Nelson Sato (2008)

Entrevista publicada originalmente em 2 de maio de 2008.


Nos distantes anos 1980, um jovem e visionário empreendedor decidiu investir no promissor mercado de filmes em VHS. Seu nome: Nelson Akira Sato. Tendo feito contato com a poderosa Toei Company, Sato abriu em 1985 a Brazil Home Vídeo. Tal empresa lançou no mercado brasileiro os primeiros desenhos animados em VHS – como Capitão Harlock e Sua Nave Arcárdia e Em Busca de um Sonho (Dos Apeninos aos Andes), que chegaram a passar na extinta Manchete – e ,por pouco, não trouxe Jaspion e Changeman! Foi em parte por sua influência que o empresário Toshihiko Egashira (dono da antiga Everest Vídeo) foi ao Japão e comprou os dois ícones da infância brasileira oitentista.

No final dos anos 1980, a Brazil Home Vídeo passou a se chamar Sato Company (nome em vigor até hoje) e trouxe ao Brasil outro seriado tokusatsu, muito querido até hoje: Cybercop – Os Policiais do Futuro. Pouco tempo depois, o senhor Nelson lançaria nos cinemas nada menos que AKIRA. No auge do sucesso d’Os Cavaleiros do Zodíaco na TV brasileira (1995), Sato resolveu apostar no saudosismo e relançou clássicos como Ultraman, National Kid e A Princesa e o Cavaleiro. Depois de um hiato no final dos anos 1990, a Sato Company está firme e forte no mercado, com muitos projetos .

A fim de inteirar vocês com os bastidores do universo dos heróis japoneses no Brasil, apresentamos essa entrevista inédita com o Sr. Sato. Sabia que foi ele quem intermediou a ida de Naruto pro SBT? E que Cybercop quase ganhou uma versão brasileira nos moldes dos controversos Power Rangers?


O que levou o senhor a trabalhar no mercado de home-vídeo nos anos 1980?
Eu era proprietário de videolocadoras, umas das pioneiras no mercado. Nesta época, todas as fitas existentes eram cópias legendadas, ilegais. Como o mercado começava a surgir, as distribuidoras internacionais começaram a operar no Brasil e vi que todo o patrimônio adquirido iria virar pó, pois eram ilegais. Resolvi vender as locadoras e estudar o mercado. Comprei então desenhos da Toei e abri a Brazil Home Video, que foi a primeira (!) distribuidora a lançar desenhos no mercado, isso em 1986.

Logo da antiga Brazil Home Video.

O que fez o senhor trocar o nome da empresa de Brazil Home Vídeo para Sato Company?
Em 1989 comecei a entrar no mercado de TV e cinema. O primeiro com Cybercop e o de cinema com AKIRA. O nome da empresa “Home Video”, destinava-se somente a este segmento e como resolvi ampliar nossa atuação, o nome acabou sendo limitado e assim surgiu a necessidade de um nome mais abrangente. Resolvi, também, homenagear meus antepassados, colocando nosso sobrenome na empresa.

O senhor montou um circo-show de Cybercop com fantasias originais da série. É verdade que o senhor cogitou fazer uma versão brasileira (algo como a Saban fez com os Power Rangers) usando esse material?
Sim. Na época o Jayme Monjardim era o diretor artístico da Manchete e íamos lançar antes da Saban uma versão com atores brasileiros, mas infelizmente o projeto não foi concretizado, pois o Jayme acabou tendo muito trabalho com as novelas Pantanal, A História de Ana Raio e Zé Trovão e outras. Com isso, nosso desejo acabou não sendo realizado.

A empresa Cinemagia lançou, em 2002, a primeira parte de National Kid em DVD e hoje esse produto está esgotado. As vendas não foram boas para dar continuidade ao material?
Licenciei para a Cinemagia para testar o mercado de DVD, que estava no início aqui no Brasil, e as vendas ainda eram baixas… Assim, não demos continuidade nos demais episódios pois os custos mal se pagavam.

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Cybercop | © 1989 Toho

Há no mercado ilegal, DVDs de Cybercop com ótima qualidade de imagem e som – inclusive com a dublagem em português. O senhor já teve a oportunidade de assistir esse produto?
Ainda não… Mas são atos assim que impedem, às vezes, o lançamento do produto legalmente, pois muitos já compraram piratas e o potencial cai em muito…

O senhor ainda possui direitos sobre Cybercop no Brasil? É a existência dos DVDs piratas que impede o lançamento oficial da série no Brasil?
Tenho a prioridade de relançar o produto no Brasil, pois os direitos já se expiraram e devo ter de comprar novamente, o que é um alto investimento. E a pirataria realmente preocupa…

Acha que o mercado brasileiro ainda tem espaço pra esse tipo de série ou as versões ocidentalizadas são o “padrão” que as emissoras aceitam atualmente?
Acredito que sim. Estou adquirindo uma nova série, que no momento ainda não posso divulgar!

