imagem: foto com mangás da Editora JBC

Aquisição pela Cia das Letras pode trazer de volta o protagonismo da JBC? | De Olho no Mercado #005

Editora passa a fazer parte do maior grupo de publicação de livros do Brasil, o que parece promissor em relação às suas maiores dificuldades no cenário atual do mercado.

A notícia da compra da JBC pela Companhia das Letras, na tarde da última sexta-feira (18), foi das mais surpreendentes desde que os mangás se tornaram uma mídia relevante no Brasil. Mas, após o “susto”, vem a pergunta: o que será de uma das principais editoras de quadrinhos japoneses a partir de agora?

O comunicado oficial disponibilizado no blog da editora dá algumas pistas, embora não seja possível cravar nada por enquanto.

A nota diz que, apesar de “assumir o controle”, os Schwarcz – e o grupo Penguin, sócio majoritário da Companhia – darão à equipe de Marina Shoji, diretora da JBC, o respaldo para que continuem a gestão da editora da Vila Mariana. Acontece que, para os que acompanham de perto, é fácil notar que a JBC vive um momento de retração com relação ao mercado brasileiro de mangás, e por isso é de se esperar novidades.

imagem: logos do Grupo Companhia das Letras e da Editora JBC
Imagem: Reprodução

De 2017 pra cá, a Japan Brazil Communication promoveu uma série de mudanças em sua maneira de atuar. As mais importantes: o fim da distribuição em bancas de jornal e a abolição do esquema de periodicidade de seus títulos.

A primeira tornou-se inevitável pelos altos custos da logística de distribuição que demanda um território da dimensão do Brasil, além de que o próprio modelo de negócio representado pelas bancas de jornal parece ter perdido boa parte de sua força frente ao avanço do e-commerce.

A segunda entretanto não possui uma explicação tão óbvia, já que a falta de previsibilidade e regularidade das publicações impactam diretamente o planejamento do público consumidor, gerando uma natural desconfiança.

Pois bem, ainda veio a pandemia e a JBC parece ter sentido o baque como nenhuma outra editora desse segmento. Dados levantados pelo Biblioteca Brasileira de Mangás dão conta de que, em 2021, a editora publicou 100 volumes encadernados, cerca de 21% do mercado brasileiro, enquanto a Panini, sua maior “rival”, viu o número chegar a 320, mais de 67% (os 12% restantes ficaram repartidos entre as demais editoras).

Comparado a anos anteriores, trata-se até de um ano de boa recuperação, visto que em 2020 a disparidade foi ainda maior: 50 volumes publicados pela JBC (uma fatia de aproximadamente 11%), contra 335 da Panini (cerca de 78%).

Os dados saltam à vista pois ao longo da última década JBC e Panini sempre competiram de igual pra igual. Embora pese contra o fato de possuir menos capital que a sua concorrente multinacional de matriz italiana, a editora paulistana esteve sempre no páreo pelos melhores títulos e entregando ótimos números. A JBC viu em 2015 o seu melhor ano, quando alcançou a marca de 179 volumes publicados, o mesmo número da Panini.

A partir de 2016, a crise econômica que teve início em 2013 – e se acentuou no passar dos anos – foi dando duros golpes na casa de My Hero Academia. Já em 2018, dois anos antes de seu recorde negativo, a JBC havia publicado 91 volumes versus 245 da Panini.

JBC no Anime Friends 2019. | Reprodução.

Os números nos ajudam a entender um pouco o que pode ser o caminho a ser trilhado pela editora a partir de agora. O retrato de 2015 mostra que a JBC tem potencial para incomodar sua principal concorrente. A Companhia das Letras, maior grupo editorial do país, sabe disso, não à toa destacou os 600 mil exemplares vendidos de My Hero Academia.

Mas não somente os dados de “encadernados lançados por ano” nos oferecem um panorama sobre o encolhimento enfrentado pela JBC. Atualmente a editora tem assistido à maior parte dos títulos de maior apelo comercial ser entregue de mão beijada à concorrente italiana.

É de se mencionar que, recentemente, a JBC trouxe Haikyu!! e anunciou Tokyo Revengers, mas esses licenciamentos se tornaram menos comuns nos últimos tempos.

‘Haikyu!!’, um dos sucessos da Shueisha publicados atualmente pela JBC. | Divulgação: JBC.

A japonesa Shueisha, abrigo da maior parte dos fenômenos do mercado japonês (e mundial) de mangás da atualidade, tem a Panini como uma quase “filial”, de modo que a editora virou o caminho natural (e praticamente o único) para os títulos badalados das últimas temporadas de animês: Jujutsu KaisenDemon SlayerOne-Punch Man, Black Clover, Blue Period e muitos outros.

Mangás promissores da gigante japonesa, como Spy x FamilyMashle e Kaiju 8, chegam ao nosso país pela italiana num timing cada vez mais compassado com o resto do mundo.

Mas a JBC também sabe e pode ser competitiva. Ela possui know-how e boa reputação no mercado, ótima relação com as licenciantes e um catálogo de enorme relevância dentro do contexto latino-americano.

Visto de fora, o problema da editora parece mais financeiro do que editorial – daí vem a calhar a sustentação que a Companhia das Letras poderá oferecer.

Algo que preocupa os seus leitores, uma eventual guinada para uma maior “nichização” da editora, com mudança de foco para as publicações em formato de livraria e o abandono de histórias mais comerciais, não deve ser o que o novo grupo que controla a JBC tem em mente.

Embora o selo Quadrinhos na Cia, cujo nome é autoexplicativo, se comporte de modo não tão incisivo quanto às demais editoras que compõem o mercado de quadrinhos no Brasil, não parece lógico que a Companhia das Letras entre no segmento de mangás para fazer de uma casa tradicional como a JBC uma editora “mais tímida”, focada em produtos de luxo e em títulos considerados “cults” (o que é um termo vazio e de péssimo gosto).

Em entrevista à revista Piauí, Luiz Schwarcz não escondeu o constrangimento ao constatar o crescimento de sua empresa em pleno ano de pandemia: “fico até com vergonha da expectativa do nosso crescimento”, disse em novembro, quando via o faturamento da Companhia prometer uma evolução superior a 100% em relação a 2020.

O fundador da nova proprietária da JBC reputou o crescimento ao e-commerce, que cresceu muito durante o período de isolamento social. A editora da Vila Mariana, no entanto, amargou o fato de não possuir uma loja virtual, vendo-se refém dos pontos físicos (cada vez menos atrativos) e da Amazon.

Num trecho do comunicado oficial da compra publicado ontem, a Companhia das Letras parece bastante consciente dos aspectos a serem trabalhados para a retomada do protagonismo de uma das maiores empresas do ramo dos quadrinhos no Brasil.

Ao assinalar que o papel do grupo será o de dar “apoios administrativos, de recursos humanos e tecnológicos; oferecer ganhos de escala nas negociações com clientes e fornecedores; e fortalecer a divulgação, a comercialização e a distribuição das publicações da JBC”, a Cia indica que oferecerá tudo que a JBC mais precisa neste momento. Resta-nos esperar para ver se o investimento trará os efeitos esperados, mas o futuro da editora parece bastante promissor.


Dados consultados no BBM: (1), (2), (3) e (4).


O texto presente nesta coluna é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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