imagem: capa do mangá A Sala de Aula que Derreteu

Crítica | A Sala de Aula que Derreteu | Volume Único (Pipoca & Nanquim)

Novo mangá de Junji Ito publicado no Brasil é uma leitura repetitiva e decepcionante, e talvez só valha a pena para colecionadores fiéis do autor.

Hoje, Junji Ito talvez seja o nome mais popular do gênero “mangá de terror” internacionalmente. É definitivamente um nome forte na cultura de quadrinhos do Brasil, mas não foi sempre assim. Demorou um pouco para Junji Ito “pegar” por aqui, mas depois que pegou, várias editoras estão atrás de licenciar obras do autor.

A bola da vez foi A Sala de Aula que Derreteu (Youkai Kyoushitsu), publicado por aqui pela editora Pipoca & Nanquim. O quadrinho foi seriado originalmente na Comic Motto, um suplemento especial trimestral (já encerrado) da revista mensal Elegance Eve, da editora Akita Shoten.

Apesar da Eve, e por consequência a Motto, mirarem o público feminino (são revistas josei), os encadernados da Motto saíam pelo selo Shonen Champion Comics, por algum motivo. O mangá conta uma trama em 5 capítulos, mas, apesar de relacionados e trazendo os mesmos protagonistas, cada um funciona também como uma história independente.

Yuma Azawa e sua irmã Chizumi são as figuras que permeiam a trama. O jovem, de aparência comum, pede desculpas a todos o tempo todo – e esses pedidos têm consequências catastróficas (evitando aqui spoilers). Quando Yuma elogia muito alguém, isso também traz consequências negativas. Já a irmã é um ser colocado com uma aparência endiabrada.

O mangá começa bem, o primeiro capítulo traz as bases de tudo que irá acontecer depois. O problema é que as viradas de roteiro e os “resultados finais” de cada história vão se tornando cansativos por funcionarem, basicamente, do mesmo jeito.

imagem: páginas do mangá
Páginas da edição brasileira | Foto: Rafael Brito/JBox

Depois do primeiro capítulo, já é possível entender como a série vai seguir, então a graça vai se perdendo. Talvez, para quem lia a Motto lá no Japão, um capítulo a cada 3 meses tire um pouco essa impressão de desgaste. Ito tenta fazer algumas mudanças nos dois últimos capítulos – o autor parece ter tentado amarrar todas as histórias e desistido da ideia – mas, mesmo assim, é decepcionante, derretendo também a paciência do leitor.

Algumas das escolhas de Ito parecem ser uma espécie de sátira a elementos socioculturais japoneses, mas tudo acaba sendo engolido pelo cansaço e repetição, de modo que ideias boas se mostram mal executadas. Os dois protagonistas, que certamente causam curiosidade no leitor, são simplesmente personagens rasos e convenientes ao final da narrativa.

Fica a impressão de que essa narrativa tenta se sustentar em uma sequência de shock values e gore – o que, em si, não é problemático – mas como é tudo relativamente previsível, a sensação é de ler e não se sentir afetado pela trama.

Vira um gore pelo gore, trazendo shock values que, logo, já não são mais choques (e talvez nem values também). Parece uma oportunidade perdida de explorar uma história um pouco mais elaborada, que de vez em quando se mostra latente no quadrinho.

As duas historietas extras, de 4 páginas, ao fim do volume – e sem relação com a trama de Yuma – são até mais interessantes que a história principal, mesmo que uma delas quase não faça sentido. A edição da Pipoca & Nanquim é caprichada, mas, infelizmente, uma peça que vale mais apenas para a estante dos colecionadores do autor do que para quem quer ler uma boa história de terror.

Brigid Alverson, jornalista de quadrinhos, considerou esse um dos piores mangás de 2018. Não sei se merece esse título, mas é possível entender os motivos.

 

No álbum abaixo algumas imagens da edição brasileira:

 

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Volume único


Esta resenha foi feita com base em edição de A Sala de Aula Que Derreteu cedida como material de divulgação para a imprensa pela editora Pipoca & Nanquim.


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