Review | Keep Your Hands Off Eizouken! – Episódio 1

Novo animê de Masaaki Yuasa promete ser um dos carros chefes da temporada de inverno.

Keep Your Hands Off Eizouken! é uma produção do estúdio Science Saru dirigida por Masaaki Yuasa. A série é uma adaptação do mangá homônimo de Sumito Oowara, ainda em andamento no Japão (e inédito por aqui) com 4 volumes já publicados pela editora Shogakukan. O texto abaixo leva em consideração apenas o que foi apresentado na animação, não se baseando no que já foi entregue na obra original.


Em todos os ramos da indústria cultural, há nomes consagrados que possuem em si a capacidade de produzir, no público receptor, a expectativa de que algo razoavelmente bem elaborado será entregue, quando estes anunciam um novo projeto. Para tomar um exemplo citado amiúde no meio dos videogames, basta dizer o nome de Hideo Kojima (Metal Gear e, mais recentemente, Death Stranding, sua última empreitada) para que o bom e velho hype seja o sentimento dominante entre aqueles que aguardam um novo trabalho do antigo criador de jogos da Konami. No universo das animações japonesas, portanto, um nome tem ganhado cada vez mais prestígio: Masaaki Yuasa.

O renomado diretor de um dos maiores sucessos de 2018 – Devilman Crybaby – volta às telas com outra adaptação. Depois do clássico mangá de Go Nagai, Yuasa aposta agora em uma série recente cuja publicação em mangá ainda nem se encerrou. Keep Your Hands Off Eizouken!, estreia do último domingo (5) na Crunchyroll, é o título internacional de Eizouken ni wa Te wo Dasu na!, do mangaká Sumito Oowara.

O primeiro episódio da série dá conta de anunciar, de saída, o que deve ser o fio condutor de toda a narrativa: a união das três personagens principais na busca de criar um animê e torná-lo parte constitutiva da realidade. É justamente nesse jogo entre o real e a imaginação que Midori Asakusa, Sayaka Kanamori e Tsubame Mizusaki protagonizarão os eventos de Keep Your Hands Off Eizouken!, sendo cada uma caracterizada por traços que as distinguem e as individualizam.

Midori é quase a encarnação do que comumente chamamos de “espírito criativo”. Já nesse episódio de estreia, a animação faz questão de lançar luzes ao seu caráter observador e curioso com relação às coisas que a cercam: pessoas, objetos e, sobretudo, paisagens e lugares que possam servir de cenário para suas criações constituem o foco de sua atenção; ela, aliás, está sempre com seu sketch book, onde anota tudo o que é passível de ser transformado por seu traço ligeiro.

Sayaka é pragmatismo puro. De cara a melhor amiga de Midori é apresentada como uma pessoa gananciosa, e que basicamente só pensa em dinheiro. Sua função na trama, no entanto, é a de ser o impulso em direção à realização efetiva das coisas. Sem ela, não haveria o que promete ser a peça chave de Eizouken: o trabalho em equipe de Midori e Tsubame, cujo elo se dá justamente em função de Sayaka, que dá o empurrão necessário para a amizade das duas e, principalmente, é quem incentiva as duas jovens desenhistas a darem início à jornada de produzir uma animação (e seu interesse, é claro, não deixa de estar na “grana preta” que um animê “desenhado por uma modelo famosa vai render”, segundo suas próprias palavras).

Tsubame, por fim, é caracterizada por pertencer a uma classe social mais privilegiada (contraste que fica evidente em relação às outras duas personagens nas cenas da lavanderia, onde Tsubame é levada por Midori para lavar o casaco sujo de iogurte): é de uma família de atores famosos (ou apenas de uma atriz, algo que não ficou claro ainda) e o desejo de seus pais é que ela siga o mesmo caminho. A filha dos Mizusaki, no entanto, carrega a mesma paixão por animês que Midori e também deseja trabalhar com o que constitui seu assunto de maior interesse – o que é rechaçado pela família, que ordena aos seus subordinados espiões que impeçam Tsubame de fazer parte do Clube de Animês do Colégio Shibahama.

Com um enredo bastante clichê, é interessante ver de que modo a animação consegue trabalhar bem questões já muito repisadas, como a necessidade do trabalho coletivo para a realização de uma tarefa árdua. A tônica do discurso de ‘Eizouken‘ é justamente a impossibilidade de se fazer as coisas sozinho. Mas não é exatamente por isso que a história fisga o espectador, e sim pelo modo como ela é bem estruturada nos diálogos e na construção das personagens. O clichê do apelo ao coletivo, por si, não teria a menor graça, mas aliado ao carisma das personagens tal tema consiste num dos potenciais pontos fortes da série – embora não seja, na minha opinião, o maior.