O animê Os Guardiões do Universo (Fuuma no Kojiro) chegou ao Brasil por intermédio da Sato Company. Mesmo com os personagens sendo praticamente idênticos aos Cavaleiros do Zodíaco, não houve interesse de nenhuma emissora no programa?
Infelizmente, mesmo sendo do próprio Kurumada, não gerou interesse.

O senhor também chegou a trazer a série Wedding Peach pra cá?
Wedding Peach foi somente em vídeo pela Flashstar.
Nota do JBOX: Da mesma forma que a Flashstar adquiriu os OVAs de animação do Robô Gigante e só lançou 1 volume, a empresa adquiriu a série Wedding Peach, mas nunca lançou.

A Lenda do Demônio (Urotsukidoji) se tornou um “cult” no Brasil depois da exibição na Band. O que levou o senhor a adquirir um desenho tão “forte” como esse? Não temia uma rejeição do mercado?
Adquiri correndo riscos! Acreditei no meu feeling, apostando que poderia funcionar. Era realmente algo “inovador” e ousado na época, mas esta é uma das minhas características: arriscar um pouco. Foi como AKIRA. Comprei os direitos de cinema sem nunca ter acesso a esse tipo de mercado.

Afinal de contas, o que houve com o animê Let’s & Go!? Todo planejamento anunciado na época do lançamento no SBT não evoluiu e a série saiu do ar depois de poucos episódios exibidos. Ainda há intenção de trabalhar com a série?
Infelizmente as coisas não caminharam como o planejado. Devemos retornar com ele em breve em um novo projeto.

Let’s & Go!! | © 1996 TV Tokyo, Xebec, Shogakukan

Em um evento de animê, milhares de fãs viram pôsteres de Let’s & Go! com a logomarca da Rede TV!. A emissora está com a série em mãos? Porque não houve o lançamento ainda?
Não é facil a competição das emissoras e programas… Realmente havia o projeto na REDE TV!, mas também não foi desenvolvido como deveria…

Em sua opinião, a falência da TV Manchete fez com que os animês e seriados japoneses perdessem a principal vitrine deles no Brasil? Acha que se a Manchete ainda existisse, a situação seria diferente do que vemos hoje – com pouquíssimos animês e nenhum seriado sendo exibidos na TV aberta?
Foram vários os fatores, dentre eles a falência da Manchete. Seria muito melhor se ela estivesse “viva” e muito mais fácil, pois ela apostou e acertou com nossos produtos. Outros fatores: depois que um segmento como o nosso deu certo, todas as emissoras resolveram entrar no mesmo, ocorrendo um excesso de oferta. Desta forma os programas foram perdendo audiência e força.

Superhuman Samurai Syber Squad | © 1994 Tsuburaya Productions, DIC Entertainment

É verdade que o senhor tentou negociar o lançamento da versão original japonesa da série Superhuman Samurai (Gridman), mas foi “obrigado” a trabalhar com a versão americana?
Sim. Eu preferia a versão original, mas a Tsuburaya na época, devido ao fenômeno dos Power Rangers, fechou um acordo com a DIC/DISNEY. Assim, os direitos para as Américas, Europa e outros países fora da Ásia eram negociados com o representante internacional e desta forma, tinha que se trabalhar com o novo formato criado – o Superhuman Samurai Syber Squad.

O senhor se manteve algum tempo afastado do mercado? Perguntamos isso pois o site da Sato Company parecia abandonado um tempo atrás…
Com a quebra da Manchete, tive reflexos em meus negócios, pois estava num momento de muito investimento e concentrado (fidelizado) com esta emissora. Isto repercutiu muito e realmente estive administrando problemas… Para retornar, os investimentos são elevados e os riscos idem. Por isto precisei aguardar um pouco antes deste retorno.

Naruto | © 2002 TV Tokyo, Shueisha, Masashi Kishimoto

Quem acessar o site da Sato Company hoje, nota que na parte referente a aquisições consta o animê Naruto (distribuído no ocidente por ©VIZ Media / Medianet & TV Tokyo) . O senhor quem trouxe o animê para o Brasil e o vendeu pro SBT? Houve participação da Creative Licensing no processo, ou essa empresa apenas administra as licenças da marca?
Fui o responsável por intermediar a venda da série ao SBT. Apesar dela ter um forte contrato com a Warner, onde possuem mais desenhos do que espaço de grade para veicular, consegui convencer o Sr. Sílvio que a série era importante e que deveria investir no mesmo – ao qual pude ter sucesso. O Luiz Angelotti, da Creative Licensing – representante da série no Brasil – foi quem me pediu auxílio para colocá-la no ar.

