Imagem: Mão segurando mangá de 'Kamen Rider volume 2', ao lado de um boneco do próprio (em enquadramento das resenhas do JBox).

Crítica | Kamen Rider | Volume 2 (NewPOP)

Devido a uma drástica mudança na série de TV, surge o herdeiro do espírito de Kamen Rider nas páginas do mangá.

Estamos de volta para mais uma resenha sobre Kamen Rider, o mangá original de Shotaro Ishinomori que está sendo publicado em três volumes pela Editora NewPOP. O segundo volume é marcado por uma drástica mudança que só ocorreu graças a um rumo tomado na série de TV. Caso não tenha lido, confira a resenha do primeiro volume aqui.

O capítulo O Retorno do Homem-Cobra continua do ponto onde a batalha havia sido pausado. Kamen Rider vence o Homem-Cobra, mas ele passa por uma cirurgia de reconstrução, que é muito custosa para a Shocker. Isso só acontece por intermédio da Princesa-Cobra Medusa, que tem uma ligação com o monstro.

Enquanto reflete sobre a sua solidão e seu destino sombrio em viver como um ciborgue, Takeshi aceita o desafio do Homem-Cobra. Por traz do roubo de barras de ouro, há sede de vingança do mutante da Shocker para acabar de vez com o motoqueiro mascarado. Mas a Princesa-Cobra também se prepara para intervir na luta, caso o Rider esteja com vantagem.

É interessante que o mangá tenta aprofundar um pouco o lado humano que ainda existe nos mutantes da Shocker, a ponto de revelar os nomes verdadeiros do casal Cobra – que são humanos modificados. O desfecho desse capítulo é melancólico e acaba deixando o leitor de boca aberta, parando para refletir no quão impiedosa a Shocker é contra a raça humana.

Imagem: Homem-Cobra entre médicos, que realizam uma operação.
O Homem-Cobra durante a cirurgia de reconstrução | Foto: Lídia Rayanne

Na série de TV, o Homem-Cobra perdeu a batalha no episódio 9 e foi reconstruído no episódio 10. No lugar da Princesa-Cobra havia a vilã Ritsuko Ayanokoji, que apareceu apenas na última parte do arco duplo do Homem-Cobra e foi eliminada pelo próprio Grande Líder da Shocker. Tudo sem romantismo, sem carga dramática intensa e beirando mais pro lado do humor, graças à participação especial do saudoso ator Kouen Okumura (1930~2009) como o atrapalhado Detetive Koba.

Okumura é um rosto conhecido de várias séries clássicas tokusatsu e já passou por Ultraman, Ultra Seven, Sharivan e Kamen Rider Black RX. Era um patrimônio da franquia Toei Fushigi Comedy Series, criada em parceria com o Ishinomori, atuando como alívio cômico nas séries Pettonton (1983~84), Nemulin (1984~85), Hard Gumi (1987) e outras participações especiais em outras séries da franquia como no penúltimo (e inédito) episódio de Patrine.

E Ayanokoji foi interpretada pela ex-atriz Shigeko Arai, que participou do episódio 40 de Ultra Seven como Ayako Natsu. Curiosamente, ela é casada com Hiroshi Nakata, astro principal da série Captain Ultra (1967) e o vilão Mason em Bioman (1984~85).

Imagem: O laboratório de Takeshi, o Kamen Rider.
A base secreta de Takeshi | Foto: Lídia Rayanne

Voltando ao mangá: se o arco do Homem-Cobra, por exemplo, tinha um caminho próprio, a coisa ficou ainda mais independente no capítulo 4, intitulado Os Treze Kamen Riders.

Em japonês, uma das formas de falar o número 4 é “shi“, a mesma pronúncia da palavra “morte” na língua. Numa determinada cena deste mesmo capítulo, 13 é referido como “o número da morte“. Em outras palavras: o décimo terceiro Rider estava predestinado a morrer!

Pense na base da Fundação Graad em Os Cavaleiros do Zodíaco ou mesmo no grande laboratório do Dr. Yumi em Mazinger Z. Então, ficamos sabendo que Takeshi não é apenas dono de mansão, mas também do centro de pesquisa “mais avançado do mundo“, segundo Tobei Tachibana. Uma herança de gerações da família Hongo, que agora tem como objetivo deter as ações da Shocker. Um elemento assim até poderia ser utilizada na TV, mas o baixo orçamento é quem manda no tokusatsu.

A relação entre Takeshi e Ruriko, a filha do Dr. Midorikawa, é explorada neste capítulo. Mas Takeshi procura resistir por causa das suas cicatrizes deixadas pela operação da Shocker. Viver como “o homem com máscara” é sua sina.

Mal sabe o herói o que lhe esperava. Ou melhor, quem lhe esperava! Um grupo de 12 Kamen Riders aparece diante de Takeshi, com as mesmas capacidades e dispostos a exterminá-lo, para vingar os ciborgues destruídos anteriormente.

