TriviaBox: Os Cavaleiros do Zodíaco e os animês da Rede Manchete

Relembre a trajetória do sucesso dos animês na Manchete após o fenômeno dos Cavaleiros.

Das emissoras de TV aberta que não chegaram ao século XXI, na história da televisão no Brasil, uma das que mais deixou saudades para milhões de brasileiros foi a Rede Manchete. Esse canal que durou 15 anos, quase 16, foi responsável por alguns momentos históricos ao longo do período em que permaneceu no ar.

Inclusive, dois em particular pautam a existência desse e de vários outros sites e canais de YouTube. Enquanto o primeiro momento ocorreu no fim dos anos 1980, com a invasão de séries japonesas que redefiniram o gosto desse tipo de produção em nosso país, o outro momento completou 25 anos de estreia em 1º de setembro de 2019.

Nesta edição do TriviaBox vamos falar finalmente deles, talvez o animê mais marcante da história da TV brasileira em todos os tempos. Vamos falar d’Os Cavaleiros do Zodíaco e também dos últimos animês da extinta Rede Manchete.


Antes de começarmos mais uma viagem no tempo, é bom deixar claro que essa é uma continuação da história dos animês da Manchete. Sim, porque antes dos ‘Cavaleiros‘ a emissora exibiu clássicos como Patrulha Estelar, Don Drácula e até Doraemon. Tudo isso a gente contou no primeiro vídeo, que você pode conferir aqui. Então se você é um pouco mais velho e sentiu falta de alguma série dessa lista, corre lá porque tá tudo documentado na primeira parte.

Apesar de não ser um dos maiores expoentes da animação japonesa, Os Cavaleiros do Zodíaco atingiram um patamar nunca antes visto para esse tipo de produção em nosso país, a ponto de representar um marco em uma linha do tempo na história dos animês que já passaram oficialmente por aqui.

Essencialmente existe o período ANTES DE CAVALEIROS DO ZODIACO (ACDZ) e o período DEPOIS DE CAVALEIROS DO ZODÍACO (DCDZ).

 


OS CAVALEIROS DO ZODÍACO

A série chegou ao nosso país em um momento bem particular, já que estávamos vivendo o primeiro ano do Plano Real, e naquela época nossa moeda chegou até a valer mais que o dólar por um curto período. Dessa forma, importar qualquer coisa era bem mais em conta que nos dias de hoje e se beneficiando deste fato, a distribuidora espanhola SAMTOY decidiu apostar na comercialização dos brinquedos da série em nosso país, visando repetir o sucesso comercial que os Cavaleiros tiveram em outros países latinos alguns anos antes.

Reproduzindo o esquema japonês de faturar em cima dos animês, apresentando uma série e colocando comerciais de produtos licenciados nos intervalos, a Samtoy tentou vender o animê para as principais emissoras do país antes de fechar contrato com a saudosa Rede Manchete. Só que os caras ouviram um sonoro NÃO depois da apresentação.

Acontece que os executivos dos canais eram apresentados a um clipe com os momentos mais sanguinolentos da série e, acreditado que aquilo tudo fosse dar dor de cabeça ao invés de audiência, Globo, SBT, Record e Band recusaram a aquisição do animê.

E porque não procuraram logo a Rede Manchete, já que ela tinha uma programação “mais oriental” que as outras? Bem, naquela época volta e meia a crise financeira da emissora era um destaque negativo na imprensa da época, a ponto dos funcionários reclamarem salários atrasados em plena rede nacional. E vamos ser sinceros: quem iria logo de cara num canal que rola esse tipo de coisa?

Segundo o diretor da divisão de cinema da Manchete na época, o Eduardo Miranda, havia uma grande expectativa da Samtoy em fechar com o canal, aliada a uma necessidade do departamento comercial da emissora, muito urgente, de reativar o interesse na programação infantil da casa, que em outro momento contou com a Angélica e os heróis japoneses atraindo anunciantes. Mas da mesma forma que nas demais emissoras, a impressão negativa em torno do animê por conta da violência e dos litros de sangue que cada personagem era capaz de jorrar, fez com que alguns executivos da Manchete ficassem com um pé atrás.

