imagem: capas dos volumes 2 e 3 de Lanterna de Nix

Crítica | A Lanterna de Nix: Miyo e o Japão atravessam o mar | Volumes 2 e 3 (final)

Após início cativante, mangá de Kan Takahama entrega o que promete e se coloca no hall dos melhores lançamentos de 2021.

Em agosto do ano passado, encontrava-me perdidamente apaixonado pelo primeiro volume de A Lanterna de Nix, o último mangá de Kan Takahama publicado pela Pipoca & Nanquim em solo brasileiro. E não era pra menos: uma trama que insere personagens realmente envolventes num momento histórico decisivo como o final do século XIX, período que sempre me interessou por diversos motivos – atualmente, pesquiso o conflito causado pela modernização de países situados na periferia do capitalismo e sua representação nas obras de arte –, era praticamente impossível que não fosse fisgado.

Mas Nix entrega muito mais do que uma aula de história a respeito dos primeiros anos da Era Meiji e do glamour da Belle Époque. Apesar do imenso trabalho de pesquisa que se faz notar nos capítulos e nos interessantíssimos textos da seção “Armarinho da Takahama”, intercalados entre um capítulo e outro, a leitura passa longe de ser maçante.

Imagem: Cena do mangá com a protagonista olhando o mar de um porto (a cena é colorida).
Reprodução/Pipoca & Nanquim.

A verdade é que A Lanterna de Nix pode ser lido como uma fonte confiável a respeito de acontecimentos do período retratado. E, também, como a agradável trajetória pessoal de sua heroína, Miyo, cujo desenvolvimento se faz num ritmo justo, sem qualquer pressa ou demaseio.

No 2º volume, uma revelação importante é feita acerca de um dos principais traços da personagem: o dom da clarividência. Essa revelação, que envolve uma outra figura de muito relevo na obra, a famosa comerciante Kei Ohura (que inclusive existiu em vida), é fundamental para compreender os passos de Miyo ao longo da série.

Quando nos vemos diante desse plot twist, percebemos como a autora tem o domínio de sua obra e até mesmo certa autoridade sobre o leitor, que se vê sem pai nem mãe ao perceber-se enganado por conta do que havia considerado verosímil.

O conflito histórico mencionado, sobre o qual desenvolvo um pouco mais no texto anterior, não deixa de ser relevante no volume 2 – na verdade, mantém seu importante papel na dinâmica da narrativa, sendo o responsável direto pelo destino das personagens –, mas dá mais espaço para o desenrolar das jornadas particulares de cada personagem, bem como para o aprofundamento de suas relações.

Imagem: Cena do mangá com passagens com personagens fenotipicamente europeus.
Reprodução/Pipoca & Nanquim.

Nele, o entrecho amoroso que envolve Momotoshi e uma velha conhecida é enfim trazido à tona de forma mais clara. Novamente, os capítulos não perdem de vista a questão histórica, mas a parte ficcional se sobressai com relação ao primeiro tomo, assim a história de Momo e Judith ganha uma importância nova.

Em paralelo ao idílio do comerciante com a bela moça de cabelos loiros, há o estabelecimento da filial francesa da Vinght, em Paris, e os esforços de Momo e de seu amigo francês Victor produzem cenas muito confortáveis de slice of life. As discussões a respeito da arte japonesa constituem passagens valiosas, de diálogos repletos de informações enriquecedoras (e melhor desenvolvidas na mencionada seção dos “Armarinhos”). Os acontecimentos que envolvem o descobrimento de Momo sobre o potencial de comercialização de pinturas no estilo ukiyo-e são cercados de boas interações entre as personagens, configurando um dos momentos altos da trama.

Um parêntese negativo, talvez, é a presença tímida do tio de Miyo, artesão responsável pela manufatura das lacas de madrepérolas vendidas pela Vinght fora do Japão. O senhor Yamaguchi tem sua interessante figura pouco explorada nos dois volumes finais. Ganji, outro personagem que desperta interesse na leitura, até “protagoniza” um dos episódios do último volume, mas também não ganha muito destaque – o que não é necessariamente um problema, já que são personagens essencialmente secundários. Nesses casos, assumo ser mais uma “frustração” pessoal, não um déficit narrativo, já que ambos cumprem sua função suficientemente bem.

