Lista: ‘Fly’ e os temas de animês exclusivos do Brasil

Relembre alguns animês que ganharam músicas oficiais exclusivamente no Brasil.

Uma prática relativamente comum na localização de séries estrangeiras no Brasil em décadas anteriores à popularização da internet tornou-se praticamente inexistente nos dias de hoje: a criação de trilhas sonoras totalmente brasileiras, surgidas “do zero”. Parece um método impensável atualmente, quando se tem acesso ao material original muitas vezes de forma simultânea com seu país de origem – o Japão, para o assunto que nos interessa aqui.

Criar novas trilhas internacionais para animês é uma prática que ainda existe, embora em escala menor, em países como os Estados Unidos. Na maioria dos casos, são as séries voltadas ao público infantil que caem na alteração de seus temas musicais, com a ideia de se adequar à forma como a criança daquela cultura absorve melhor a paixão pela marca. Séries como Pokémon seguem nesse seleto grupo cada vez menor.

Aqui no Brasil, na época que ninguém tinha acesso ao material original, produtores musicais se debruçaram criando trilhas totalmente brasileiras, sem tomar como referência nada da trilha japonesa. Muitas dessas músicas se tornaram hinos da infância de gerações – e ai de quem disser pra essas pessoas que a japonesa é “melhor”.

Aproveitando o retorno do Fly (Fly, Fly… Quer a paz que o inimigo destróoooi), na lista abaixo vamos recapitular as trilhas 100% nacionais dos animês. Prepare-se para cantarolar junto!

 

Sawamu, O Demolidor

Vamos começar lááaa nos anos 1970. No final da década, a Record levou ao ar Sawamu, O Demolidor, título brasileiro para o animê Kick no Oni. Trata-se de uma série baseada em um lutador de kickboxing real (e uma lenda desse estilo), chamado Tadashi Sawamura. Produzida pela Toei Animation entre 1970 e 1971, contou com 26 episódios transmitidos por aqui na segunda metade da década de 1970 até meados de 1982 (sendo transmitida também pela TV Gazeta).

A abertura original foi cantada pelo próprio Sawamura e é bem ao estilo dos animês da época. Já no Brasil, ganhou uma canção escrita por um compositor chamador Toré e musicada pela dupla Sá e Guarabyra (que pouco antes era um trio chamado Sá, Rodrix e Guarabyra), conhecidos no país pelo som que denominavam como “rock rural”. E deu muito certo, pois qualquer pessoa que foi criança na época sabe cantarolar até hoje que “ele se julgava o demolidor”.

 

Angel, a Menina das Flores

Mais uma série da Toei Animation, Angel, a Menina das Flores (Hana no Ko Lunlun) foi exibido no Brasil em meados dos anos 1980 pela TVS (atual SBT) e também pela Record, numa época que as duas emissoras dividiam a programação de séries (já que ambas tinham comando de Silvio Santos). A dublagem ocorreu dentro dos estúdio da TVS mesmo, onde muitas novelas mexicanas e até Chaves e Chapolin receberam sua versão brasileira.

O músico Mário Lúcio de Freitas atuava na emissora produzindo trilhas sonoras, jingles e vinhetas para vários programas e séries, se aventurando também nos desenhos animados. Coube a ele a composição do tema de Angel, que ganhou uma aura bastante melancólica se comparada ao original japonês, interpretado por Mitsuko Horie – uma diva das animesongs. A música brasileira levou a voz de Sarah Regina, que viria a marcar presença em outros temas de animês futuramente, como Sailor Moon (versão da Manchete) e o apocalíptico U.S.Mangá.

Quanto ao animê, os 50 episódios produzidos entre 1979 e 1980 narram as viagens de Angélica (Lunlun, no original) em busca da Flor das Sete Cores que trará a salvação do seu povo. Ela recebe um amuleto mágico, capaz de transformar suas roupas em qualquer coisa quando apontado para uma flor, o que a defenderá dos vilões que também procuram pelo mesmo objetivo. Uma série de garota mágica com aquele clima bem ingênuo característico da época. Ah sim, o visual dos personagens é uma cortesia de Shingo Araki, o mesmo dos Cavaleiros do Zodíaco!

