Crítica | Rent-A-Girlfriend – 1ª Temporada: Ah, o amor custa caro!

A promessa de amor por meio de uma pequena… transação comercial.

Pagar garotas para representarem o papel de namoradas durante um período de tempo. Rent-A-Girlfriend (Kanojo, Okarishimasu) apresenta essa possibilidade por meio de um aplicativo operado por uma agência que promete uma experiência única para os “virjões”: a chance de, pelo menos até onde o dinheiro do cliente possa pagar, andar de mãos dadas, respirar o mesmo ar, sorrir e até mesmo flertar com uma garota de beleza padrão comercial (cintura fina, seios fartos, pálida, magra, graciosa, etc), já que, evidentemente, garotas com esse tipo de beleza, jamais se interessariam amorosamente por… virgens?

Reprodução/Crunchyroll

Kinoshita Kazuya é um jovem adulto que nunca teve muita sorte com as garotas e aos seus vinte anos de idade, na faculdade, as coisas finalmente parecem querer dar certo: ele consegue uma namorada que preenche todas as normas de beleza! Entretanto, como tudo o que é bom, dura pouco, ela logo dá um pé na bunda dele.

Frustrado, amargurado, consternado e resignado, Kazuya não sabe o que fazer para suportar a dor. Cansado de lidar com seus próprios sentimentos, prefere então ir ao psicólogo procurar ajuda profissional. Brincadeira! Claro que ele não faria isso, ao invés, ele contrata um serviço de aluguel de namoradas, pois o que precisa para curar a dor do término é uma namorada de mentira.

Logo de cara essa experiência desagrada Kazuya, pois ele percebe que na verdade não precisa de uma namorada, e sim de uma psicóloga, reagindo então a essa situação como quem é traído. No meio do agradável passeio com Ichinose Chizuru, a amante profissional, Kazuya irrompe com alegações acusatórias, onde ele clama que essa situação é um vexame. Onde já se viu, alguém fingindo que gosta de outra pessoa por dinheiro!

Então em réplica tão pungente quanto a acusação, Ichinose ataca o protagonista com fatos: ele leu os termos de contrato (ninguém lê), logo ele deveria saber que o serviço envolvia apenas fingimento, nenhuma verdade estava discriminada na nota fiscal.

Para a sorte de Kazuya, porém, no meio da arguição, ele recebe uma ligação que o deixa de cabelo em pé: Sua vó tinha sido internada no hospital. Imediatamente diz para sua, no momento, oponente, que iria ao hospital imediatamente pela razão já destacada e, por conta do alto nível de profissionalismo de Chizuru, esta decide acompanhá-lo, pois ainda estava vigente o período de tempo contratado do serviço.

No hospital, o casal se encontra em sérios apuros: a família de Kazuya, em especial a sua vó que estava no leito do hospital, fica completamente maravilhada pelo fato de que o rapaz, até então tachado como um incompetente amoroso graças a suas habilidades risíveis na arte da conquista, faz agora parte de um relacionamento com uma garota com os atributos genéticos mais desejados nas passarelas e outdoors.

Nosso protagonista é colocado então numa posição extremamente delicada. Se revelasse a verdade, talvez matasse sua vó, já fragilizada, de desgosto e nunca mais poderia encarar a sua família. Mas, ao manter essa mentira deslavada, as consequências poderiam ser catastróficas para o seu bolso, já que o aluguel no fim das contas não é barato!

A escolha é feita, a falsidade mantida, e a história de amor profissional entre Kazuya e Chizuru se inicia, arrecadando no meio do caminho, os 12 episódios da primeira temporada, confusões, mentiras, traições, intrigas e sentimentos em convulsão.

Convido-lhes a mergulhar nesse mar de rosas para sentir o aroma doce da paixão e ser cutucado pelos espinhos pontiagudos da imoralidade. Quem nunca, num momento de solidão, foi comandado por sua libido a efetuar as mais nefastas ações, as mais temíveis e irretratáveis vergonhas e situações que permanecerão para sempre na nossa memória como algo a nunca ser repetido? Quem não tem teto de vidro que atire a primeira pedra.

Ah! Entretanto, acredito que exista uma diferença entre instalar o Tinder e colocar na bio algo como “Amante de bons vinhos e boas conversas”, reagir com um emoticon de fogo na foto daquela pessoa desejada, mandar uma mensagem no WhatsApp com a frase “oi, sumido…”; e o ato de contratar um serviço de acompanhantes.

