Crítica: Beastars – O Lobo Bom

Novo animê da Netflix é um deleite visual, mas desenvolvimento desaponta por não fechar nenhuma das questões levantadas.

Seguindo os investimentos em animações japonesas para preencher seu catálogo, a Netflix apresentou ao mundo neste mês (bem depois do Japão, que teve a estreia da produção em outubro de 2019) a adaptação de um dos mais celebrados mangás shounen dos últimos anos: Beastars – que recebeu o questionável subtítulo de “O Lobo Bom” no Brasil. 

Publicado originalmente nas páginas da revista japonesa Shonen Champion (da editora Akita Shoten) desde 2016, Beastars é a primeira obra da introvertida autora Paru Itagaki, filha de Keisuke Itagaki, criador do mangá Grappler Baki – que teve um OVA lançado no Brasil na década de 1990 em VHS com o título de O Último Combate e possui uma nova série disponível exclusivamente também pela Netflix.

Foto: Jordi Cotrina/elPeriódico | Reprodução

Destaque da edição 2018 do evento Salón del Mangá de Barcelona, Paru surpreendeu grande parte do público ao apresentar-se com uma máscara de galinha. Quando questionada sobre o motivo, a autora se posiciona com a seguinte opinião: “Pessoalmente, acho que a aparência pública dos autores não contribui com nada de positivo. Os mangakás e, acima de tudo, AS mangakás, não têm vantagem como criadores se mostrarem o rosto e derem uma imagem real ”.

Sobre o motivo pelo qual utiliza uma cabeça de galinha (referenciada em um dos episódios da série diga-se de passagem), a autora diz: A galinha é um dos personagens que aparecem no terceiro volume (do mangá) de Beastars e é muito popular entre o público. Então, se eu uso essa máscara, não só escondo meu rosto, mas também consigo não romper com o universo que criei.

Peculiaridades da autora à parte, o trabalho poderia passar como mais um entre tantos mangás shounen, não fosse o antropomorfismo de todos os personagens da trama. Tal como o sucesso dos estúdios Disney – Zootopia (2016) – o universo de Beastars nos lança em um cenário que me provocou uma certa estranheza em um primeiro momento, já que o traço dos personagens é assustadoramente humano – diferente da pegada mais cartunesca que estava acostumado via universo Disney ao longo de anos.

Animado completamente em 3D pelo estúdio Orange, a qualidade técnica dos episódios engana em diversos momentos o cérebro e a sensação que estamos assistindo a um animê convencional em 2D é bastante presente.  Pode-se até estourar uma champanhe aqui já que pela primeira vez não me irrito com um “animê em 3D” – coisa que já me desestimulou a assistir muitas produções. 


O esforço de transpor com fidelidade o traço da autora, dando certa consistência ao estilo mais livre das curvas dos desenhos vistos no mangá, é outro mérito do estúdio que conseguiu reproduzir até os “movimentos de câmera” vistos nos quadrinhos. E nem vou falar na magistral abertura – realizada com animação stop motion – que encanta os olhos e desperta uma estranha sensação de que um animê do calibre de Cowboy Bebop estava prestes a começar.

Nota: A sensação é real visto que tanto a abertura de Cowboy Bebop como a de Beastars são de um sub-estilo do jazz chamado hard bop. A cadência de ambas é bem parecida por sinal. A música se chama “Wild side“, e é uma composição do grupo multiétnico ALI, que estudou o mangá para tentar traduzir sua atmosfera no ritmo.


Herbívoros x Carnívoros

Reprodução/Netflix


No mundo de Beastars há uma sociedade de raças bem polarizada tentando conviver em harmonia. De um lado os herbívoros e de outros os carnívoros – que tiveram que conter seus instintos em prol da tal harmonia. O palco da trama em um primeiro momento é o colégio Cherryton School, e se abre com um evento sinistro: o assassinato brutal de um estudante por um carnívoro.

A partir daí vamos sendo apresentados aos personagens da trama, que em algum momento é deixada de lado para focar no lobo cinzento Legoshi (o protagonista) e na coelhinha Haru. Paralelo a uma quantidade sem fim de questionamentos do inseguro “rapaz” (que em alguns momentos lembra o Shinji de Evangelion, até por terem o mesmo dublador no Brasil), descobrimos que existe um tal prêmio Beastars, dado ao animal mais “exemplar” da sociedade – como se fosse um influenciador de respeito para aquele mundo.

Reprodução/Netflix



Por se tratar de uma história centrada em jovens, todos os dramas e conflitos típicos dessa fase são explorados com um adicional do fator de “escala da natureza” permeando a atmosfera. Afinal, os hormônios  estão a flor da pele… Que nos diga os do pobre Legoshi!

Temas como bullying, virgindade, drogas, interseccionalidade de gênero e até tráfico de pessoas/animais (!) são situações apresentados com um tom crítico que, dependendo do espectador, pode provocar reflexões em diversas escalas.

As subtramas que o animê vai salpicando nos levam a um clímax um pouco forçado que vai se desenrolando com leveza e humor, que me deixou frustrado com diversas pontas soltas não respondidas da história. Os 13 primeiros episódios lançam apenas uma grande apresentação dos personagens, focando nos conflitos e dramas de alguns, e faz você esperar ansiosamente pela segunda temporada – confirmada para 2021, graças à ótima recepção do público e crítica ao material apresentado.

Em tempo: o mangá no Brasil é publicado pela Editora Panini e a partir do volume 7 você verá a continuação da trama do animê. A mesma Panini traz na discrição do volume 6 em seu website um ótima definição para Beastars: Um drama humano sobre a juventude – em versão animal.