Mas falemos de Miyo. No volume 2, a garota já está bastante diferente daquela que conheceríamos nos capítulos iniciais, mas é no número final que a heroína mostra sua força, e sua evolução se torna visível em todos os aspectos. Os diálogos com Momo e Judith são marcantes, assim como as conversas e a troca de cartas com Minpei, personagem apresentado no segundo tomo. Miyo passa a agir como uma força motriz para as várias relações estabelecidas ao longo da história, o que é assinalado numa das falas de uma personagem importante que faz alusão ao título do mangá.

Imagem: Foto da capa do livro.
Foto: Rafael Brito.

Apesar de se apoiar em clichês típicos do gênero, as reflexões da protagonista são bastante orgânicas, de modo que se apresentam num crescendo, vão se intensificando a cada vez que surgem para mudar o rumo de alguma relação. É interessante notar que essas reflexões, aliás, se dão sempre nas trocas entre Miyo e outras personagens.

Além de servir como um bom conselho para os seus ouvintes, tais ponderações também exercem força sobre a própria Miyo, que se vê sempre mais e mais capaz de ser a protagonista de sua história. Assim como o Japão, metonimizado nas lacas de Yamaguchi e nas gravuras de Hokusai, a garota atravessa o mar – não apenas aquele que a separa da Europa, mas o mar de inseguranças que lhe sacudia desde a infância sem grandes alegrias, em Nagasaki.

Como no início da história somos apresentados a uma bifurcação temporal, ao final o tempo da narrativa volta para o “presente”, isto é, os momentos finais da 2ª Guerra Mundial. Neste momento, temos uma confirmação (bastante óbvia) sobre a personagem idosa que se encarrega de contar para a neta a história de A Lanterna de Nix, ao mesmo tempo que uma antiga reviravolta é colocada em cheque (ou quase isso).

Em suma, A Lanterna de Nix tornou-se uma das minhas obras favoritas do gênero de séries históricas, além de ter me servido como um belo cartão de visitas para o trabalho de Kan Takahama, que passou a ser uma das minhas autoras mais estimadas.

A Pipoca & Nanquim, que já publicou O Último Voo das Borboletas, tem o mérito de apresentar uma escritora tão talentosa ao público brasileiro, em edições bastante bem acabadas, com a tradução sempre irretocável de Drik Sada. Fica faltando ainda o desfecho da chamada “Trilogia de Nagasaki”, composta pelo Ultimo VooNix e por Ougishima Saijiki, trabalho atual de Takahama, atualmente em andamento com 3 volumes.

Dado o histórico da editora brasileira, é bastante provável que Ougishima seja anunciado em breve – e teremos mais Takahama abrilhantando o mercado nacional de mangás, com seu traço marcante e único, e sua capacidade de criar e contar belas histórias.

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Imagem: Foto das capas do volumes 2 e 3.

Ficha Técnica

A Lanterna de Nix #2 e #3 (FINAL)
Kan Takahama
R$ 69,90

Editora Pipoca & Nanquim

Coleção em 3 volumes

Capa cartão (com sobrecapa)
Formato: 22 x 15.8 x 4 cm
Páginas: cerca de 400 em papel pólen

Licenciante: Leed

Tradução: Drik Sada
Preparação de Texto: Gabriela Yuki Kato
Revisão: Luciane Yasawa
Diagramação: Gustavo Figueiredo
Edição: Bruno Zago e Gabriela Yuki Kato
Assistente editorial: Rodrigo Guerrino
Logotipo: Guilherme Barata
Capa: Bruno Zago e Guilherme Barata


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Essa resenha foi feita com base em ediçãos de A Lanterna de Nix #2 e #3 cedidas como material de divulgação para a imprensa pela editora Pipoca & Nanquim.


O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do

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