 

O fingimento

A primeira diferença fundamental é o fingimento. Não que as pessoas não finjam certas emoções em relacionamentos “reais” ou coisa do gênero, até nas próprias interações do dia a dia, não apenas em benefício próprio direto, mas talvez também simplesmente para evitar situações desconfortáveis. As pessoas enganam as outras com até certa naturalidade.

O fingimento mais frequente relacionado ao amor é aquele aparece em Rent-a-Girlfriend em diversas ocasiões: o fingir sentir nada. Porque manifestar o sentimento é expor necessariamente uma vulnerabilidade. É se colocar de certa forma em perigo, porque tudo o que vem depois da elaboração pública, é conjunto e coletivo, não existe mais apenas o “meu sentimento”, mas sim um sentido coletivo que pode acabar tão bem quanto mal para as pessoas envolvidas.

As relações entre pessoas são processos de elaboração mútua e contingente de profunda tensão. A amizade é um processo de construção onde as pessoas envolvidas são alteradas mutuamente no desenvolvimento da intimidade. Conhecer alguém não é apenas conhecer fatos de uma determinada pessoa, mas viver experiências conjuntas.

O fingimento é um dos fatores que influenciam essas experiências, mas na melhor das hipóteses, é um elemento apenas relativo, que se esconde e se desvela no próprio movimento das interações. Entretanto, quando esse fingimento é deliberado, no estilo você finge que me ama e eu finjo que acredito, qual é o ponto da relação?

Em Rent-a-Girlfriend, a justificativa que envolve o aluguel é de que quem aluga está emocionalmente fragilizado e precisa de alguém para aumentar o astral da pessoa, sendo positiva e encorajando seus interesses. Mas, por que necessariamente precisa ser uma namorada? E por que essa namorada precisa ser uma modelo? Dica: é porque não tem nada a ver com “recuperação emocional”! Quem quer um ombro para despejar lágrimas e frustrações geralmente não está tão interessado com formas anatômicas, mas sim com a possibilidade de compreensão e consolo.

 

Eu sou o gostosão

Kazuya, mesmo estando enredado em uma trama de inverdades e aflições, parece aproveitar bastante o fato de poder dizer que está namorando e, além disso, estar namorando especificamente Chizuru. Claro que o animê deixa em evidência as situações embaraçosas e os dilemas internos de um jovem que, no fim das contas, quer uma namorada de verdade, a princípio reatar com a sua ex-namorada, Nanami Mami, para poder finalmente transar e exterminar de uma vez por todas esse estigma da virgindade.

Esse prazer pela exposição da namorada como troféu ocorre curiosamente não apenas com o virgem desesperado em questão, mas também com outro personagem, Kobayashi Shun, um amigo de Kazuya e participante do círculo social principal da história, que faz uso do mesmo aplicativo para alugar a jovem e aparentemente menor de idade, Sarashima Ruka, para ser a sua companheira de faz de conta, colocando-o assim, no patamar dos homens desejáveis, panteão este já habitado por Kazuya, graças aos fatos relatados até o momento.

Reprodução/Crunchyroll

Kazuya sempre demonstra desprazer nesse sentido, o único objetivo manifesto de seu desejo de manter o namoro profissional com Chizuru, é o sentimento generoso de um neto preocupado com a vó que cada vez mais ama a sua nora. Ou seja, ele é uma pessoa com valores morais intocáveis, sua única falha é ter cedido a sua solidão e ter pensado nos outros ao invés de si próprio. O erro de Kazuya é seu enorme coração bondoso e altruísta! Enquanto Shun, por outro lado, quer mais é se exibir mesmo.

Mas outra coisa parece não encaixar aí: enquanto Shun é um personagem desenhado de um jeito… peculiar, nosso protagonista é desenhado de forma bem agradável. Claro, não chega aos pés de um bishonen de qualidade elevada, mas não há qualquer traço em Kazuya que o coloca visualmente em uma espécie de patamar estético “menor”. Por que então é tão difícil para ele conseguir uma namorada? Bom, provavelmente é porque ele só quer uma namorada se ela estiver saindo diretamente da passarela para os seus braços.

Não tem nada de errado em se apaixonar por uma modelo, antes que me interpretem mal. Mas se o que ele se importa mesmo são só atributos físicos, já que o que ele quer é sexo, por que então existe um diálogo tão extenso sobre um romantismo? Um diálogo que em nenhum momento se dissocia de uma espécie de potência sexual, onde o ápice da felicidade amorosa é se ver capaz de se satisfazer sexualmente com um tipo específico de corpo e poder expor esse feito publicamente?