Tomando para si o compromisso de avaliar melhor aquele desenho de olho grande, Eduardo exigiu da Samtoy uma fita com os episódios completos do programa e foi então que seu veredito foi favorável para a estreia dos Cavaleiros em 1º de setembro de 1994. No acordo fechado com a Samtoy, a emissora carioca recebeu 52 episódios pagando à distribuidora com o que tinha de mais precioso em meio a sua crise financeira: seus intervalos comerciais.

Sim, meus caros. A Manchete não passou o animê de graça. Ela só “pagou” com uma moeda “pouco convencional”, que rendeu bastante pros cofres da Samtoy – que ainda arcou com os custos da dublagem dos episódios entregues, no recém inaugurado estúdio da Gota Mágica, de São Paulo.

A partir daí vocês já sabem, né? A série elevou a audiência da emissora e fez com que os Cavaleiros se tornassem destaque em jornais e revistas de todo país. Com apresentação em dois horários distintos, o que foi visto no Brasil em 1994 e 1995 foi uma verdadeira tsunami como nunca antes vista na história de nosso país para um desenho animado. Já no ano de 1994, os bonecos da série eram os itens mais desejados pelos pequenos, mesmo custando quase um salário mínimo da época.

A Samtoy não estava preparada para esse fenômeno e teve que recorrer à importação de bonecos da série que sequer haviam aparecido na TV ainda. A febre era tamanha que diversos bonecos piratas  invadiram o mercado. Além do preço mais em conta, era possível achar versões que não eram comercializadas pela Samtoy no Brasil, como os heróis com a primeira armadura.

Depois de exaustivas reprises, em 1º de maio de 1995 a Rede Manchete estreou finalmente novos episódios com direito a uma nova abertura. Quem assistiu na época deve lembrar que a primeira abertura era um amontoado de imagens sem contexto, a maioria extraídas de um filme da série, e que confundiam a cabeça de todo mundo. Tudo isso embalado por uma marchinha, cortesia da versão espanhola.

Na nova abertura, juntaram mais algumas imagens junto com a salada do filme, mas agora com um tema produzido exclusivamente no Brasil. E junto disso, uma apresentadora própria (Mytsue Ikeda) que sempre fazia um desnecessário comentário sobre o episódio do dia.

Comenta-se que neste dia de estreia dos novos episódios, Os Cavaleiros do Zodíaco conseguiram a façanha de derrotar a Rede Globo na disputa de audiência aferida pelo IBOPE. No feriado do dia do trabalho daquele ano, a lenda urbana que foi criada diz que na hora em que o episódio começou, as ruas estavam vazias e milhares de crianças assistiam hipnotizadas o desfecho da batalha da Casa de Leão.

O auge da zodíacomania se estabeleceu com o recorde batido com a estreia do longa-metragem da série em julho de 1995 – sim, aquele mesmo que tinha cenas vazadas na abertura. Mais de 1 milhão de pessoas indo aos cinemas e o filme ficando em cartaz por inacreditáveis 3 meses. Bem, as coisas funcionavam diferente naquela época.

Antes de falar dos animês que a Manchete nos apresentou na era pós CDZ, vamos dar uma resumida geral na história da série.

Depois de anos de treinamento, Seiya conquista a sagrada armadura de bronze de Pégaso na Grécia e se torna um cavaleiro. Sua missão é proteger a reencarnação da deusa Atena e defender a verdade e a justiça. De volta ao Japão, com a intenção de reencontrar sua irmã da qual foi separado, Seiya descobre que o milionário que os dividiu na infância faleceu, e sua neta, Saori Kido, assumiu os negócios da família.

Seguindo a vontade de seu avô, a garota organiza um torneio entre outros jovens que também possuem armaduras sagradas, chamado de Guerra Galáctica. Ao vencedor do vale-tudo astral – já que cada armadura é regida por uma constelação – a sagrada armadura de ouro de Sagitário será entregue.

Bem, a partir daí a gente vai conhecendo outros personagens e nos damos conta que os principais além de Seiya serão Shiryu de Dragão, Hyoga de Cisne e Shun de Andrômeda. E olha que pela abertura a gente até pensa que os demais cavaleiros de bronze serão relevantes na trama, mas… bem… Não é o que acontece.

