Tomie é a criação de um mito. Lançando mão de um horror sedimentado por duas bases principais, a saber o grotesco e a ficção científica, Ito funda uma lenda com uma história enxuta, muito bem definida, semelhante aos contos de tradição oral que balizam boa parte do imaginário das mais diversas sociedades.

Como dito, o mangá é composto de diversos contos – e todos versam sobre isso a que chamamos o mito de Tomie. O que garante particularidade a cada um desses contos, portanto, são os diferentes contextos nos quais esse mito é inserido. Isso faz dos personagens “secundários” figuras extremamente fundamentais, visto que, na verdade, serão eles os responsáveis por protagonizar os momentos mais bizarros da série, e não a garota com poderes sobrenaturais.

A narração tenta deixar clara essa função de Tomie: apesar de estar presente inclusive no título da história, não é a ela que devemos nos ater mais detidamente, mas aos seus diversos interlocutores nos diversos capítulos, os quais farão coisas tão absurdas quanto as que a moça pode fazer.

Reprodução.

Entretanto, a equação não é tão simples. Não podemos perder de vista que, a princípio, é sob o efeito do “feitiço” da garota que os seus interlocutores cometerão verdadeiros atos de insanidade. Ao mesmo tempo, esse feitiço muitas vezes representa apenas um start, um certo desvelamento de uma face oculta que as personagens afetadas por ele tentavam manter fora de cena.

Por possuir uma estrutura basilar bastante clara e repetitiva, a medida que se aproxima o final do primeiro volume o leitor pode começar a se cansar da história. Mas, felizmente, é mais provável que ocorra o contrário.

Construir uma narrativa na qual todos os episódios gravitam em torno de um mesmo mote, com começo, meio e fim totalmente previsíveis, é bastante arriscado. Contudo, não se espera menos de quem é chamado de mestre na sua arte do que a capacidade de explorar o máximo de possibilidades a partir de um mínimo de conteúdo.

O risco de a leitura se tornar enfadonha no decorrer dos capítulos acaba sendo suplantado por uma melhora significativa na construção dos episódios. A caracterização das personagens de cada conto, suas ações, pensamentos, desejos, experiências e até o design apresentam uma clara evolução em relação às histórias do primeiro volume.

Imagem: Página com Tomie sendo "morta".
Reprodução.

Em Tomie #1, sendo sincero, poucos contos se destacam, justamente pela ausência de personagens mais marcantes e complexas. Como são as únicas variáveis na obra, já que em todas elas o ciclo da tomielização é certo, apenas através delas Junji Ito poderia dar um verdadeiro significado à obra, e isso definitivamente acontece no volume #2.

Os contos “Adotada” e “Mindinho” são primorosos nesse sentido. Além de apresentarem personagens mais consistentes e que instigam a curiosidade, ambos trazem enredos capazes de te prender com uma facilidade que não é vista na primeira edição.

A empregada Satoko, do primeiro, e suas motivações são responsáveis por um dos melhores plots twists de todo o mangá. Hiroya, o irmão feio de “Mindinho”, protagoniza uma das cenas mais tocantes. Em “Garotinho”, Ito esboça uma releitura do mito de Édipo, ao colocar o pequeno Satoru como o alvo de Tomie e produzir quadros repugnantes (algo característico de seu estilo).

A evolução no modo de narrar, ao passar dos capítulos, é acompanhada por uma evolução mais do que aparente no traço, algo comum em obras que são escritas dentro de um grande espaço temporal – o mangá foi publicado no Japão entre 1987 e 2000. A edição brasileira da Pipoca & Nanquim, feita com miolo em papel pólen bold, privilegia esse aspecto.

No geral, o material é bem construído e justifica os R$ 64,90 cobrados por cada volume. Pessoalmente, não me agradam as capas nacionais do mangá, mas o trabalho editorial é digno de nota. A tradução de Drik Sada, responsável por todos os mangás da editora até então, é mais uma vez excelente e acerta a linguagem ao tom da história (isso também passa pelas mãos dos editores Bruno Zago e Gabriela Kato).

Imagem: Garotinho e Tomie (página).
Reprodução.

Por fim, em Tomie, já estão presentes as muitas cenas de horror gráfico típicas do trabalho de Junji Ito ao longo de sua carreira, sendo provavelmente o traço mais marcante de sua estética. O autor não poupa tinta para trazer o necessário peso para cada quadro em que pretende provocar os sentidos do leitor.

Chama a atenção como a proposta de Ito não é a de causar medo em seu receptor, como muitas vezes pretendem as obras do gênero horror da literatura por aqui. Seu intuito parece ser, na verdade, o de dar vazão a algum tipo de descontentamento ou repulsa, revelando traços abomináveis da psicologia humana por meio de imagens que projetam muitas das nossas perturbações e escancaram o que muitas vezes acaba recalcado pela nossa capacidade instintiva de mascarar a realidade.

Os banhos de sangue, os cortes nas diversas camadas da pele, o escalpelamento, as mutilações e diversos outros atos de brutalidade servem todos a um mesmo propósito, como se estivessem apontando para a barbárie que o Homem pode promover contra um igual — e, por conseguinte, contra si mesmo.


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Ficha Técnica

Imagem: Capa nacional de 'Tomie' (volume 1).
Divulgação: Pipoca & Nanquim.

Tomie
Junji Ito
R$ 64,90

Editora Pipoca & Nanquim

Completo em 2 volumes

Capa cartão (com sobrecapas)
Formato: 22 x 15.8 x 4 cm
Páginas: 450 em papel pólen
Licenciante: Asahi Shimbun
Tradução: Drik Sada
Revisão: Luciane Yasawa
Diagramação: Arion Wu
Edição: Bruno Zago e Gabriela Yukie Kato
Assistentes: Rodrigo Guerrino e Gustavo Figueiredo

 

 

 

 


Essa resenha foi feita com base em edições de Tomie cedidas como material de divulgação para a imprensa pela editora Pipoca & Nanquim.


O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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