Imagem: Mão segurando mangá de 'Kamen Rider', ao lado de um boneco do próprio (em enquadramento das resenhas do JBox).

Crítica | Kamen Rider | Volume 1 (NewPOP)

Henshin! Frenética e sombria, a origem do motoqueiro mascarado vai muito além das aventuras da clássica série de TV.

Nunca é tarde para investir num clássico de peso. Após 50 anos de seu lançamento no Japão, Kamen Rider, o mangá original de Shotaro Ishinomori (1938~1998), finalmente foi lançado este ano no Brasil pela Editora NewPOP. Alguns títulos do rei do mangá foram publicadas recentemente por aqui, mas Kamen Rider é, sem dúvida, uma das suas obras mais aguardadas.

A famosa série clássica de tokusatsu estreou em 3 de abril de 1971, totalizando 98 episódios exibidos semanalmente nas noites de sábado pela NET (atual TV Asahi). Só que o mangá é a origem de toda a franquia. O primeiro capítulo foi publicado em janeiro do mesmo ano nas páginas da Weekly Shonen Magazine. A série rendeu originalmente quatro volumes encadernados, publicados entre abril e junho de 1972.

Aqui no Brasil, a NewPOP vai concluir o mangá Kamen Rider em três volumes pelo selo Xogum, voltado para clássicos como Kamen Rider Black (outra obra de Ishinomori), além de A Divina Comédia e Mazinger Z, duas das obras de Go Nagai. Inclusive, o primeiro volume de Kamen Rider chegou a ser o quadrinho mais vendido no Brasil pela Amazon, ainda quando estava em pré-venda no início de abril.

Caso você ainda não tenha assistido a série de TV, não terá problema em ler o mangá primeiro. Mas caso tenha visto alguns episódios específicos ou até mesmo a série completa, terá uma experiência ainda melhor. Ou seja, será possível sacar as diferenças entre as versões.

A liberdade de criação nos quadrinhos é, obviamente, maior do que num tipo de produção onde o baixo orçamento dita as regras. O início da trama é um bom exemplo.

Imagem: Página com o Kamen Rider se apresentando.
Kamen Rider, o guerreiro da justiça enviado pela Mãe Natureza | Foto: Lídia Rayanne

Assim como na série tokusatsu, o jovem Takeshi Hongo está treinando motociclismo com a supervisão de seu mentor, ou melhor, seu mordomo (!) Tobei Tachibana. No mangá, Takeshi tem uma aparência bem mais jovial que o ator Hiroshi Fujioka à época – que sempre teve mesmo um jeitão de galã.

Enquanto Tachibana é careca e usa um cavanhaque branco, ao contrário de sua contraparte da TV. Um visual que destoa bastante à imagem da versão interpretada pelo saudoso Akiji Kobayashi (Capitão Muramatsu em Ultraman), falecido em agosto de 1996.

Ao invés de ser perseguido por uma gangue, Takeshi sofre um acidente e assim foi capturado pela Shocker, para se tornar em um ciborgue do mal. Antes que a operação fosse concluída, Takeshi descobre que o cientista Dr. Midorikawa, desaparecido há seis meses, estava trabalhando secretamente para a organização maligna e contra sua própria vontade.

Após a fuga dos dois, Ruriko, a filha de Midorikawa, se torna alvo da Shocker. A coisa se complica ainda mais quando ela presencia a morte do pai e pensa que Takeshi é o autor do crime.

Diferentemente de sua versão da TV, Takeshi possui cicatrizes que aparecem em seu rosto quando está prestes a se transformar em Kamen Rider. São marcas da cirurgia de modificação que surgem em seu momento de fúria. Vale também destacar uma diferença que os fãs brasileiros certamente irão notar:

Num diálogo com o Dr. Midorikawa, Takeshi quebra um copo de vidro ao tocá-lo. Enquanto na série de TV, ele arranca um volante de uma torneira com sua super força. As duas situações viraram referências anos mais tarde no primeiro episódio de Kamen Rider Black (1987).

Imagem: Trechos do mangá.
Uma cena é bastante familiar | Foto: Lídia Rayanne

O primeiro capítulo se chama o Tenebroso Homem-Aranha. Claro, nada a ver com o super-herói da Marvel e sim com o primeiro monstro da Shocker que Kamen Rider enfrentou. O enredo serviu de base para o mote do episódio de estreia da série tokusatsu.

Já o segundo capítulo do mangá, O Homem-Morcego Voador (não confunda com o Batman, ok?), foi bem mais assustador do que o segundo episódio da série de TV, que teve o mesmo monstro da semana. Aliás, arrisco em dizer que esse capítulo tem uma pegada que lembra um pouco a atmosfera carregada do animê Mazinger Z. A começar pela reconstrução de um monstro da Schoker, que estava em um estado deplorável.

Ele foi o coadjuvante da operação comandada pelo Homem-Morcego, que é capaz de controlar as pessoas com sua mordida – típico de um Drácula da vida. Uma pessoa próxima de Ruriko foi a vítima do monstro, com o intuito de capturá-la.

Os rumos acabam girando em torno de uma corrida de Takeshi para criar um antídoto contra o vírus do Homem-Morcego em pouquíssimo tempo. Se lá na TV a solução foi, digamos, um tanto fácil demais (clichê típico das séries tokusatsu nos anos 70), aqui a coisa foi mais frenética, a ponto de deixar o herói exaurido e, portanto, vulnerável ao inimigo.

Curiosamente, o Homem-Aranha e o Homem-Morcego tiveram suas respectivas contrapartes nos primeiros episódios de Kamen Rider Amazon (1974), Kamen Rider Black e Kamen Rider Kuuga (2000). No filme Kamen Rider × Kamen Rider OOO & W Featuring Skull: Movie Taisen Core (2010), aparecem os monstros Spider Dopant e Bat Dopant. Ambos eram referências que já indicavam o início das comemorações de 40 anos da franquia.

Imagem: Kamen Rider metendo o chutão na cara de um monstrengo.
Kamen Rider enfrentando o Homem-Morcego | Foto: Lídia Rayanne

Voltando ao mangá, o terceiro e último capítulo deste volume, O Retorno do Homem-Cobra, apresenta a versão original do vilão que apareceu nos episódios 9 e 10 de Kamen Rider.

O seu contexto é mais sócio-político e aborda o assassinato de líderes de um movimento antipoluição em Kawasaki. As vítimas foram dadas como desaparecidas.

Alguns elementos foram usados na série de TV, só que com outro pano de fundo e de maneira leve.

Ou melhor, não tão leve assim pois o capítulo teve uma morte trágica de uma testemunha de um crime, que ganhou uma releitura na versão tokusatsu. A verdade é que ambas as versões seguiram caminhos mais independentes a partir desse ponto.

Essa trama continua no segundo volume – que já está à venda.

De longe, Kamen Rider é um material obrigatório para os amantes do tokusatsu, tanto por ser a principal obra de Ishinomori quanto por mostrar um outro lado do motoqueiro mascarado que não é tão explorado nas produções da Toei, justamente pela temática mais violenta e tenebrosa. O mangá vale também como uma excelente porta de entrada para quem tem interesse na franquia, mas ainda não consumiu algum material.

Em breve, as resenhas dos volumes 2 e 3 de Kamen Rider, com uma significativa mudança de rumo.

Henshin!

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O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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