Crítica | Transformers: War for Cybertron Trilogy – O Cerco

Com uma história cativante, o novo animê de Transfomers mostra que a franquia tem mais a oferecer do que as “ideias Michael Bay”.

Histórias maduras de guerra e suas vítimas. Robôs com complexidades morais e emocionais. Nenhum humano chato ocupando espaço de tela. Isso tudo são coisas que os fãs de Transformers vem dizendo que querem de uma nova produção da franquia dos robôs disfarçados há anos. E, com o animê original da Netflix Transformers: The War for Cybertron Trilogy: O Cerco (como assim, “isso não é animê”? Cê viu o tamanho desse título?), a Hasbro tenta dar ao seu público mais leal a história de Transformers dos seus sonhos. Mas mesmo com boas intenções, e até bons resultados, a série não consegue evitar algumas armadilhas típicas de rebootar uma franquia com décadas de história.  

Nos 35 anos de existência de Transformers, já houve diversas versões dos conflitos Autobot versus Decepticon em todas as mídias imagináveis. Desde 1996 não houve um ano sem um filme ou série animada da franquia, e desde que o título se tornou um sucesso mundial com os filmes do Michael Bay, os Transformers são uma presença fixa na cultura pop, mesmo com a reputação não muito boa em relação à qualidade. A equipe da Hasbro, Rooster Teeth e Polygon Pictures pareciam estar cientes disso, pois a nova série não se preocupa tanto em apresentar o mundo de Transformers. Ao invés disso, o objetivo parece ser mostrar que tipo de história Transformers pode contar. Com essa meta, nada melhor que a Guerra de Cybertron como ambientação.

Esse período da história de Transformers é um favorito entre os fãs. Mostrando o início do conflito que dizimou Cybertron e forçou as duas facções de Transformers a ir para a Terra. Essa era é mais propícia para as histórias “adultas”, com mais desenvolvimento de personagem e que pode contar a trama dos robôs sem que se tenha que ceder espaço para problemas amorosos de um adolescente humano. Esse período se limitou a flashbacks por muito tempo, mas na última década foi tema de histórias em quadrinhos, dois videogames muito populares e uma sequência muito elogiada no filme Bumblebee. Mas nunca antes tinha sido o foco principal de uma série inteira.

Em Transformers: O Cerco, vemos os dias finais em uma Cybertron devastada pela guerra. Os Decepticons patrulham as ruas, executando impiedosamente qualquer um que tente se opor a eles. Os Autobots, liderados por Optimus Prime, estão cada vez com menos recursos e soldados para continuar lutando, e sobrevivem coletando pequenas quantidades de energon (o combustível dos Cybertronianos), na esperança de abastecer uma nave para fugir do seu planeta condenado. Em meio a esse cenário, ambos os lados começam a duvidar dos seus líderes, e a situação só piora quando Megatron planeja usar o Allspark, fonte de vida de todos os Transformers, para “reformatar” os Autobots, tornando-os Decepticons leais a ele.

A sinopse não foge muito da tradição de Transformers, mas o animê consegue se diferenciar do resto da franquia. A ambientação do planeta desolado, cheio de prédios arruinados e carcaças robóticas, indicando uma época melhor, quando tudo isso era vivo e próspero. O que não significa que a estética seja genérica ou sem graça. Se os ambientes tem paleta de cores dessaturadas, é pra ajudar a ressaltar os poucos sinais de vida, seja um Transformer em modo veículo navegando pelas estradas, ou uns raros brilhos de energon conseguindo surgir em meio à desolação.

Mas o verdadeiro brilho de Transformers: O Cerco é no seu roteiro e interações de personagens. Em seis episódios de 20 minutos, que fluem como um longa-metragem, os textos de F.J. Desanto, George Krstic, Gavin Highnight e Brandon Easton contam de forma eficaz a história dos momento finais de uma guerra. Já se passou o tempo de batalhas gloriosas (vamos discutir isso mais tarde, aliás) e agora o confronto é um jogo de gato e rato entre Autobots e Decepticons. A série abre mão do maniqueísmo de desenho dos anos 1980 e aprofunda ambos os lados do conflito. Megatron e Optimus Prime são retratados como amigos que entraram em desacordo por motivos nobres, mas que deixaram uma guerra sair do controle por serem orgulhosos demais para assumirem os erros que cometeram. O Megatron pela sua sede de poder e o Optimus por ignorar o povo que deveria liderar. Outros personagens como Bumblebee, Ratchet, Jetfire e principalmente Elita-1 ganham destaque, cada um lidando de forma diferente com a realidade da guerra, e questionando por que lutam (ou NÃO lutam). Não chega a ter a profundidade de um bom Gundam da vida, mas é um bom início.