Depois de derrotarem seu primeiro grande oponente – Ikki de Fênix, que volta na história como o 5º membro sazonal do time – os heróis se dão conta que o inimigo verdadeiro está no Santuário da Grécia, e depois que descobrem que Saori Kido é a reencarnação da deusa Atena, suas motivações passam a estar alinhadas por um objetivo muito maior e cósmico.

O auge da primeira fase do animê é a clássica Batalha das 12 casas, onde os verdadeiros cavaleiros do zodíaco aparecem. Sim porque, do zodíaco só são 12, e os de bronze, que são os protagonistas, só vestem armaduras de ouro umas poucas vezes e bem mais pra frente. Bom, melhor deixar isso pra lá.

Depois de finalmente derrubar o mestre do Santuário e seus planos malignos, os nossos heróis precisam ir para a mitológica terra de Asgard, no extremo norte da Europa. Agora, eles precisam impedir que Atena se sacrifique impedindo o derretimento do gelo local que pode inundar todo mundo. Tudo plano do deus Poseidon e dos roteiristas da Toei Animation, que precisaram criar uma saga inteira de enrolação para a história da série de TV se distanciar da trama do mangá.Saga que até se tornou a favorita de muitos

Após vencerem os valorosos 7 guerreiros-deuses de Odin, os cavaleiros do zodíaco precisam salvar Atena novamente já que Poseidon, o deus dos mares, a sequestrou e planeja afogar todo nosso planeta para reinar em um novo mundo submarino. Enquanto os Cavaleiros lutam incansavelmente, os cavaleiros de ouro sobreviventes da batalha das 12 casas montavam guarda no santuário, esperando por um evento que só iríamos a assistir 13 anos depois.


TAMA E SEUS AMIGOS

Infelizmente, pra Rede Manchete, Cavaleiros só contava com 114 episódios na época. Por conta disso, era necessário encontrar algum sucessor da sua enorme audiência. Vendo a oportunidade, várias distribuidoras correram para encontrar um “santo graal”.

Foi então que em 1995 o mercado de Home Vídeo brasileiro foi invadido por dezenas de lançamentos de filmes, OVAs e séries que se tornaram o que chamamos carinhosamente de “animês perdidos”. Um deles teve a sorte de ir ao ar em 12 de outubro de 1995 como um especial de dia das crianças da Manchete.

Tama e Seus Amigos chegaram por aqui pela Sato Company em 4 fitas VHS que juntas apresentaram os 7 episódios da primeira série produzida entre os anos 1980 e 1990 pelo Group TAC. A origem do personagem está em uma série de imagens comerciais do gatinho que circularam em propagandas de produtos da Sony Creative Products a partir de 1983.

O simpático felino e seus amigos fofinhos não fazem muita coisa além de viver aventuras açucaradas e despertar a vontade em algumas pessoas de comprar qualquer coisa barata com eles estampados.

Em janeiro de 2020, uma curiosa produção baseada nos personagens estreou. Chamado de Uchitama?! Have you seen my Tama?, o animê do estúdio MAPPA mostra Tama e seus amigos também na forma de seres humanos. A série é exibida oficialmente no Brasil pela Crunchyroll.


Mas tá, além dessas pérolas que saíram em fita de vídeo, as principais distribuidoras de conteúdos nipônicos na época também trataram de trazer novidades para oferecer à Manchete.

A Tikara Filmes tratou de importar um dos animês que surgiram na esteira do sucesso de Cavaleiros no Japão. A Sato, que trouxe Cybercop alguns anos antes, tratou de pegar o outro animê super parecido com Cavaleiros. Já a Alien International, que trabalhou com o licenciamento da marca Os Cavaleiros do Zodíaco no Brasil, também importou desenhos do Japão para oferecer.

Um deles era nada menos que Dragon Ball, que só não ficou na Manchete pois a distribuidora queria que o canal apresentasse junto Fly, O Pequeno Guerreiro e também As Guerreiras Mágica de Rayearth. O destino desses 3 animês acabou sendo o SBT em 1996.

