Imagem: Silhuetas verdes amarradas a uma corda andando em mato com árvores sem folhas.

Crítica | Memórias de um Freixo: O massacre que só a árvore viu (Conrad/manhwa)

Um dos maiores massacres da Coreia do Sul contado sob a perspectiva de uma simples árvore num vale.

Uma árvore. Uma espectadora imparcial, talvez. Memórias de um Freixo, a adaptação em quadrinhos de Kun-Woong Park do livro de Yong-Tak Choi, escolhe, assim como o original, um simples freixo do vale Ssarigol como protagonista e observador de parte do Massacre da Liga Bodo, uma das maiores chacinas da história contemporânea da Coreia do Sul, ordenada por ninguém menos que o então presidente Syngman Rhee durante a Guerra das Coreias (1950–).

Nós sabemos pouco sobre história coreana, isso é um fato. A região da Coreia talvez seja uma das áreas mais afetadas pelo militarismo japonês ao final do século XIX. O Japão oficialmente incorporou-a em seus territórios em 1910, mas o reino de Joseon (1392-1897), o antigo nome do Estado existente na região, já era extremamente dependente do Japão desde 1894, após os japoneses usurparem o palácio real e forçarem uma reforma governamental no país.

O Massacre da Liga Bodo ocorre depois do período de anexação pelos japoneses (1910-1945), mas não significa que não tenha qualquer relação com ele. Afinal, é o passado que monta o presente. Não que seja também “culpa dos japoneses”. Depois do fim da Guerra do Pacífico (1941-1945), a Ásia também sentiu a Guerra Fria (1947-1991).

Imagem: Rostos de coreanos em fundo preto.

Num cenário onde potências capitalistas, representadas principalmente pelos EUA e países do oeste europeu, e potências comunistas, simbolizadas principalmente pela URSS e China, viviam uma forte tensão enquanto o comunismo se espalhava, ameaçando a hegemonia capitalismo, causando diversas disputas regionais (geralmente financiadas por dinheiro vindo de fora), a Coreia novamente é palco de conflitos.

De forma resumida, a região foi dividida em Norte (comunista) e Sul (capitalista) e envolta em uma guerra, pois ambas as partes se reconhecem como “a legítima Coreia”. Essa guerra tecnicamente ainda não acabou, os países apenas entraram em estado de “cessar-fogo” a partir de 1953, com o Acordo de Armistício Coreano. Mas, teoricamente, ainda estão guerra.

É por esse motivo que vemos, por exemplo, a Coreia do Norte rotineiramente testar os mais diversos tipos de mísseis por ali (não que a Coreia do Sul também não faça testes militares). Não é só por esse motivo, certamente, mas esse é um dos pretextos.

Mas para que importa isso tudo? Bem, este é o contexto no qual se dá o Massacre da Liga Bodo – embora esta, certamente, não seja a melhor explicação deste contexto.

A Liga Bodo (Kogminbodoyeomyaeng) foi criada em 1949, aparentemente com apoio do próprio então (autoritário) presidente, com o intuito de “proteger e guiar aqueles “corrompidos” por ideologias de extrema-esquerda” e, claro, fazê-los mudar de visão.

Mesmo sem muito contexto sobre Syngman Rhee, dá para “pegar a ideia” ao vermos personagens gritando seu nome e “Viva a República da Coreia” no quadrinho, numa tentativa desesperada de convencer seus algozes militares de não serem comunistas ou nada do tipo.

Imagem: O presidente Syngman Rheeem traço do quadrinho.
Este é um desenho de Syngman Rhee.

Afinal, a Liga era uma organização com o objetivo de “dar uma chance” para que pessoas de esquerda virassem “à direita”. Acontece que pessoas que não tinham absolutamente nada a ver com a esquerda foram forçadas a participar dessa associação. Segundo reportagens, cidadãos aleatórios eram convocados para “preencher a cota de alistamento”.

Isso é brevemente mostrado logo no começo da história de Park e Choi, quando vemos dois irmãos conversando e um deles, associado à Liga, canta uma música da época da colonização japonesa. Provavelmente nenhum simpatizante comunista cantaria essa canção. Fica claro, mesmo para quem não entende bem o que se passa, que ele se afiliou “de penetra”. Assim como deve ter ocorrido com muitos gritando “Viva” desesperadamente.

A Liga Bodo foi inspirada na Yamatojuku, organização criada pelos japoneses durante a colonização/ocupação para “converter” inimigos ideológicos do Japão (socialistas e também pró-independência). Claro, o processo envolvia prendê-los para “educá-los”, ensinando-os (ou doutrinando-os com) valores imperialistas do Japão e lealdade ao imperador. Não por menos, a criação da Liga envolveu vários juristas que colaboraram com os japoneses.