 

Fábulas da Floresta Verde

Assim como Angel, esse é mais um animê exibido pela TVS e Record nos anos 1980 e mais uma vez com composição de Mário Lúcio de Freitas na parte musical. A versão brasileira foi cantada por Angela Márcia, que depois participaria da trilha da primeira versão de Chiquititas (é ela a voz da Mili em “Mentirinhas” – ou você achava que era a Fernanda Souza mesmo?), enquanto a original japonesa foi da dupla Mitchii & Chataraazu.

Fábulas da Floresta Verde (Yama Nezumi Rocky Chuck) é original de 1973, sendo produzido pelo estúdio Nippon Animation, adaptando várias histórias escritas nas primeiras décadas do século 20 pelo americano Thornton W. Burgess. Basicamente mostrava bichinhos vivendo em comunidade na floresta, cooperando pra se protegerem de predadores.

 

Rei Arthur

Agora que você já está acostumado com o nome de Mário Lúcio, se agarra nele, pois veremos sua repetição até quase o fim dessa lista. Também foi ele o responsável pelo tema do Rei Arthur (Entaku no Kishi Monogatari Moero Arthur), esse animê da Toei Animation produzido entre 1979 e 1980.

Sendo uma das muitas adaptações das histórias do rei britânico e seus Cavaleiros da Távola Redonda (que ao longo dos romances contados por séculos misturou realidade e fantasia para a criação de uma lenda), o animê passeou pela programação da TVS nos anos 1980, não havendo dados muito precisos sobre a sua exibição completa.

Originalmente, foram dois temas de abertura, já que o animê se divide em duas partes. O primeiro foi “Kibou Yo Sore Wa“, de Isao Sasaki, e o segundo trouxe o lendário Ichiro Mizuki cantando “Ore wa Arthur“. Ambos foram acompanhados pelo Koorogi ’73, um grupo vocal japonês que participou de canções de séries tokusatsu da época.

Já a canção brasileira “Rei Arthur, Rei Arthur… A magia encrustada na espada” foi interpretada por um coral de músicos que trabalhavam com o Mário Lúcio na época.

 

Luluzinha

Pule o vídeo acima para 1 min. e 14 seg.

Aqui terminamos o quarteto de séries japonesas exibidas pela TVS com distribuição da ZIV International (uma empresa gringa que trouxe as versões americanas de vários animês para o Ocidente nos anos 1980 – foi ela que trouxe Angel, Fábulas da Floresta Verde e Rei Arthur). E sim, é aquela Luluzinha que todos conhecem das animações e dos quadrinhos criados nos anos 1930 pela Marjorie Henderson Buell.

Em 1976 o estúdio Nippon Animation produziu os 26 episódios dessa versão animê da personagem. E como todos os títulos da ZN, também ganhou trilha original no Brasil pelo Mário Lúcio de Freitas, que inclusive cantou interpretando o Bolinha na faixa. Ele fez dupla com Sarah Regina, que é a voz da Luluzinha na canção.

 

Os Cavaleiros do Zodíaco

Em 1994, Os Cavaleiros do Zodíaco (Saint Seiya) estrearam no Brasil, tornando-se uma febre nunca antes vista que alavancou um “anime boom” em nosso país. Só que a série veio pra cá com a matriz dublada em espanhol, herdando consigo a famosa “marchinha” da abertura.

Mário Lúcio de Freitas (sim, ele de novo!) esteve por trás da adaptação brasileira dessa marchinha, já que o recém inaugurado estúdio de dublagem Gota Mágica (que era dele) foi escalado pra versão brasileira da série. Mas você deve estar se questionando “tá, essa é uma adaptação de uma adaptação, cadê a trilha original brasileira?”. Se acalma, vamos a ela.

Depois do hit tremendo do desenho da TV, seguiu-se uma série de produtos licenciados com tudo que se podia imaginar com a cara de Seiya e os outros. E daí, a Sony Music resolveu produzir uma trilha sonora original para Os Cavaleiros do Zodíaco, com composições que claramente foram feitas na pressa por gente que pegou muito por alto do que se tratava o animê. Essas músicas inclusive passaram a marcar as exibições da Manchete a partir de 1995.