Imagem: Takeshi e Ichimonji se olhando cara a cara.
Takeshi (à dir.) encara o misterioso Hayato Ichimonji | Foto: Lídia Rayanne

Surge o misterioso Hayato Ichimonji, que se apresenta como repórter que investiga sobre o desaparecimento do Dr. Midorikawa. Como Takeshi foi seu aluno, ele é interrogado e toma cuidado para não dar pistas sobre sua identidade como Kamen Rider.

Takeshi também fica desconfiado e acha que Hayato pode saber sobre a existência da Shocker. Mas havia uma evidência deixada pelo tal repórter que dá uma reviravolta importante para a trama.

Na realidade, Hayato Ichimonji é um personagem original da série de TV e ele é nada menos que o segundo Kamen Rider!

Contextualizando: Hiroshi Fujioka, o astro que interpretava Takeshi Hongo, havia realizado uma manobra de motocicleta que lhe fraturou a perna esquerda. Isso aconteceu durante as filmagens do episódio 10, quando a série ainda não tinha estreado nas noites de sábado da NET (atual TV Asahi).

Apesar de Kamen Rider ter começado com baixa audiência, os produtores Tohru Hirayama e Seiji Abe resolveram manter as gravações sem o Fujioka, até que uma saída fosse encontrada. A Toei decidiu, após várias reuniões, introduzir o fotógrafo Hayato Ichimonji como um novo personagem.

Takeshi Sasaki foi o ator escolhido para viver o alter ego do segundo Kamen Rider. Ele aceitou sob uma condição: de que ficasse até a volta de Fujioka, que era seu amigo pessoal. A Toei aproveitou essa mudança para fazer ajustes na trama, deixando a série menos sombria e com uma pegada mais heroica e mais leve.

Essa nova fórmula ajudou a impulsionar a audiência e o uso da pose de transformação, criada naquela época. Virou sucesso e deu origem ao fenômeno henshin boom que ditou os rumos do tokusatsu nos anos 70. Kamen Rider passou a ser um herói bastante popular no Japão a partir de então.

Fujioka voltou para a série somente no episódio 53, exibido originalmente no dia 1º de abril de 1972 (com quase um ano no ar). Ele já contou em entrevista que se o acidente não tivesse acontecido, provavelmente ele se arriscaria ainda mais nas gravações e poderia ter um trágico fim. Tal acontecimento serviu de lição para ele, como também serviu de maneira positiva para significativas mudanças na franquia.

Imagem: Homem caído em uma floresta e o Kamen Rider se aproximando.
O caçador virou a caça | Foto: Lídia Rayanne

Ishinomori resolveu adotar essa troca de bastão também no mangá e ao seu estilo, digamos, mais carrasco em termos de roteiro. De caçador, Hongo virou a caça dos Doze Riders e teve Hayato como seu sucessor. O segundo Kamen Rider herdou não apenas o seu codinome, mas também a sua vontade e seu espírito. Só lendo para entender o significado disso, que fortalece ainda mais o verdadeiro sentido de combater a Shocker. O momento é poético, apoteótico e sinistro.

Aliás, ao ler esse capítulo, eu pensei: é digno de uma adaptação para animê. Poderia ter acontecido, se a Toei tivesse interesse. Mas isso depende de certos fatores. Como Kamen Rider já estava em negociação para ser uma série tokusatsu, a troca emergencial de personagem fez com que Ishinomori fizesse o mesmo. Hayato jamais existiria se não fosse o acidente com Fujioka.

Este capítulo se tornou referência em 2002, na série Kamen Rider Ryuki (que deu origem ao nipo-americano Kamen Rider: O Caveleiro Dragão). Pois eram apresentados 13 Riders. A Toho, mesma produtora de Godzilla e Cybercop, adotou essa tendência no ano seguinte com a série Chouseishin Gransazer, a primeira da trilogia Chouseishin Series que teve 12 heróis divididos em quatro tribos e que representavam signos do zodíaco e elementos da natureza.

Imagem: Hayato apanhando em luta.
Hayato encara o Homem-Caranguejo | Foto: Lídia Rayanne

Conhecemos mais sobre Hayato no quinto capitulo, O Vilarejo do Monstro do Mar. Ele retorna a um antigo e tradicional vilarejo onde ele morava, até decidir deixar o local pela poluição. Mas nada é como antes.

Hayato percebe que as pessoas que ele deixou há cinco anos, incluindo seus pais e uma amiga de infância, já não são mais as mesmas. Alguma coisa acontece e a Shocker tem a ver com isso.

Mais um capítulo do mangá de Ishinomori que anda no sentido contrário da série de TV, já que seguiu seu próprio rumo com a chegada de Hayato por lá. A primeira missão do segundo Kamen Rider é a mais assustadora de todo o mangá até aqui. Digno de uma história de terror – com direito a uma cena de decapitação (!). Quanto ao Homem-Caranguejo, o monstro do capítulo, é um personagem que não existe na série de TV.

Essa historia continua no terceiro e último volume, que já está à venda. A batalha final está só começando.

Henshin!

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O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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