O que o ‘caso Horikoshi’ tem a ver com relações internacionais? Conversamos com uma especialista no assunto

Polêmica iniciada no mangá de ‘My Hero Academia’ esconde longas feridas diplomáticas no Oriente.

No começo de fevereiro, um capítulo de My Hero Academia foi publicado contendo um novo vilão, Maruta Shiga, utilizando os mesmos kanjis (丸太/Maruta) utilizados pelos militares japoneses para designar os prisioneiros da Unidade 731, localizada na Manchúria, onde faziam diversos experimentos bioquímicos (incluindo vivissecção, disseminação de agentes infecciosos e testes de armas). Por usar o nome das vítimas em um vilão,  o caso teve grande repercussão negativa entre coreanos e chineses.

A Shonen Jump se posicionou quase imediatamente e, após plataformas chinesas de streaming tirarem a série do catálogo, a Shueisha lançou um segundo comunicado oficial se desculpando. Já no final de semana seguinte, o capítulo foi atualizado com o novo nome do personagem, Kyudai Garaki.

 

 

Para entender melhor o caso, o JBox conversou com Lais Santos Belini, mestra pelo programa de Língua, Literatura e Cultura Japonesa da USP. A dissertação de Lais, disponível pelo site da Biblioteca Digital da USP, aborda a diplomacia cultural japonesa entre 2004 e 2014, com foco em analisar a estratégia da “diplomacia pop”, também chamada de “Cool Japan“, na qual o governo japonês deliberadamente utiliza mangá, animê e outros elementos da cultura pop japonesa para buscar uma aproximação política com os países vizinhos.

Lais explicou para nossa equipe que as tensões levantadas pelo uso do nome “Maruta” são bastante latentes e presentes entre China, Coreia do Sul e Japão, apesar de tratar de eventos passados. Segundo ela, ao final do século XIX, o Japão se abriu para o mundo após passar mais de 250 anos com os portos praticamente fechados para o comércio estrangeiro. Como parte de um processo de “modernização”, veio um projeto de expansionismo e colonização do extremo oriente. Pode parecer estranho para muitos hoje, mas é necessário lembrar que os países europeus também estavam colonizando a África e a Ásia nesta época – ou seja, o Japão estava, em parte, seguindo o pensamento colonialista europeu da época (os países europeus acreditavam naquele momento que, por serem “avançados”, deveriam colonizar os outros países para “levar o desenvolvimento” a eles).

Ainda segundo Lais, durante a colonização de outros países asiáticos, o Japão cometeu diversas atrocidades – uma das mais conhecidas são as “mulheres de conforto”. Apesar de não serem exclusivamente coreanas, uma boa parte delas vinha da Coreia, que é hoje o país que mais relembra do caso. As “mulheres de conforto” eram jovens sequestradas pelo exército japonês e obrigadas a fazerem sexo com os militares. Um outro caso, menos conhecido do lado de cá, foi a já citada Unidade 731.

Com o final da Guerra do Pacífico, o Japão foi forçado a abdicar de seu exército (possuindo “apenas” uma força de auto-defesa), pagando também indenizações e pedindo desculpas formalmente. O país defende já ter pago pelo seus erros. Contudo, de acordo com a entrevistada, a China e a Coreia do Sul discordam, ambos países acreditam que o Japão não pagou o suficiente, além de ter uma postura dúbia com relação aos eventos.

Lais conta que alguns primeiro-ministros japoneses decidem visitar o santuário Yasukuni, onde estão enterrados teoricamente “heróis de guerra” japoneses desde a era Meiji. Contudo, estão neste santuário os corpos de alguns criminosos de guerra, inclusive Classe A – militares de alta patente considerados responsáveis por diversas atrocidades, embora não necesssariamente os executores dos crimes em si. Ao lado do templo, há também um museu, o Yushukan, que conta a história da colonização japonesa de forma bastante revisionista e patriótica, mesmo após uma reforma que teria tornado o local um pouco menos nacionalista.

Estátua em homenagem aos pilotos kamikazes no museu Yushukan (embora muitos deles estivessem ali à força e fossem coreanos e chineses). / Créditos: GIANNI SIMONE/Japan Times

 

Recentemente, alguns livros japoneses têm feito revisionismo histórico, chamando a invasão da China de “avanço à China” ao invés de “agressão” – curiosamente, existe até um mangá tratando do colonialismo japonês de forma revisionista. Essas posturas deixam os vizinhos muito reticentes a quanto o Japão realmente se arrepende das atrocidades cometidas no passado.

Lais acredita ser muito difícil saber se o uso do termo foi realmente uma coincidência, como alegado pela Shonen Jump e pelo autor da obra, Kohei Horikoshi. Por um lado, ambos o nome e a profissão do personagem (médico) remeterem ao caso são coincidências muito grandes. Por outro, como Horikoshi é mais jovem, em torno dos 30 anos, é possível que ele já não tenha mais tanto contato com esses assuntos quanto às gerações passadas. De todo modo, independentemente da real intenção do autor, a reposta da empresa foi, na opinião da mestra, eficiente neste caso.

 

 

Questionada com relação ao crescimento da China como agente político da região, Lais acredita que, com o aumento da classe média chinesa consumindo produtos japoneses, as produções japonesas devem acabar sendo bastante afetadas por esse público. Isso não só pelo tamanho do mercado chinês, mas também porque a economia japonesa anda estagnada desde a década de 90 – ou seja, sofrer um revés com um mercado tão grande seria mais uma perda complicada nesta situação. Apesar do caso não ter envolvido diretamente governos, ela também acha que isso pode afetar indiretamente os países em termos políticos, já que afeta a opinião pública.

O Japão vem utilizando a cultura pop como uma maneira de buscar melhorar as relações com seus vizinhos. Contudo, esse talvez seja um caso que demonstre bem que consumir um produto não necessariamente implica apoiar politicamente um país. Perguntada sobre a possibilidade de haver algum acordo entre esses países com relação a essas questões futuramente, Lais acredita que, ao menos nos próximos 10 anos, é muito difícil, pois são assuntos muito sensíveis e que envolvem muitas variáveis.

Em resumo, o desconforto e a revolta causados pelo nome Maruta são fruto de tensões políticas latentes entre os países, produtos de conflitos históricos sensíveis que nunca foram completamente resolvidos. Para nós, o final da Guerra do Pacífico pode parecer um acontecimento distante, mas ali na região, essas tensões seguem presentes e, por isso, emergem com certa frequência. Há também pressões internas a cada um dos países influenciando nessas questões e, na visão de Lais, a curto e médio prazo é improvável que elas sejam resolvidas.

 

Caso tenha se interessado pelo assunto, não se esqueça de conferir a tese de mestrado da Lais gratuitamente aqui.

 

Lembrando que houve um outro caso relativamente recente que causou polêmica: o primeiro capítulo de Tokyo Shinobi Squad, que continha tons extremamente nacionalistas, assustando muitos leitores internacionais. No caso de Shinobi Squad, no entanto, a polêmica não levou a nenhum pronunciamento oficial da Shueisha, embora a obra tenha sido finalizada em 3 volumes, provavelmente por baixa receptividade.

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