Entrevista | David Yost, o primeiro Power Ranger Azul

Conversamos com o ator durante a sua última passagem pelo Brasil.

O ator David Yost ficou conhecido mundialmente como o intérprete do Billy, o primeiro Ranger Azul de Power Rangers – série americana que adaptou o seriado japonês Zyuranger. Ele esteve no Brasil em dezembro de 2019, como atração do evento Comic Con Experience, onde encontrou a equipe do JBox para essa entrevista.

Confira o papo no vídeo acima. Mas, se preferir em texto, segue abaixo na íntegra.


O que você fazia quando foi chamado para o teste de Power Rangers? Como surgiu essa chance?

Bom, antes de eu me tornar um “Power Ranger”, eu me mudei para Los Angeles como tantas pessoas para me tornar um ator na indústria de entretenimento. Eu comecei trabalhando em um hotel como um garçom de serviço de quarto. Mas eu trabalhava no que nós chamamos de “turno da noite”. Então eu trabalhava das 11h da noite até as 8h da manhã. Era isso que eu fazia, eu trabalhava durante a noite e, se eu tivesse audições para programas de TV ou filmes, eu saía durante o dia para fazer testes para as coisas e depois voltava para casa e tentava dormir.

 

Diferente dos EUA, aqui no Brasil nós já havíamos assistido outras séries Super Sentai antes de Power Rangers. Você chegou a assistir à versão original japonesa? Incorporou algo disso?

Eu nunca soube nada sobre os episódios de Zyuranger, os episódios japoneses. Quero dizer, eles nos disseram quando estávamos começando, quando entramos no elenco do show, mas logo começamos a filmar o piloto original. E eles nos disseram: “estamos recebendo filmagens do Japão e colocando em seu programa”. Mas eu nunca assisti nada até muito depois de termos filmado a primeira temporada. E então estávamos em uma festa na casa do produtor e assistimos alguns episódios. Fiquei surpreso ao ver como era diferente da versão americana. Então nós nunca incorporamos nada do que eles estavam fazendo no nosso show. Eu nunca peguei nada do “Ranger Azul” de lá para o meu personagem.

 

Billy evoluiu ao longo das temporadas. Ele se destacou também em Alien Rangers e em Power Rangers Zeo, onde foi praticamente o mentor/conselheiro da equipe. Como você enxerga essa mudança do personagem na trama?

Sabe, para mim, é um grande presente como ator poder interpretar um personagem que cresceu tanto ao longo do tempo que estive no programa. Billy começou muito nerdizinho e muito inseguro. Não tinha muita confiança. Realmente não conseguia lutar a menos que ele se tornasse o Power Ranger Azul. E foi muito legal como ator poder interpretar um personagem que você realmente via crescer. Ele desenvolveu confiança. E fez aulas de artes marciais – Jason, o Ranger Vermelho, ensinou Billy artes marciais e Billy conseguiu sua primeira faixa. Isso foi uma grande coisa pra ele! Então eu acho que foi realmente muito interessante poder interpretar esse tipo de personagem que era tão nerd, mas tinha amigos e meio que se dava bem com as pessoas. Ele ainda era atormentado pelos valentões da escola, mas, com o passar do tempo, ele desenvolveu mais confiança e meio que aprendeu a lidar com esses agressores. Ele também começou a usar lentes de contato ao invés de óculos o tempo todo. Isso foi interessante. Apesar de que muitas pessoas ficaram bravas comigo ou com o personagem, porque elas gostavam que Billy usasse óculos, porque elas também usavam óculos. Por isso, foi triste pra elas que Billy tenha começado a usar lentes de contato.

Mas foi incrível e sim, quando mudamos para Alien Ranges, Billy realmente assumiu o papel de ser líder e de tentar descobrir: “como eu trago meus amigos de volta para a Era normal?”. Nós realmente vimos que Billy subiu para um nível diferente, começando a se tornar um personagem como Zordon, meio que descobrindo todas as coisas no Centro de Comando e meio que encarregado de como os cristais funcionam e entendendo esse tipo de energia.

Então é realmente algo incrível para um ator interpretar.

 

Você saiu da franquia um pouco antes do fim de Zeo. Qual sua relação com a antiga Saban?

Na verdade, nenhuma. Eu não saí do programa nos melhores termos. Quando saí, eu não tinha visto ou realmente tido contato com Haim Saban até o filme de 2017 – quando o elenco original voltou a se reunir na estreia. Essa foi a primeira vez que eu o vi e ele foi muito legal comigo, nós tiramos fotos juntos e foi ótimo. Mas não falo com ele desde então. Então eu realmente não tenho um relacionamento com ele.

 

Saindo de Power Rangers, você chegou a trabalhar na Pioneer/Geneon, no licenciamento de animês para TV. Como era esse trabalho? Se recorda de títulos marcantes que trabalhou nessa época?

Sim, quer dizer, um dos trabalhos que eu fiz depois que deixei os Power Rangers foi vender animês em nível mundial na maior parte do tempo. Eu controlava os territórios da América do Norte, América Central e America do Sul, e também parte da Europa e da Austrália. Eu vendia esses programas para emissoras de TV americanas para que eles começassem a transmitir os animês japoneses nos Estados Unidos. E então eu licenciava os direitos do DVD em nível mundial.

E, em termos de títulos que eu me lembro, quero dizer, meu favorito, ou um dos meus favoritos, é Trigun, eu o coloquei no Cartoon Network nos EUA. E isso foi uma grande feito para todo mundo na comunidade de animê, que Trigun chegou ao Cartoon, eu fiquei muito honrado em fazer isso.

Alguns dos meus outros títulos eram Hellsing, Chobits, Onegai Teacher, eu não sei, eram tantos títulos loucos que eu tinha.

