Imagem: Kotaro num balanço com balões, em enquadramento de resenha do JBox.

Crítica | Kotaro Vai Morar Sozinho: um acalento agridoce e irresponsável

‘Kotaro Vai Morar Sozinho’ consegue ser intrigante pelos motivos errados, já que apresenta um roteiro que apela para traumas e, ao mesmo tempo, transparece tudo dentro de uma grande Síndrome de Poliana.

Um gênero muito popular atualmente entre os fãs de animês é aquele onde vemos histórias bonitinhas de adultos cuidando de crianças em diversos contextos. Obras como Amaama to Inazuma, Usagi Drop (o animê!!!!) ou SPY x FAMILY se tornaram sucessos pela fofura que proporcionam.

Outra produção do tipo que estreou recentemente foi a adaptação animada de Kotarou wa Hitorigurashi, que ficou conhecida no Brasil como Kotaro Vai Morar Sozinho em sua estreia na Netflix.

No entanto, quem espera ter momentos bonitinhos em Kotaro Vai Morar Sozinho, talvez fique, na verdade, desanimado. Eu ao menos me senti assim.

Imagem: Kotaro com cachecol.
Reprodução: LIDENFILMS/Netflix.

Em Kotaro Vai Morar Sozinho, como diz o próprio título, vemos uma criança, Kotaro Sato, passar a morar sozinha depois de uma certa situação envolvendo os pais. No seu novo apartamento, Kotaro conhece seus vizinhos Karino, Mizuki e Tamaru, que, ao descobrirem a situação do menino, começam a apoiá-lo em várias partes da vida como seus guardiões temporários.

Apesar da descrição parecer quase inocente, o passado de Kotaro não foi nada fácil, já que conviveu com uma mãe desatenciosa e um pai violento, até ser obrigado a morar em um orfanato e passar por diversas mudanças.

O complicado disso tudo é que, em qualquer mínima situação que ocorre, vemos os traumas de Kotaro transparecer, mas o animê sempre tenta acobertar as coisas com momentos felizes que não parecem muito corretos na hora e sofrem para passar uma mensagem positiva.

Imagem: Kotaro com mochila de escola.
Reprodução: LIDENFILMS/Netflix.

Outra questão incômoda do enredo são algumas atitudes que os criadores deram para Kotaro. Apesar de ser apresentado como maduro, na verdade notamos que o persoangem é muito inocente, pois, apesar de ser sensível para notar o que acontece ao seu redor, ele ainda deixa outros aspectos muito mais óbvios passarem, como, por exemplo, a situação geral dos pais dele.

Só que Kotaro por muitas vezes não é só inocente, como também imprudente de formas que não condizem com o que seu personagem já apresentou antes. E na maior parte do tempo seus vizinhos não dão um bom exemplo do que ou não se fazer.

Um trecho que me incomodou bastante, por exemplo, foi quando um amigo que morou com ele no orfanato o engana para pedir dinheiro e, apesar do próprio Kotaro ter notado que estava sendo enganado, ele não questiona a atitude e continua tentando fornecer dinheiro. A história empurra uma sequência de acontecimentos que fazem o amigo se arrepender do que fez com Kotaro, mas sempre apelando para se sentir pena do garoto, nunca apresentando uma mensagem de uma maneira didática. Não há lição de moral.

Outro trecho que incomoda é quando Kotaro, por algum motivo, engorda bastante. É descoberto depois que ele engordou porque todos os seus colegas da escola davam os restos de comida para ele e, por não querer desperdiçar por ter passado fome no passado, Kotaro acaba comendo tudo por vários dias seguidos.

Claro que é um contexto situacional, mas é deprimente e irresponsável que as coisas necessitem chegar a um ponto preocupante para ser colocado um limite em questões simples, que, inclusive, é mais um exemplo de algo inserido apenas para mostrar mais cenas com os traumas de Kotaro e deixar aquele sentimento amargo.

Situações parecidas não acontecem só uma ou duas vezes, são vários momentos, no mínimo uma vez por episódio (ao menos no início, porque nos últimos episódios viram mais constantes). É muito gratuito apelar para traumas da forma que o animê apela sem pensar direito nas consequências, já que o roteiro faz tudo se resolver naturalmente em um contexto que claramente não seria assim.

Imagem: Kotaro empunhando faquinha.
Reprodução: LIDENFILMS/Netflix.

Não há problema em apresentar uma criança como inocente, isso é óbvio, mas a grande questão é que comentários de Kotaro muitas vezes não são questionados por adultos e, quando finalmente é questionado por alguém, os outros adultos dão de ombros e falam algo nas linhas de um “deixa ele, eventualmente se resolve”.

Kotaro, em sua inocência, acredita em quem está ao seu redor, sendo que o animê até mesmo o apresenta como alguém que confia fácil demais nas pessoas. Só que, em minha opinião, a mensagem que os personagens ao redor de Kotaro passam não é positiva, apesar do tom narrativo tentar miseravelmente ser. É apenas uma sequência de cenas tristes mascaradas por uma maquiagem de que “tudo vai ficar bem” sem responsabilidade alguma.

O animê não é de todo ruim, porém. Eu acho no mínimo intrigante a proposta da série de apresentar um conceito de história acalentadora de uma forma um tanto mais próxima do real, o problema maior é que ela não conta na maior parte do tempo com um sinal indicativo de tentar fazer as coisas melhorarem de um jeito de fato condizente (o que seria esperado considerando o tom realista do roteiro). A todo momento existe certa ansiedade que em qualquer instante tudo irá explodir de uma só vez porque a vida inteira de Kotaro foi empurrada com a barriga.

Imagem: Kotaro e um de seus vizinhos.
Reprodução: LIDENFILMS/Netflix.

Concluindo, Kotaro Vai Morar Sozinho é um animê que vive dentro de uma enorme Síndrome de Poliana e falha em apresentar algo didático ou ao menos instrutivo para o público. Kotaro Vai Morar Sozinho ainda consegue fisgar com seu ritmo monótono durante todos os 10 episódios, porém falta um clímax que satisfaça o espectador e que ao menos apresente uma moral. Nunca uma história doce conseguiu ser tão amarga.


Kotaro Vai Morar Sozinho é exibido pela Netflix, com opção de áudio original e dublagem em português  e outros idiomas, além de legendas. A plataforma detém exclusividade mundial sobre a série, que estreou simultaneamente em todos os países onde o serviço está disponível.


O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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