Imagem: Bojji com espada pronto para uma luta, em imagem com enquadramento de resenha do JBox.

Crítica | Ranking of Kings: E o meu sonho é ser o maior Rei

Carinho intenso com os temas do coração numa aventura quase familiar que “inocentemente” coloca as paixões como motor dos conflitos.

Ousama Ranking ou Ranking of Kings é um coming of age fantástico em vinte e três episódios que acompanha a jornada de Bojji, um pequenino príncipe surdo que, munido de uma transbordante gentileza, luta para mostrar o seu valor como futuro comandante do reinado.

Imagem: O pai de Bojji em uma cama, olhando para o garoto, que está de costas para a tela.
Reprodução: WIT/Crunchyroll.

À sombra de seu grandioso pai, Bosse, um gigante que nos seus tempos de glória derrotou exércitos inteiros sozinhos, e sem nem sequer uma minúscula fração de sua belicosidade e poderio corporal, esse projeto acaba sendo ridicularizado tanto pelos plebeus quanto pela realeza. O protagonista é um grande pária, discriminado e desmoralizado, que almeja o lugar maior de nobreza guiado por um forte ímpeto de dever e benevolência.

Estrutura similar a Naruto, mas contada com uma graciosidade visual que lembra muito os animês mais antigos, ainda muito inspirados no trabalho do ícone Walt Disney, bem arredondados, com cores delicadas, fundos detalhados e animação com uma leveza e fluidez que dão um senso muito deliberado até mesmo para as cenas mais violentas e caóticas de combate e destruição.

Apesar de um número bem generoso de personagens, todos possuem uma origem particular que constrói o caráter e orienta suas decisões que, por sua vez, possuem também um peso interno em cada um deles. Existe dúvida, dilema e ponderação em cada atitude colocada em cena, mesmo que muita coisa fique estruturada numa causalidade boba, um por um, onde este fato específico causa esta outra atitude específica, pelo menos há um esforço por amarrar os elementos a partir de elos que não são somente vontades puras ou personalidades vazias.

Até mesmo os momentos onde o Deus Ex Machina figura são justificáveis porque tudo gira em torno justamente dessa disponibilidade generalizada de uma coalizão de personagens para com o infante. O animê é, quase que de forma gritante, exatamente sobre como a comunidade ocupa um lugar fundamental no desenvolvimento de qualquer objetivo, não importando o quão individual ele seja ou pelo menos pareça ser.

Não existe disposição interna que consiga superar as condições externas e é daí justamente que surgem essas relações de lealdade e fraternidade pontuadas em vários momentos da história.

Não só de afetos nos serve a obra, o trato com as habilidades e capacidades, físicas e mágicas, são uma parte do anime que não apenas dialoga com todo esse arcabouço dramático, como são construções que brincam também com um certo imaginário ficcional sobre o que é ameaçador e amigável.

Imagem: Bojji empunhando uma espada (daquelas estilo esgrima) na frente de algumas pessoas no que parece ser um bar.
Reprodução: WIT/Crunchyroll.

A violência, que é muito própria de narrativas aventureiras, é colocada em evidência e se torna tema, não é simplesmente paisagem ou momento de extravasamento de energias, de exibicionismo animático, o que conta para as atitudes mais sociais, também conta para as batalhas: sempre existe motivo e dilema.

O conflito, por isso mesmo, acaba sendo multitemático e o choque de perspectivas é totalizante, apesar de que, as diferenças de percepções, em prol de uma estrutura de fábula, acabam muito tipicamente se harmonizando de uma forma um pouco infantilizada e homogeneizante (como o fim do animê original de Neon Genesis Evangelion).

Num certo apelo Socrático vulgarizado por Criolo nos versos “As pessoas não são más / Elas só estão perdidas”, a “maldade” acaba tendo como motor subjacente a errância do juízo, o desbalanço entre desejo e razão (como em Descartes), e se supõe, por isso, que a mútua compreensão e aceitação coletiva do outro é possível e suficiente para a definitiva harmonia utópica.

O que é um idealismo voluntarista resultante de não ir ao fundo da natureza do bem e do mal: na medida em que toda valoração moral é relacional (não confundir com relativa), não possui conteúdo intrínseco e muito menos matéria própria à qual se possa concordar definitivamente e universalmente, logo, só é possível uma harmonia nesse nível utópico, na medida em que se forja um valor coletivo (como o valor da monarquia e do monarca).

É patente o cuidado com os sentimentos, e por isso faço essa acusação meio contrariado, pois mesmo com a possibilidade de uma apelação descarada (por causa da deficiência), Ousama Ranking resolve o problema da inadequação pela chave da incompreensão. O problema não está em Bojji, mas no mundo em que ninguém pode se preocupar se não consigo mesmo.

Apesar de uma mensagem bonita de inclusão e coletividade, acaba no mesmo registro de uma certa “coletividade cristã” (a parte hippie), que ao priorizar esse senso de amor ao próximo, ignora que as injustiças acontecem muito mais pela perpetuação das estruturas de dominação nos modos de produção, das condições materiais das relações sociais, do que por uma má vontade e insensibilidade vindas de algum evento traumático que pode ser curado pela compaixão.

Imagem: Bojji acenando, com uma multidão de guardas atrás.
Reprodução: WIT/Crunchyroll.

Tanto é que, em absolutamente nenhum momento – salvo a vez em que Kage, motivado por ciúmes, critica a ambição de Bojji –, essa estrutura de poder é tomada também como tema.

Em tudo o que é articulado, o único que é deixado como paisagem ilustrativa, é o reinado e o que ele significa na organização social, inclusive quando se descreve a aldeia que cometeu as atrocidades com Miranjo, é sempre enquanto grupo de pessoas orientadas exclusivamente pelas suas paixões.

E esse, ironicamente, acaba sendo o mesmo problema de Naruto, onde todo sinal de subversão é ou desejo abstrato por dominação, ou fruto de um erro de percurso, ou simplesmente algo que esconde um desejo velado. O antagonismo só é de fato tomado como autêntico na medida em que ele não possui nada de muito ameaçador para o valor forjado em primeira mão.

Por mais seduzido que eu tenha ficado pelas personalidades, submetido a uma hipnose brutal pela intensidade das cenas de ação (as lutas têm uma direção absurdamente competente) e eletrificado com o entusiasmo da música da primeira abertura (cheia de swing e complexidades), acabei deixando o último episódio com um gosto agridoce na boca.

Tanto que, apesar de muito chorão com reuniões, dessa vez as lágrimas simplesmente não brotaram porque a essa altura do campeonato o moralismo já tinha subido à superfície e estava demasiadamente escancarado para eu poder tomá-lo como um mal menor.

Por outro lado, não saberia como tornar mais evidente o quão animador é ver trabalhos mais sofisticados e bem produzidos, que exigem um esforço mais dedicado de interpretação e dão chance para articulação de ideias, entre o mar de besteira que acaba inundando os catálogos e tornando laborioso o próprio processo de encontrar alguma coisa interessante e desafiadora para assistir.

Por isso, apesar de achar um produto ideológico condenável, sem sombra de dúvidas prefiro muito mais isso do que a propaganda grosseira que não se importa nem em pegar o que há de mais sério no conservadorismo.


Ranking of Kings foi exibido pelas Funimation e Crunchyroll com legendas em português de forma simultânea com o calendário japonês e toda a temporada está disponível no catálogo de ambas, contando também com dublagem. As empresas fornecem ao JBox um acesso à plataforma.


O texto presente nessa resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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