O tema principal (Péégasooo, ajuda o teu Cavaleeeiro) foi escrito por Augusto César (conhecido também como “Carneirinho”, baixista da banda Fevers) e Paulo Sergio Valle (outro importante compositor), com interpretação da dupla mirim Larissa e Willian – que na época chegou a ofuscar um pouco o sucesso de Sandy e Junior. Outros nomes importantes como o de Michael Sullivan (uma lenda das músicas infantis, que produziu muita coisa com a Xuxa) aparecem no disco, que teve produção de Augusto César e… Mário Lúcio de Freitas – que também cantou e compôs algumas faixas, como a pérola “Rap do Zodíaco“.

Detalhe: a trilha brasileira chegou a ser adaptada em espanhol e lançada no Chile!

 

Fly, O Pequeno Guerreiro

Depois do sucesso de ‘Cavaleiros‘, uma tal de Alien International (que reza a lenda pertencia ao Magrão, diretor do Domingo Legal) resolveu se aventurar no mercado trazendo três animês na bagagem: Dragon Ball, Guerreiras Mágicas de Rayearth e Fly, O Pequeno Guerreiro. O pacote completo foi adquirido pelo SBT, que mandou tudo ser dublado nos estúdios da Gota Mágica (que era quem dublava quase todos os animês exibidos na época).

Para Dragon Ball, Mário Lúcio resolveu seguir a versão original para reproduzir (refazendo até os arranjos) a versão brasileira. Mas o mesmo não se repetiu nos demais, com Fly (que era Dai, no original) ganhando uma composição totalmente do zero que em nada lembra o clima heroico da original.

Fly, Fly, Fly, quer a paz que o inimigo destróooi…” foi interpretado por Rodrigo Firmo, filho do Mário Lúcio que ainda tinha uma voz infantil na época. Poucos anos depois, com uma voz mais encorpada, ele seria o responsável pela versão brasileira da primeira abertura de Dragon Ball Z – e mais recentemente trabalhou com as músicas do animê Dino Girl para a Netflix.

Baseado na franquia de games Dragon Quest, a história de Fly vai ganhar uma nova série animada em 2020. Saiba mais aqui.

 

Guereiras Mágicas de Rayearth

Baseado no mangá do Clamp (mesmo grupo que criou Sakura Card Captors), o animê das Guerreiras Mágicas de Rayearth (Magic Knight Rayearth) foi muito mal aproveitado pelo SBT, que jogava a série em horários ingratos que mudavam constantemente. Mesmo assim, as aventuras com tons de RPG de Lucy, Anne e Marine (Hikaru, Fuu e Umi) foram exibidas por completo na programação, para quem teve saco de tentar acompanhar.

A inconstância da emissora prejudicou muito o marketing em volta do animê, que teve alguns poucos produtos lançados por aqui (como uma incrível… máquina de escrever), incluindo um CD com uma trilha sonora totalmente brasileira. Um dos “hinos” das animesongs dos anos 1990, a música “Yuzurenai Negai” (de Naomi Tamura) da abertura foi substituída por “Guerreiras Mágicas“, tema escrito pela mesma dupla responsável pela música dos Cavaleiros do Zodíaco que comentamos aí em cima.

Aliás, o disco que saiu pela Sony traz vários nomes do time que trabalhou no CD dos Cavaleiros. A música principal foi interpretada pela jovem Larissa Tassi (que a reinterpretou recentemente no canal do cantor Ricardo Cruz), que conta que recebeu a melodia de Augusto César por gravações de secretária eletrônica (!), para treinar e ir cantar no estúdio no dia seguinte (saiba mais na entrevista que a cantora concedeu ao JBox aqui). Muitas músicas do disco foram compostas pelo Mário Lúcio, que também escalou Sarah Regina para os vocais.

 

Super Campeões

Lembrado como “o último animê da Manchete” e por seus vários problemas na dublagem brasileira, Super Campeões (Captain Tsubasa J) supostamente tinha tudo pra conquistar os brasileiros por sua temática ser o futebol. A Samtoy, que tinha trazido os Cavaleiros do Zodíaco apostando nos bonequinhos (que venderam horrores), resolveu apostar nesta série, mas aparentemente se viu num impasse sobre qual produto poderia gerar – afinal, dava pra fazer algum produto de Super Campeões que não fossem… Bolas de futebol?

