Crítica | Minhas férias no ‘Japão Submerso’

Nadando no tsunami simbólico de Masaaki Yuasa e tentando não me afogar.

Masaaki Yuasa, célebre diretor de animês japonês, conhecido por Ping Pong (2014), Tatami Galaxy (2010), Eizouken (2020) e principalmente pela adaptação do mangá de Go Nagai: Devilman Crybaby (lançado também como original da Netflix em 2018), aparece neste caótico 2020 com outra adaptação, desta vez de um romance bestseller de mesmo título, Japan Sinks, do autor japonês Sakyo Komatsu, lançado em 1973, mas reimaginando a trama no ano de 2020. A história é sobre o Japão afundar por causa de terremotos de altíssima intensidade e a forma como uma família vai se virando para tentar sobreviver. A premissa parece bem simples e a recepção do público aparentemente não foi das melhores, mas se a gente der uma cavocada nessa terra quem sabe podemos achar um aipim ou uma bomba.


ATENÇÃO: O texto abaixo contém spoilers da série.

Como eu disse anteriormente, pegando o grosso do animê, aquilo que salta aos olhos, o beabá de 2020 – Japão Submerso, é muito simples e linear: terremotos intensos, tudo começa a desmoronar e as pessoas tentam se orientar no meio desse cenário distópico. Existe aí uma correlação auto-evidente com o medo da repetição e intensificação dos desastres naturais que atingem a ilha nipônica e a representação do comportamento do “povo japonês”, numa espécie de paralelo entre o nacionalismo protecionista “antigo” e os valores cosmopolitas “modernos”. Entretanto, como já apontado por algumas críticas (como a do Observer), esse conflito histórico-político é desenvolvido de forma muito pobre ao longo dos episódios.

Os 10 episódios de 23 minutos não dão conta de estabelecer uma narrativa coesa, e ao mesmo tempo profunda, no sentido de conseguir desenvolver características específicas dos personagens paralelamente de um aprofundamento nesse conflito de gerações. Existem, sim, alguns elementos que conversam com a temática da nostalgia, como as narrações que se revelam no fim serem flashbacks, as próprias fotos analógicas e digitais, o antagonismo do estrangeiro e o nativo. Mas isso tudo parece muito pouco quando olhamos o que está acontecendo, o Japão inteiro afundando, e o que está sendo retratado, mortes brutais ilustradas de formas extremamente cruéis.

O texto de Japão Submerso nesse sentido específico não serviria nem para a introdução de uma discussão mais nuançada sobre o ambiente sócio-político japonês, dando para a mensagem final de otimismo, determinação e esperança, um tom até irônico, se não cínico. Entretanto, não acho que essa forma de ver Japão Submerso dê conta daquilo que faz acontecer a narrativa desse animê. E aqui começa a minha análise um pouco mirabolante, mas que eu vou tentar expor para vocês da forma mais clara possível.

Vamos começar pelo começo: A primeira impressão de Japão Submerso, a abertura, mostra cenas de um cotidiano ordinário, bucólico, com chás, animais e plantas, gente acordando e seguindo a rotina ilustrada numa técnica digital que imita a aquarela, com cores pastéis quase etéreas, dando a impressão de estarmos olhando para um sonho, impressão essa intensificada ainda mais pelo tema de abertura “A Life“, uma linda composição de Taeko Onuki & Ryuichi Sakamoto, apenas piano e voz, bem melancólica, com letra conversando diretamente com os aspectos visuais que falei anteriormente, em resumo uma fofura. Só que essa abertura linda está acoplada a um animê que não apenas fala sobre a morte de milhões de pessoas e a destruição de um país inteiro, mas também tem uma quantia enorme de cenas de uma brutalidade perturbadora. Ou seja, essa ambivalência de sentido já começa desde o primeiro momento da série, o que me faz pensar ter sim um propósito.