A apresentação do último episódio dos Cavaleiros na Manchete se deu em 17 de outubro de 1995. A partir daí, o canal tratou de reprisar a série até todos decorarmos os diálogos e enjoarmos dos personagens. Cavaleiros saiu do ar em definitivo no canal em setembro de 1997, sendo que no ultimo dia do mesmo ano o longa-metragem onde os heróis lutavam contra Abel foi reprisado. Aliás, todos os 4 filmes da série chegaram a ir ao ar pela Manchete a partir de 1995. No dia 1º de janeiro de 1998 ia ao ar uma reprise do filme do Lúcifer. Essa foi a marca derradeira da era Cavaleiros pela emissora carioca.


SAILOR MOON

Em 29 de abril de 1996 um animê um tanto diferente, mas com um carisma fora do comum estreou na programação do canal. Estamos falando de Sailor Moon.

Depois de salvar uma gatinha das mãos de uns garotos, a vida de Serena Tsukino muda para sempre quando a gata invade seu quarto à noite e diz que ela é uma das lendárias guerreiras do reino da Lua. Ao dizer palavras mágicas, Serena (Usagi, no original) se transforma em Sailor Moon e precisa lutar contra os inimigos do Negaverso, enviados pela maligna Rainha Beryl.

Longe de ser uma super heroína exemplar, Sailor Moon vai aos pouquinhos crescendo e conquistando o público. Público este que, aqui no Brasil, em algum momento consegue deixar de lado todas as repetitivas situações e furos no roteiro para encarar a série como uma opção para dividir a adoração por Seiya.

Só que a série infelizmente não decolou, por mais que tivesse muitos episódios para serem transmitidos e contasse até com um público fiel. Originalmente voltada para garotas na questão comercial, Sailor Moon fracassou comercialmente em nosso país, com a Samtoy vendo encalhar nas lojas vários produtos originais importados da Bandai.

Pior que isso, só o fato da série render a menor audiência dentre as apresentadas na época, o que desanimou o departamento comercial da emissora a renovar o contrato de exibição ou adquirir mais episódios.

Sailor Moon sofreu então um hiato de alguns anos, até ser resgatada pela distribuidora Cloverway e ser relançada junto com Sakura Card Captors em 2000 pelo Cartoon Network. Só que dessa vez, iniciaram a apresentação da série pela segunda fase e trocaram todo o elenco de vozes conhecido pela versão brasileira da Gota Mágica na Rede Manchete.

A orientação do distribuidor era bem louca na verdade: fingir que a primeira fase nunca existiu e relançar a série como algo novo. A gente explica esse rolo melhor em outra hora, quando falarmos dos animês do Cartoon Network que não passaram no Toonami.

Sim pois os que passaram já tem 2 vídeos exclusivos dedicados a eles, que você pode conferir depois, se você quiser (aqui e aqui).


SHURATO

O primeiro animê a surgir na Manchete com a missão de segurar a audiência da série foi ninguém menos que o primo hindu do Seiya: Shurato.

Produzido pela Tatsunoko e lançado na TV japonesa em maio de 1989, a série tem o conceito assinado por Goh Mihara (ERRATA: no vídeo dissemos que seria Hiroshi Kawamoto, que trabalhou na arte do mangá da série). Com apenas 38 episódios, a série caiu no gosto do público brasileiro de tal forma que, de todos os animês que foram ao ar no canal a partir de 1996, Shurato foi o que rendeu mais audiência.

Parte desse sucesso está na excelente versão brasileira da série, realizada nos estúdios da Dublavídeo, em São Paulo. E olha que mesmo usando praticamente todos os dubladores d’Os Cavaleiros do Zodíaco, conseguiram fazer um trabalho com muita personalidade.

Na trama, os amigos Gai e Shurato são transmigrados para o Mundo Celestial pela deusa Vishnu e se envolvem em uma guerra que os coloca de lado opostos, já que Gai se torna seu inimigo quando veste uma armadura e encarna a figura de Rei Yasha. Da mesma forma que Gai, Shurato também ganha uma armadura e se torna o Rei Shura.

Depois de uma conspiração colocar personagens que deveriam ser do mesmo lado na trama uns contra os outros, assistimos a jornada de Shurato e seus amigos para trazer Vishnu ao normal e recuperar a harmonia do Mundo Celestial, que está se desfazendo conforme os planos nefastos da grande vilã da história: a deusa Shiva e o povo divino de Asra.