Quando as Forças Armadas da Coreia do Norte invadem o sul em 25 junho de 1950, dando início à Guerra da Coreia, o presidente teria ordenado a execução de pessoas ligadas à Liga Bodo e ao Partido dos Trabalhadores da Coreia do Sul, com o primeiro massacre acontecendo já no dia 28, em Hoengseong, Gangwon-do. O número estimado de vítimas varia entre 60 mil e 200 mil, fora incontáveis famílias e amigos que perderam pessoas queridas da noite para o dia.

Este é o contexto de vermos personagens gritando também “Viva Il-Sung Kim”, o então líder da República Democrática da Coreia, antes de serem executados na trama. Havia, certamente, comunistas e simpatizantes alistados, assim como deviam haver outros ao redor do país, não-alistados. Assim também como existiram e existem comunistas em muitos países. Eles merecem morrer apenas por isso?

Com toda essa explicação, talvez venha a pergunta: todo esse histórico cabe dentro um quadrinho de 300 páginas? Talvez caiba. Mas não é a proposta. Essa não é uma história para ensinar, mas para refletir. A leitura dessa trama parece presumir que você sabe alguma coisa sobre a Liga Bodo, provavelmente por ser feita de coreanos para coreanos.

O contexto emerge das cenas, para quem já entende mais ou menos o que se passa. Por isso, a falta de maior contextualização mais clara pode deixar alguns frustrados.

Imagem: Quadrinhos pretos, ao final algumas pessoas mortas.

Por outro lado, não entender esse contexto não deixa nenhum leitor perdido. A violência é uma linguagem universal. Não precisa entender quem ou o porquê para se horrorizar com a chacina ou se desesperar com os familiares encontrando seus queridos entes agora mortos (eu não sei nem qual palavra descreve o sentimento) e toda a situação mostrada nas páginas de Memórias de um Freixo. Não é necessário contexto para entender que algo errado se passa e se conectar com isso.

O traço, pouco realista, de Kun-Woong Park contrasta com todo o absurdo da situação. De certa forma, lembra um pouco Maus nesse aspecto, sem também deixar nada a desejar na hora de mostrar o horror. No fim, não deixa de ser um espetáculo visual. Mas o mais interessante é o freixo.

Como um espectador não-humano, embora não alheio ao “mundo humano”, o freixo por vezes parece um narrador absurdamente frio frente à barbárie se passando diante de seus… galhos. É uma frieza que faz o estômago embrulhar ainda mais, mas, mesmo assim, é possível entender o ponto de vista. É possível se ver no lugar do freixo. Entender seus sentimentos… embora impossível sentir o mesmo.

O freixo parece um etnógrafo colocando-se numa posição neutra e, por isso, ele soa por vezes irônico, como aquele texto dos Ritos Corpóreos dos Nacirema. Ao mesmo tempo, uma árvore, ou outro ser daquele vale, seriam os únicos capazes de presenciar essa tragédia e ainda sair vivos para contar a história, até porque o governo sul-coreano passou décadas calando familiares e tentando esconder o massacre.

Isso também fica indicado na trama. Depois que famílias descobrem os mortos por ali, por vezes até reconhecendo seus parentes, ninguém mais vai ao vale. Os cadáveres ficam por lá abandonados. Soldados da Coreia do Norte até se deparam com a cena e com as pessoas horrorizadas, mas também não retornam. As verdades sobre aquele massacre ficam restritas à “meia dúzia” de moradores das redondezas e aparentemente à unica testemunha de toda a cena, o freixo.

Imagem: Folhas do freixo em fundo preto.

De certa forma, esse freixo é como um leitor desavisado. Ele também não sabe o que é a Liga Bodo, ou de onde ela vem. Nem a Guerra da Coreia. Muito menos entende a quem se referem os nomes “Syngman Rhee” ou “Il-Sung Kim”. Talvez nem sabia também o que é a ocupação japonesa, ou Joseon, ou qualquer coisa assim. E ele nos coloca junto com ele, presentes na cena. Por isso, não tem problema se não souber nada sobre a Liga Bodo.

Ao mesmo tempo que talvez não seja a melhor narrativa para entender o Massacre da Liga Bodo, Memórias de um Freixo é a melhor narrativa para entender o Massacre da Liga Bodo. Porque a dicotomia na verdade é dialética. Mas seu estômago provavelmente vai revirar.

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Esta resenha foi produzida com base no volume único de Memórias de um Freixo, cedido como material de divulgação para o JBox pela editora Conrad. O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site.

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