Já no primeiro episódio, seguindo esse caminho da ambivalência e contraste, destaco três aspectos que acompanham o animê inteiro: o primeiro é mais pontual e serve como nó, o segundo e terceiro são chaves estéticas, servindo como base para entender a estrutura formal da narrativa.

O primeiro aspecto é a tela que está sendo construída na primeira cena pelo pai de Ayumu (só guardem isso na memória); o segundo é a corrida e a Ayumu. Ela é a líder do revezamento, uma modalidade de grupo, a treinadora confia nela e já no primeiro grande tremor ela machuca gravemente a canela. Logo após isso, no vestiário, quando acontece o primeiro grande tremor e tudo desaba, Ayumu sai correndo do lugar sem nem tentar ajudar a amiga, que pedia ajuda debaixo dos destroços. Após isso, apesar da cena chorando e se culpando, essas amigas são basicamente esquecidas por ela e pela própria treinadora, que parecia super tranquila e pensando já nos próximos treinos da Ayumu na fila do navio para a evacuação, fazendo esse ser o terceiro aspecto: uma espécie de amnésia que acompanha os personagens na série inteira. A partir dessas três chaves, apresentadas já no primeiro momento, as coisas vão se desenvolvendo em um padrão.

A trilha sonora doce e tranquilizante nas cenas de completa destruição e caos, e o semblante sempre tranquilo da família da Ayumu. É como se eles estivessem contemplando uma realidade distante, alheia a eles mesmos e à própria situação, quase como se soubessem ser personagens de uma ficção diante de uma imagem, enquanto as mortes brutais só pioram e espiralam em situações cada vez mais surreais e violentas, seguidas de uma completa mudança de clima totalmente brusca de terror para tranquilidade. Não me entendam mal, ocorre sim uma reação imediata, de susto, nojo, choro, etc, mas tudo isso é suprimido rapidamente, tanto pelos personagens, quanto pelo próprio clima visual e sonoro. Gente caindo do céu morta, o pai da Ayumu explodindo, Nanami morrendo sufocada por gás tóxico e por aí vai, todo episódio uma nova tragédia do tipo acontece, sempre sendo suplantada, seja pelo esquecimento, por algum fato que anima as pessoas ou por um tipo esperança/força de vontade/otimismo hipnotizante.

Esse padrão é quebrado quando o grupo de personagens chega à Shan City, e esse momento é extremamente simbólico. Ali ocorre uma profunda catarse coletiva: Ayumu e a mãe choram e manifestam algum tipo de luto pela primeira vez; Haruo chora lembrando da mãe; Ayumu chora lembrando de Nanami; Go quer saber o que o pai tinha a dizer; e Kunio delira sobre a neta que perdeu. Essa expressão de sentimento coletiva evidencia duas coisas principais: mostra a intencionalidade de falta de sentimentos mais intensos anteriormente, ou seja, aquela calma desproporcional, foi quebrada pelo lugar. Será que isso ocorreu porque Shan City era uma cidade perfeita, um tipo de utopia? Não, como bem foi mostrado pela tentativa de estupro sofrida por Ayumu, servindo de paralelo à primeira tentativa sofrida por Nanami, demonstrando ser um problema existente em ambos os lugares; as pessoas tentando roubar o cofre antes de tudo desmoronar; a galera querendo atirar no carro usado pelo grupo principal para ir embora, etc. Mas então por que, mesmo existindo essa podridão entre os habitantes, foi apenas lá que ocorreu essa liberação? Porque mesmo com essas falhas, seguindo a ideia que o cozinheiro expôs na cena na qual todos desabam dentro do templo, em Shan City as pessoas sentiam ser realmente importantes. Existia um sentimento de pertencimento coletivo.