O único produto derivado do animê que foi lançado por aqui foi um CD, com uma trilha sonora totalmente original que amargou vendas baixíssimas no mercado – 8 mil cópias, segundo dados da Associação Brasileira de Produtores de Discos (bem diferente do estouro do CD dos Cavaleiros, que vendeu mais de 700 mil cópias). O tema usado para a abertura da série foi a música “Decisão“, composta por Mário Lúcio de Freitas (é a última vez que você verá o nome dele aqui) junto a Oswaldo Biancardi Sobrinho. Quem canta é Rodrigo Firmo, o mesmo da abertura do Fly, substituindo a empolgante canção “Fighting“, tema japonês que foi interpretado pela banda FACE FREE.

 

Pokémon

Como quase todos os países do mundo, Pokémon chegou aqui com sua trilha criada nos Estados Unidos, bem diferente da versão original do Japão (e também bem diferente da China, que criou sua própria música tema). No Brasil, o 1º CD americano foi totalmente adaptado para o português pelo produtor Nil Bernardes, experiente em dublagens de músicas de desenhos animados (e que cantou os temas de Digimon 4, El Hazard, Super Onze, dentre vários outros animês). Aliás, entrevistamos ele em nosso especial de 20 anos da estreia do animê, você pode conferir o vídeo completo aqui.

Mas nem só de adaptações da trilha americana viveu a febre Pokémon no Brasil em termos musicais. No auge do sucesso do desenho na TV aberta, quando ele ia ao ar no programa Eliana & Alegria na Record, o próprio Nil Bernardes recebeu um telefonema do diretor artístico da Sony na época, Sérgio Bittencourt, com uma encomenda peculiar: fazer uma música baseada na série pra Eliana cantar. Após o chamado, ele se juntou ao parceiro Antônio Luiz e dentro de uma hora estava produzida “A Força do Mestre“, que ganhou um clipe gravado em São Paulo (que passava direto no programa da Eliana), mas que a internet atualmente se lembra mais pela fatídica apresentação no extinto programa Sabadão.

Além desse single, incluído em um CD da Eliana lançado em 2000, também existiu a música “A Força do Raio“, composta pelo já mencionado aqui Michael Sullivan ao lado de Carlos Colla. É uma música sobre o Pikachu, que ganhou um clipe deliciosamente bizarro que você pode conferir aqui.

 

Sailor Moon

Um ano depois da empreitada com Pokémon, foi a vez da Eliana ser a porta voz do retorno de Sailor Moon à TV aberta. Sailor Moon R, a segunda fase das guerreiras marinheiras, chegou à Record em 2001 – e não durou muito.

Com uma dublagem feita com um elenco totalmente diferente da 1ª fase exibida na Manchete, a nova fase não deu o retorno esperado e amargou mais uma derrota para Serena e companhia em produtos de merchandising. A exibição se resumiu só a esse arco mesmo e a Record acabou não pegando o restante das temporadas (que ficaram restritas a quem tinha TV a cabo e podia assistir ao Cartoon Network).

Apesar de tudo, tentaram transformar a Eliana em uma autêntica Sailor na promoção do animê. Coube à Sylvia Massari (atriz de teatro e da TV, que muitos podem se lembrar pela personagem Maria Santa, fantoche que dava vida nos anos 1990 no humorístico A Praça é Nossa) a composição da música “Sailor Moon” ao lado de Victor Pozas (que também compôs para Sandy & Junior, KLB, Marjorie Estiano…), que ganhou um clipe “espacial” com a apresentadora vestindo um figurino da Lady Gaga antes da própria existir.

A música saiu no álbum de 2001 da Eliana e também era apresentada em seu programa (e só lá), com direito a balé de cosplayers. Um luxo.

 

Bônus: Danger3 e as músicas de Akira e Your Name

Apesar de não ser um material oficial, temos um exemplo recente de músicas feitas para animês produzidas totalmente do zero. Formado por Ricardo Cruz, Larissa Tassi e Rodrigo Rossi, todos cantores que já gravaram temas brasileiros oficiais de animês, o trio Danger3 compôs algumas músicas inspiradas no clássico Akira e no recente sucesso dos cinemas Your Name.

Ambas as canções embalaram a promoção do lançamento dos mangás pela Editora JBC. Confira o resultado abaixo.

 

Fontes consultadas: Blog Sushi POP, TSB Anime.

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