Distribuída pela Tikara Filmes, a série também teve uma avalanche de produtos licenciados em nosso país, mas que infelizmente não eram tão legais quanto o dos Cavaleiros. A maioria foi lançada pela Glasslite, a fabricante que era famosa por suas reciclagens de brinquedos. Ela conseguiu a façanha de relançar um dos mais cobiçados brinquedos dos anos 1980 com os adesivos do Shurato na carcaça. Estamos falando do Thundertank, dos Thundercarts!

Shurato teve alguns episódios lançados em vídeo pela FlashStar Home Vídeo e permaneceu no ar até o fatídico período de transição de Rede Manchete para a Rede TV!, tendo sua última transmissão sendo feita em outubro de 1999.


SAMURAI WARRIORS

No mês seguinte à estreia de Shurato, o outro primo do Seiya, vindo pela Sato Company estreou. Conhecidos como Samurai Troopers em sua terra de origem, Samurai Warriors foi uma resposta da produtora Sunrise ao grande sucesso da concorrente Toei Animation no ano de 1988.

Sem origem em qualquer mangá, ou mesmo tendo um criador original, a produção de 39 episódios conseguiu chamar atenção dos japoneses graças ao eficaz design de armaduras e suposto carisma dos personagens. Suposto porque essa propriedade parece ter se perdido na versão americana da série, que foi rebatizada de Ronin Warriors. E como essa versão foi a que serviu de base para nossa tradução e dublagem, tivemos consideráveis perdas.

Mas vamos para a trama. Cinco jovens surgem do nada com o poder de invocar armaduras relacionadas aos elementos da natureza, para lutar contra a ameaça de Scorpio e a dinastia do mal. O fantasmagórico vilão conta com quatro asseclas, que também vestem armaduras samurai. No decorrer da história, descobrimos que um dia todas as 9 armaduras foram originalmente a armadura do vilão, que foi derretida por um monge que perdeu o nome na nossa versão brasileira. Tal como Seiya e Shurato, no auge dos problemas, Hector, o protagonista da série, veste uma armadura mais poderosa que eleva seus poderes para o infinito e além…

Como dito antes, a versão brasileira foi trabalhada em cima da versão americana que simplificou diálogos, golpes e fez uma desnecessária edição na trilha sonora, enfiando uns efeitos sonoros para dar mais “emoção” às lutas. Já os nomes dos personagens, foram cortesia da coleção espanhola dos brinquedos da série – importados pela Samtoy, a mesma que trouxe a coleção dos Cavaleiros pra cá.

A dublagem feita pela Gota Mágica escalou a mesma voz do Seiya e do Shiryu para suas contra-partes samurais na série. Outro aspecto forçado da dublagem era chamar os personagens de cavaleiros, muito provavelmente para ajudar a impulsionar a venda dos bonequinhos da série.

Da mesma forma que os bonecos dos Cavaleiros, os Samurai Warriors vinham com partes de suas armaduras para encaixar, mas nada com o mesmo charme da coleção de Seiya e dos outros. O grande diferencial eram as articulações em mola, que bem… Inevitavelmente enferrujavam com o tempo.

Aliás, em 2009 os Samurais ganharam uma linha no “estilo Cloth Myth”, com action figures muito legais dos 5 protagonistas e da armadura do inferno.

Depois da série, também surgiram alguns especiais direto para vídeo no Japão.


U.S.MANGÁ CORPS DO BRASIL

Além do trio Shurato, Sailor Moon e Samurai Warriors, em 1996 a Manchete também tinha reforçado sua programação com o super herói nipo-americano Super Human Samurai – versão americanizada da série japonesa Gridman, nos mesmos moldes que eram feitos os Power Rangers. Também vieram os lendários, e velhos, Ultraman e National Kid.

Como se tudo isso não bastasse, a gente ainda podia assistir naquele ano as reprises de Solbrain, Winspector, Kamen Rider Black RX e até da Patrine.

Empolgada com a audiência dos animês, a emissora fechou um acordo com a distribuidora Premier Filmes e lançou em novembro daquele ano a U.S Mangá Corps do Brasil.

A sessão se destinou a apresentar uma série de OVAs e até alguns filmes adquiridos pela distribuidora, que posteriormente seriam lançados no mercado de home-video sem cortes, já que muitas das produções eram extremamente violentas e tiveram que passar picotadas na TV. Com altos e baixos, a sessão durou até o ano seguinte, apresentando títulos como Detonator Orgun, Zeorymer, Genocyber, Fatal Fury, dentre outros.