 

O desejo

Descartes diz que a força que faz com que não sejamos apenas autômatos inertes é o nosso desejo, a capacidade de elaborar, arbitrar e ter vontades em oposição àquilo que percebemos e refletimos. Entretanto esse desejo, mesmo sendo universal, não necessariamente é compreensível e elaborável de forma distinta.

Quando achamos que sabemos o que desejamos, mas não sabemos, a busca pela satisfação desse desejo é cega e frustrante. Porém, mesmo quando “sabemos” o que desejamos, isso não quer dizer que a satisfação desse desejo seja algo possível, objetivo ou palpável. Mesmo os desejos mais simples, possuem um ruído virtualmente impossível de cristalizar. Os sentimentos são mutáveis e difusos.

Então quer dizer que nossa única opção é sofrer intermitentemente uma dor impossível de suportar e fingir que está tudo bem para que tudo se mantenha na normalidade? Não necessariamente. O que essa elaboração do desejo demonstra é apenas que, a ideia de desejo como algo fixo e possível de mensurar, objetificar e catalogar, é simplesmente absurda. Não existe um método científico para se satisfazer um desejo. Mas então por que é que essa ideia é tão comum e trivial?

De forma geral, uma mercadoria é um produto de um trabalho que se comercializa em um processo de benefício mútuo. Essa mercadoria é um bem material que pode ser replicado em uma produção em massa. Para que seja possível a replicação, faz-se óbvio que seja possível a definição específica das qualidades dessa mercadoria.

A padronização de seus atributos é fundamental para que seja possível veicular todas as etapas logísticas da dinâmica industrial. Desde produção, distribuição, publicidade e venda. É muito mais difícil vender algo que não se pode atribuir valores específicos, sejam eles materiais ou morais.

Um pacote de macarrão possui um valor de venda óbvio por ser um alimento, entretanto, mesmo esse item simples possui diversidades internas, já que os motivos daquele que compra o macarrão instantâneo mais barato, diverge daquele que compra o macarrão artesanal mais caro. Esses motivos variam em quantidade e qualidade, mas se elaboram geralmente sob um mesmo aspecto: o sabor. E isso pode ser replicado em todas as experiências “mercadológicas”.

Esses motivos que fazem as pessoas comprarem o que compram, não são produzidos apenas internamente num exercício etéreo de reflexão isolado de qualquer influência externa. Atribuir sentimentos e valores morais a experiências que, a princípio, seriam apenas sensoriais é um método comum da propaganda.

Essa dinâmica não apenas tem a capacidade de alterar a forma como os produtos se parecem para nós, mas também a forma como olhamos para os produtos. E, ao alterar a forma como lidamos com nossos desejos, essas elaborações instituem dinâmicas sociais complexas em si mesmas que atribuem características “válidas” para identificar o que é e o que não é amor.

Isso em si, talvez pareça inofensivo, mas como já argumentado anteriormente, o desejo é mutável e difuso, logo, quando se tenta restringir suas possibilidades e definir a sua abrangência, o que ocorre no fim das contas é uma espécie de mutilação da própria capacidade de desejar, e, necessariamente, uma mutilação da capacidade de viver. Aquilo que nos diferencia de autômatos se fragiliza em um ambiente que não suporta e desencoraja essa deformidade e multiplicidade.

O produto dessa operação é Rent-a-Girlfriend, uma tentativa de atribuir valores positivos a uma espécie de comercialização do amor. A possibilidade de higienizar a tensão da vulnerabilidade, da tentativa de expor sentimentos, ideias e do processo de construção de sentidos, é ofertado por um serviço previsível e replicável onde o desejo de amar é definido como uma massagem de ego e a possibilidade de ser validado socialmente como alguém capaz de possuir um tipo específico de corpo.

É claro que no próprio processo da interação comercial do aluguel de namorada, pode-se produzir resultados interessantes e construtivos, como ocorre quando Kazuya vai em um encontro com a tímida Sakurasawa Sumi, encorajando-a em sua luta contra a inibição social. Entretanto isso é uma exceção natural, da mesma forma como podem ocorrer coisas positivas em quaisquer outras situações detestáveis.

 

A primeira temporada de Rent-a-Girlfriend está disponível com legendas em português na Crunchyroll.

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