Mas às vezes o roteiro pode ser econômico até demais. Pela história se passar durante um período curto de tempo, não há muita sobra para elaborar alguns eventos ou relações de personagens que são mencionados. Referências à Matriz da Liderança ou às origens dos Decepticons como uma revolta operária são um pequeno deleite para fãs como eu, que devorei os quadrinhos da IDW, mas não vão significar muita coisa pra um leigo total. Isso é um problema de acessibilidade que o reboot de She-Ra, por exemplo, não tem, por ser uma série de cinco temporadas. A trilogia War for Cybertron terá um total de 18 episódios quando finalizada, e daqui pra frente a equipe criativa vai precisar saber escolher melhor o que precisa ser contado e o que precisa ser mostrado, senão corre o perigo de só ser atrativo para os que já são convertidos.

Outra coisa que pode afastar tanto fãs quanto novatos é a animação. A série é em CG, técnica predominante da franquia desde Beast Wars em 1996, mas com uma peculiaridade: a maioria dos Transformers  tem o modelo de animação idêntico aos bonecos. Obviamente é uma jogada de marketing para a Hasbro poder promover seus produtos de forma eficaz, mas também resolve o problema que alguns se queixam de que os bonecos não são fiéis ao visual do desenho. E mesmo sendo bons designs para figuras inanimadas, para personagens que andam, lutam e expressam emoções acaba sendo bem limitador, parecendo bonecos que andam e não robôs vivos. Certos detalhes, como o fato de que quase nenhum Transformer se TRANSFORMA, e muitas vezes as sequências de transformação são ocultadas por fumaça, ou só acontecem fora de quadro mesmo, os rostos são pouco expressivos ou que todos os figurantes tem os mesmos três modelos de robô com cores diferentes, mostram que a produção do desenho estava tão apertada de recursos quanto os Autobots estão de energon. As lutas são AS que mais sofrem, já que a fidelidade aos brinquedos deixa o movimento dos robôs travado e lerdo, resultando em cenas de ação pouco memoráveis. O que realmente é uma pena, já que o estúdio de animação responsável, o japonês Polygon Pictures, já tem experiência com a série nas animações Transformers Prime e Robots in Disguise, e em ambas compôs algumas das melhores cenas de ação da franquia, utilizando movimentos de câmera e edição dinâmicos para realçar a ação dos personagens. Do jeito que tá, até a equipe de RWBY da Rooster Teeth faz cenas melhores.

O áudio da série deixa a desejar. A música de Alexander Borsntein é competente, mas não se destaca. A mixagem às vezes dificulta ouvir as vozes dos personagens. Quanto ao elenco, nenhuma das vozes originais clássicas retorna, mas os novatos Jake Foushee e Jason Marnocha fazem jus aos personagens. A dublagem brasileira traz de volta Guilherme Briggs como Optimus e Guilherme Lopes como Megatron, dois atores com histórico nos personagens, mas nem por isso se prende a escalações anteriores, o que às vezes é um preciosismo que mais atrapalha do que ajuda. A dublagem japonesa (para nós 3 que vemos Transformers em japonês) é recheada de vozes clássicas de vários momentos da franquia, e felizmente não sofre a “4Kidsação” que Transformers é sujeitado no Japão. Em todas as versões a interpretação é mais “pé no chão”, sem muitos exageros, para manter o tom realista, com a exceção de Starscream, cuja voz estridente e atitude exagerada é fabulosa em qualquer versão.

Mas eu me pergunto até que ponto essa dedicação a um tom soturno e sério ajuda a série. Tudo que eu mais quero como fã de Transformers é alguma coisa que eu possa introduzir para um leigo pra provar que a franquia é mais do que só as pirações egomaníacas do Michael Bay. E se você está procurando um desenho de Transformers mais focado no desenvolvimento e conflitos interpessoais (intertransformais?) dos personagens, essa série é pra você. Mas muitas pessoas associam Transformers a suas cenas de ação, ou seus personagens caricatos, e é uma coisa que faz falta. Ter uma cena de ação da hora que dá pra por em AMV e convencer alguém a dar uma chance e, quiçá, se interessar na história. Os super fãs como eu já vão assistir qualquer coisa que sair dessa franquia e ainda comprar os bonecos, então o que que custa deixar um pouquinho mais atrativo para um público mais amplo? 

O Cerco é um primeiro capítulo com problemas, mas promissor. Tomara que os próximos, Earthrise e Kingdom possam resolver esses problemas e trazer uma história ainda melhor. Ou pelo menos dar um modo veículo pra todo mundo.

Publicidade
close