Nos EUA, fechei negócios com a MTV, eu tinha um animê japonês na MTV, eu coloquei animes no Showtime [rede de TV americana]. Então eu realmente gostei do trabalho, eu o fiz por cerca de 3 anos.

 

Você teve algum super-herói favorito na infância? Algo desse super-herói influenciou no ranger azul?

Eu diria que, quando eu era criança, dois dos heróis que eu admirava – e vocês podem ou não conhecer – um deles era o Flash Gordon, interpretado por Sam Jones. Eu amei esse filme e assisti de novo e de novo e de novo. Então eu sempre quis ser como Flash Gordon. E também tivemos uma série de televisão nos EUA chamada Buck Rogers e Buck era interpretado por Gil Gerard e ele era um dos meus grandes heróis quando criança. E poder fazer Comic-cons é tão legal porque eu conheci os dois e fiz apresentações com eles, é realmente uma honra.

Na verdade, há um documentário de Flash Gordon e eu pude estar no documentário falando sobre como eu amo Sam Jones. Então esses são meio que alguns dos meus heróis.

E, também, eu cresci na Era de Star Wars e, portanto, eu era um grande fã do Darth Vader. Não sei se quero dizer que Darth Vader é um herói, porque ele é um personagem sombrio, mas eu realmente gosto dele.

 

Você pôde perceber em algum momento o quanto as características do seu personagem representaram para uma geração de crianças, que puderam se inspirar no Billy para superar seus medos?

Eu ouço muito que muitas pessoas se identificam com o personagem Billy ou que elas realmente apreciaram o desenvolvimento do personagem, porque Billy os ajudou a superar seus medos. Então, obviamente, isso muito singelo para mim e é uma grande honra. O próprio Billy tinha muitas coisas que tinha que superar, ele tinha medo de peixe – eu não seu porque esse era um de seus maiores medos, mas ele superou. E, de novo, foi realmente ótimo ver a confiança de Billy se desenvolver e eu sei que, para muitas pessoas, assistir Billy desenvolver sua confiança as assegurou que elas também podem ser confiantes e sair pelo mundo e fazerem o que querem.

 

Power Rangers agora tem um universo expandido nos quadrinhos pela editora BOOM! Studios. Você chegou a ver algo? Qual a sensação de se ver representado numa história em quadrinhos?

Sim, obviamente eu amo o que o BOOM! Studios está fazendo em termos de quadrinhos de Power Rangers. Eles têm o Mighty Morphin Power Rangers e também o Go Go Power Rangers, e eles são baseados em todo o elenco original. Isso é realmente uma honra e diz muito sobre o elenco original, porque eu acho que a nossa temporada verdadeiramente tinha uma química ótima. Então é muito incrível que depois de todos esses anos estejam baseando os quadrinhos nisso. Eu acho que o BOOM! Studios fez um trabalho ótimo. Eles estão começando a tentar apresentar todos os personagens possíveis, o que eu acho que se torna exagerado para o leitor, mas, em geral, eu amo os quadrinhos. E é grandioso e tem sido um sucesso, então estou muito feliz.

 

Você se vê voltando a interpretar o Billy em uma participação especial futuramente?

Certamente há sempre uma chance. Já me pediram pelo menos 3 – se não 4 – vezes para voltar ao programa de TV. E eu dou sempre a mesma resposta: sou ator do sindicato nos EUA, sou parte da Screen Actors Guild e eu só posso trabalhar em empregos sindicais. E acho que isso é extremamente importante quando você dá sua palavra a seu sindicato, significa que você o apoia. Então, para mim, é realmente importante trabalhar apenas em empregos sindicais. Porque são eles que me protegem, me dão seguro saúde, me pagam salários justos, garantem que eu trabalhe apenas uma certa quantidade de horas, garantem que eu seja alimentado quando eu preciso ser alimentado e garantem que haja toda a segurança adequada e tudo no set. Essas são coisas das quais o sindicato garante que você esteja protegido. E, infelizmente, ainda filmam Power Rangers em um nível não sindical e, portanto, muitas dessas coisas não são colocadas em jogo.  E, por isso, simplesmente não faz sentido eu voltar e filmar nesse momento. Mas eu adoraria a oportunidade de filmar Power Rangers novamente se eles cumprissem um contrato da SAG. Eu estaria lá em um piscar de olhos. Mas, como eu continuo dizendo à Hasbro, acho que seria inteligente se eles fizessem uma série limitada na Netflix com base nos personagens originais, algo como 7 episódios, que meio que vão contar a história de onde nossos personagens estão agora no mundo, o que eles estão fazendo e como suas vidas se cruzam. E, obviamente, prestaria homenagem e tributo a Thuy Trang, que interpretava a Ranger Amarela. Então, espero que a Hasbro ouça e faça isso. E nós poderíamos filmar essa série sob as diretrizes do sindicato.

 

Uma mensagem para os fãs brasileiros:

Olá seguidores do JBox e fãs de Power Rangers. Obrigado, do fundo do meu coração. Muito obrigado. Significa o mundo pra mim que vocês são fãs de Power Rangers e que vocês apoiaram a franquia todos esses anos e que nos mantêm vivos – como se diz. Então, obrigado e espero que, se eu não tiver encontrado você na vida real, algum dia em uma Comic-Con no Brasil ou em algum outro lugar do mundo, eu o conheça e que eu possa apertar sua mão e dizer obrigado, para que você saiba o quanto eu realmente amo você. Então, muito obrigado JBox.


Roteiro: César Filho e Rafael Brito | Reportagem: Adriano Almeida e Heitor Lemos |  Tradução: Júlia Vasconcelos | Edição final: Rafael Brito

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