Se você quiser saber mais sobre o que passou por lá, falamos tudo e mais um pouco da U.S Mangá em um vídeo antigo dedicado só a esse bloco.

 


YU YU HAKUSHO

Por mais que os três animês lançados no ano anterior e os OVAs da U.S. Mangá tivessem tentado preencher a lacuna deixada pelos Cavaleiros do Zodíaco no coração dos fãs, a grande verdade é que todas as produções tinham uma característica comum: eram curtas demais pra época.

Ok. Sailor Moon tinha até mais temporadas para estrear; e o público até esperava por isso, só que a série “não aconteceu comercialmente” e a distribuidora não trouxe o restante do programa.

A violência dos animês começou a virar um bafafá na imprensa, principalmente com o U.S. Mangá, e depois de várias polêmicas em torno do teor de seu conteúdo, apenas em março de 1997, um animê com características ímpares conseguiu o título de “sucessor do Cavaleiros do Zodíaco”. Estamos falando de Yu Yu Hakusho.

Mesmo com nenhum personagem vestindo armadura, ou sequer algum com um tipo de transformação, ao menos no início, Yu Yu Hakusho conquistou o público brasileiro por sua trama interessante, carisma dos personagens e uma das melhores versões brasileiras de todos os tempos.

Realizada nos estúdios da Audio News, no Rio de Janeiro, a adaptação da série soube dar graça para piadas que só fariam sentido no Japão e trouxe até gírias da época para dar um toque brasileiro e genuinamente carioca ao programa. Algo que talvez se fosse feito hoje em dia faria muito otaku reclamar. Isso sem mencionar a trilha sonora, que tinha tudo pra ser lançada na época, mas que não aconteceu por falta de uma gravadora que enxergasse o potencial das canções.

Na história, conhecemos Yusuke Urameshi, um autêntico bad boy japonês que morre de uma hora pra outra. Após receber a chance de ressuscitar por parte do Mundo Espiritual, o rapaz se torna um detetive sobrenatural e passa a resolver casos envolvendo demônios que importunam ou ameaçam o mundo dos homens. Nessas missões, Yussuke faz amizade com Hiei e Kurama e reforça sua relação com um ex-rival chamado Kuwabara.

Quarteto formado, somos brindados com ação e porradaria no melhor estilo Shonen Jump, com uma trama que apresenta até a sua “batalha das 12 casas” em forma de torneio, seguido de uma saga que revela um “modo sagitário” do protagonista.

Apesar de Yu Yu Hakusho não ter repetido o mesmo fenômeno de audiência que foi Cavaleiros do Zodíaco na programação do canal, o animê é considerado até hoje pelo público como um dos melhores e mais queridos já apresentados no Brasil.

Infelizmente, segundo o responsável pela distribuição da série no Brasil, o senhor Toshihiko Egashira, a série era um tanto difícil de vender pro mercado de licenciamento, visto que o público que tinha  interesse no animê era um pouco menos infantil que o das demais produções. Como consequência, tivemos somente uma coleção de bonecos meio toscos fabricados pela Estrela.

Pra remediar o prejuízo, o senhor Toshi foi atrás de um serviço um tanto inusitado: um 0900.


SUPER CAMPEÕES

Nessa altura do campeonato, o público brasileiro já estava devidamente catequizado com o universo dos animês, graças a várias publicações do mercado editorial, com destaque para a revista Animax, dedicada integralmente ao assunto.

Ansiosos por mais novidades da terra do sushi, ficamos a ver na navios quando a Manchete começou a inserir em sua programação produções americanas como ReBoot, ignorado pelo SBT e que ganhou uma sobrevida na Manchete a partir de dezembro de 1996, e o tosquíssimo WMAC Masters.

Mas eis que no segundo semestre, a Samtoy entregou pra Manchete um animê pra lá de diferente do que estávamos acostumados. Super Campeões tinha como tema o futebol, e apesar de ser o esporte mais importante do nosso país, a série destoava um bocado do ritmo do que estávamos acostumados a consumir em termos de animê naquela época.