Depois de outro terremoto fazer desabar Shan City, como o cientista previu, o grupo vai embora e o ciclo é retomado: o navio de resgate afunda, o velho que resgatou o grupo, posteriormente forçado a dividir-se, morre numa cena perturbadora; Mari morre, Haruo morre também de um jeito horroroso, e então o bizarro último episódio destoa completamente do estilo narrativo até então elaborado, quase como se não fizesse parte da mesma história. Depois de Ayumu receber a notícia que vai ter a perna amputada, assiste ao vídeo de aniversário gravado ainda quando todos estavam vivos e chora – essa cena é muito importante porque quando as lágrimas caem na tela, a perspectiva muda completamente e é como se as gotas tivessem caído na nossa tela, no display onde a gente está assistindo ao animê.

Após isso, tudo começa a ser narrado como se fosse uma grande propaganda japonesa das memórias, fotos e vídeos das pessoas registradas na nuvem, tanto da família da Ayumu, quanto de outros vários personagens que morreram ao longo da trama. Encerrando com a Ayumu fazendo uma prova individual nas Paraolimpíadas, o salto em distância, Go participando de um campeonato de e-Sports e o cientista sentado numa cadeira high tech administrando o canal do Kaito.

Exposto isso, posso propor alguns caminhos interpretativos. O primeiro, já criticado anteriormente, usaria tudo para reafirmar que Japão Submerso é um animê sobre a força de superação do povo japonês, uma determinação e garra que consegue lutar mesmo nos momentos mais absurdos e trágicos, dando a volta por cima e dando um salto para o futuro. Acho até bem fácil fazer essas ligações, não acredito ser difícil engolir essa versão.

Por outro lado, e é isso o que eu realmente quero propor, o animê pode ser lido como uma grande ironia a essa ideia. A tela, ligada a diversas partes da história com várias dimensões da representação que servem como pistas para o aspecto simbólico da mediação (as fotos analógicas, as telas eletrônicas, o livro que a Ayumu escreve, a narração, etc): assistir a algo é estar alheio a essa realidade. Toda a apatia dos personagens e incongruência estrutural agora têm um papel fundamental em compor esse ambiente de alheamento, ou seja, aquilo tudo que se assiste tem um efeito em quem assiste, mas de forma superficial, momentânea e enquadrada de uma maneira incapaz de compreender a realidade. As mortes nos noticiários, as tragédias e até mesmo fatos históricos, talvez a metáfora de Japão Submerso provoque justamente uma compreensão de que tudo isso é mediatizado e modelado numa espécie de espetáculo nostálgico, higienizado e disposto como um tipo de motivador para continuar “a corrida”.

E dialeticamente a esse alheamento imagético, ocorre também um isolamento social, demarcando dois registros desse fenômeno, o primeiro poderíamos chamar de simbólico, da memória, e o outro de concreto, das relações sociais, onde um alimenta o outro reciprocamente a partir dessa memória mediatizada. Ayumu era líder de uma equipe e no fim do animê corre sozinha em uma outra modalidade. É essa decomposição do coletivo que é explicitada como causa e efeito dessa contemplação catatônica, a medida que não nos sentimos realmente parte de uma sociedade onde existe uma mutualidade, e a certeza da nossa importância, como apresentada em Shan City, a memória fica esvaziada, sem o elo para uni-la à realidade, tornando-a apenas um outro elemento de um espetáculo acrítico, sem capacidade de mudar o presente. Viramos espectadores de vidas – em última instância, essas vidas nem nossas mais são, como colocado no último episódio. Japão afunda, milhões morrem e quando ressurge, tudo volta ao normal. O mesmo espírito, o mesmo modo de ser e o mesmo projeto civilizatório.

Deixei de lado outras nuances interessantes do animê, mas acredito que essa interpretação, mesmo correndo o risco de ser esdrúxula, apresenta a possibilidade de novas formas de compreender a essa obra de Masaaki Yuasa.


2020 – Japão Submerso estreou mundialmente pela Netflix em 9 de julho. Todos os 10 episódios estão disponíveis exclusivamente pela plataforma, com opção de áudio original e também dublagem em português. Acesse a página da série aqui.

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