O que Eizouken tem de mais interessante a oferecer é a perspicácia em tratar do trabalho mesmo da criação artística. Se a princípio a sinopse parece nos colocar diante de uma espécie de “Bakuman sobre animadoras (embora o mangá da dupla Ohba e Obata tenha o idílio amoroso como preocupação segunda, enquanto aqui, em Eizouken, não parece haver outro foco além da “criação do animê”), há uma diferença fundamental entre as duas obras: enquanto Bakuman foca no processo produtivo da indústria dos quadrinhos japoneses, Keep Your Hands Off Eizouken! parece ter por ambição discutir o processo de criação em si mesmo; o primeiro episódio, portanto, dá a entender que o que diz respeito ao trabalho de produção da animação na sua dimensão social, isto é, naquilo que é caro ao universo do trabalho como determinante na sociedade de classes será apresentado com vistas à discussão acerca da criação estética mesma, e não da elevação do status das personagens centrais a fenômenos de público e venda, como no mangá de Ohba e Obata. (Observação: como não li o mangá de Keep Your Hands Off Eizouken!, falo isso pautado exclusivamente na sensação que tive vendo o primeiro episódio da série animada. Seria bastante decepcionante se o animê se enveredasse por esse caminho de mostrar “como Midori e Tsubame se tornaram grandes estrelas da animação japonesa”).

Por fim, quero destacar algo que ocorre junto a esse debruçar-se sobre a criação artística que configura o movimento de Keep Your Hands Off Eizouken! e engendra um entendimento de arte do qual particularmente compartilho. Falo da relação estabelecida por Midori entre a realidade efetiva e a “realidade inventada”, esta já transfigurada em arte pelas mãos da nossa protagonista. Os lugares de Shibahama (onde é ambientada a série) constituem um vasto acervo de base para o trabalho criativo de Midori. Nesse sentido, Eizouken possui ares de tratado estético e aponta, com toda a riqueza que o registro metalinguístico possibilita, como o dado da realidade objetiva é determinante na arte, imprimindo marcas decisivas na criação artística (para quem a realidade histórica é imprescindível), o que faz lembrar o compositor austríaco Schoenberg, que em seu tratado de harmonia assinala: “O espírito produtivo busca novas soluções também nos domínios do ritmo, esforçando-se por representar o que a natureza, a sua natureza, lhe fornece como modelo(grifo meu). O que seria Midori, ao valer-se das formas que sua realidade lhe oferece para criar seus rabiscos senão esse espírito produtivo? E o passo seguinte também é dado já nesse capítulo de estreia: também a vida necessita da arte, daí a possibilidade dessas duas dimensões se confundirem, o que marca a belíssima cena final do episódio.

Se no começo do texto fiz questão de mencionar o nome do diretor de Keep Your Hands Off Eizouken!, agora retorno a ele como quem havia se esquecido da importância do trabalho de Yuasa no resultado apresentado pelo episódio de estreia do animê. Como tem aparecido nas discussões pela internet, o estilo do diretor do Science Saru (fundado pelo próprio) caiu como uma luva e nem parece que a série é uma adaptação, e não uma obra original. E o anedotário ainda trata de tornar mais interessante a harmoniosa união entre o estilo yuasiano e o mangá de Oowara: o diretor de Eizouken procurou conhecer a série após fazer um egosearch e ler alguém dizendo que o mangá deveria ser adaptado pelo responsável por Devilman CrybabySeja lá quem tenha cantado a bola, foi uma pessoa de visão, pois  o animê estreou com o pé direito e já esboçou, nos seus primeiros 25 minutos, ter potencial pra ser algo no mínimo memorável. A animação é das mais bonitas que já vi, no que diz respeito ao aspecto visual. A espontaneidade e fluidez na movimentação, por exemplo, marca registrada de Yuasa, encontrou nas personagens e cenários de ‘Eizouken‘ um solo fértil para a imaginação do nosso animador – algo parecido com a própria relação entre Midori e o seu mundo, o que chama a atenção.

Findo aqui minhas observações a respeito do primeiro episódio de Eizouken, pelo qual nutro, agora, altas expectativas a respeito do seu desenvolvimento.

 

Onde assistir

Keep Your Hands Off Eizouken! é exibido exclusivamente pela Crunchyroll. O 1º episódio estreou no último dia 5 de janeiro, disponível na plataforma com legendas em português. Novos episódios chegarão todo domingo.

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