Só pra lembrar: O SBT também levava ao ar em sua programação Street Fighter II, Fly, Dragon Ball e Guerreiras Mágicas.

Com uma dublagem um tanto desastrosa, apesar de vários profissionais ótimos no elenco, Tsubasa foi o último trabalho nipônico do estúdio Gota Mágica e também o último animê inédito lançado pela Rede Manchete.

Super Campeões na verdade era um remake feito em 1994 de outra série exibida no Japão nos anos 1980, tendo como base o mangá de Yoichi Takahashi. Mesmo produzido na época da Copa de 94, toda a história da trajetória de Oliver Tsubasa para se tornar um grande campeão e realizar seu sonho de jogar no Brasil foi ambientada no cenário da copa de 1998, graças à dublagem brasileira. A Gota Mágica teve que fazer mil malabarismos pra forçar que os preparativos eram para a Copa da época que o animê estava passando na Manchete.

Em meio a performances que pareciam saídas de filmes de kung-fu e campos de futebol que davam impressão de serem ladeiras infinitas, o que mais frustrava era o fato da série não possuir um final, já que ela acabou sendo cancelada no Japão.

Agora vem cá. A Samtoy, que trazia séries pensando nos brinquedos que iria vender, por que será que resolveu investir em Super Campeões? Eles esperavam vender o que? Bolas de futebol?

O único produto licenciado que conhecemos foi um CD com músicas compostas pelo Mário Lúcio de Freitas e Oswaldo Biancardi SobrinhoLançado pela RDS Fonográfica, o CD vendeu menos de 10 mil cópias, o que representa um número bem inexpressivo para a indústria fonográfica da época – mas impressionante se levarmos em consideração o conteúdo.


Ainda no segundo semestre de 1997, mas dois não animês foram levados ao ar pela Rede Manchete: Dragon Flyz e uma versão futurista de Flash Gordon. Restava a todos aguardar um ano de 1998 mais feliz. Só que isso infelizmente não aconteceu.

O único animê que estava com chances de aparecer como novidade na programação da emissora era Ranma ½. As desventuras do rapaz que vira garota quando molhado em água fria, e seus loucos amigos na deliciosa comédia de artes marciais de Rumiko Takahashi, encontraram problemas na avaliação do senhor eduardo Miranda graças as várias cenas da Ranma com seus peitinhos de fora.

Talvez isso fosse algo que uma programação infantil na TV brasileira daquela época não estivesse preparada para assistir. Mesmo a gente passando coisinhas do naipe da “banheira do Gugu” nas tardes de domingo.

A Manchete não quis, o seu Toshi desistiu e com o prejuízo acumulado de Yu Yu Hakusho, a distribuidora acabou saindo do mercado alguns anos depois – ainda mais depois que não conseguiu convencer nenhum outro canal a transmitir Ranma.

Com a crise atingindo patamares insustentáveis a Manchete começou a perder retransmissoras pelo país, e por conta disso, muita gente sequer viu o final de Yu Yu Hakusho.

A emissora dos Bloch logo seria vendida para a TV Ômega, e com isso assistimos ao nascimento da Rede TV! a partir de maio de 1999. Nessa fase transitória, a Rede TV! ainda apresentou alguns animes e séries tokusatsu do acervo do canal, conforme comentamos em outro vídeo dos animês da Rede TV!.

No mesmo dia que a Manchete saia do ar, a Record estreava outro desenho japonês que daria o que falar: Pokémon. Mas essa já é outra história.

De sua estreia um tanto faraônica a um triste fim, com uma programação recheada de programas de televendas, e animês e tokusatsu usados como mera tapa buracos, a Rede Manchete ao longo de seus 15 anos de existência deixou um legado maior que qualquer produção própria ou evento que tenha transmitido.

Ela apresentou para toda uma geração de brasileiros, hoje na casa de seus 30 e tantos anos, desenhos e séries do outro lado do mundo, que são cultuadas e trabalhadas comercialmente até os dias de hoje, marcando não só eternamente a memória de quem foi criança nos anos 80 e 90; mas também o coração de toda uma nação que jamais esquecerá nomes como, Jaspion, Changeman, Cavaleiros do Zodíaco, Shurato e tantos outros.

Obrigado por acompanhar essa história com a gente e nosso muito obrigado à Rede Manchete por ter existido.

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