O que é mais interessante do ponto de vista comercial: levar o gosto do público, que se concentra em grandes feiras, em consideração, ou optar por desenhos mais comerciais que agradam ao público infantil?
Como trabalhamos num mercado corporativo, é claro que resultado comercial é muito importante. Desta forma, é interessante investir em programas que tragam produtos e que possam gerar faturamento e audiência.

Naruto, mesmo sendo reprisado exaustivamente, proporciona uma ótima audiência para o SBT. Em vista disso, por que não vemos uma “invasão” similar a que assistimos na década de 1990 (via Manchete e o próprio SBT) de novos animês na programação da TV aberta? Há alguma “pressão” do Ministério Público contra a violência dos animes que impede isso?
Existe a preocupação do MP quanto À violência. Não há invasão, pois não há grade suficiente nas emissoras. Hoje somente temos o SBT com uma programação de desenhos. A Globo tem, mas com menor espaço. Na Record há espaço somente para o Pica-Pau, para nostálgicos. Nada na BAND E Rede TV!.

As adequações pelas quais os animês são obrigados a passar (como edições e cortes para conseguirem a censura livre) são um problema na hora de adquirir algum desenho novo?
Sim, sem dúvida!

Existem empresas GRANDES que trabalham com animês, que sob o pretexto de “divulgarem a animação japonesa no país”, estão faturando alto com o comércio de DVDs piratas de animês e seriados tokusatsu durante eventos e lojas. O senhor não pensa em tomar alguma medida para coibir esse tipo de negócio?
Se forem com programas que represento, sim. Ações serão tomadas para coibirem este ato criminoso.

Cybercop quase foi parar no SBT, mas o senhor fechou com a Manchete, pois o Silvio Santos propôs um valor que o senhor não achou atraente. Essa história é verdadeira?
Sim, é verdade! Em 1989 ofertei a série ao SBT e o próprio Silvio Santos entrou em contato para negociarmos. Na época, o SBT e Manchete tinham audiência similar e a proposta da Manchete me pareceu mais atraente, onde acabei fechando.

AKIRA | (c) 1988 TMS, Katsuhiro Otomo

Existe alguma outra curiosidade desse tipo (relacionada a negociações ou projetos) que o senhor se recorde e possa partilhar com o público?
AKIRA foi outra curiosidade. Comprei acreditando que poderia funcionar em um mercado que eu não tinha trabalhado ainda, o de cinema. Quando comecei a apresentar às redes de salas de cinema, todos me achavam maluco. Na época somente entravam desenhos infantis da Disney e dublados na maioria, e somente na matinê… Minha proposta era um desenho para jovens e adultos, legendado e japonês! Foi muito engraçado na época, pois enfrentar barreiras e superar é muito prazeroso.

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Fuuma no Kojiro
O programa Sessão Super Heróis foi uma parceria entre a Sato e a CNT, mas acabou saindo do ar muito rápido. O senhor tentou levar o programa para algum outro canal?
Antes tinha ofertado para a BAND, mas a idéia foi realizada somente por eles – com o Band Kids. Daí fui para a CNT. Não conseguimos dar continuidade pela baixa cobertura da emissora e apesar da boa audiência, não pudemos comercializar o programa aos anunciantes.

Atualmente a Sato Company está trabalhando com Reality Shows, a novela argentina Lalola e programas de entretenimento de grande sucesso internacional. O que motivou o senhor a investir nesses programas?
Estamos hoje com o Dr. Hollywood na Rede TV!, Lalola e Naruto no SBT. Temos que diversificar, pois não dá para ficar mais somente em um segmento.

Quais os próximos passos da “invasão Naruto” no Brasil? Já há uma data para estréia de novos episódios no SBT? E podemos esperar pelo lançamento de algum filme nos cinemas?
Ainda não posso afirmar nada sobre Naruto, mas assim que puder darei mais detalhes. Também, um outro animê muito bom entrará no ar no SBT em breve. Aguardem. No cinema está difícil informar agora, pois são propostas ainda não assinadas. Não posso divulgar ainda, mas iremos estar de volta em breve…

Quais são os próximos passos da Sato Company no mercado televisivo brasileiro? Já pode adiantar alguma nova aquisição ou empreitada futura da empresa?
Posso divulgar que adquiri os direitos de Legend of Bruce Lee, uma série de 50 episódios em HDTV. Essa série irá agradar em muito os fãs! É a vida de Bruce Lee em “novela”, com uma superprodução e co-produzida pela sua filha Shanon Lee.

AKIRA está sendo lançado em DVD no Brasil e ganhou uma ótima veiculação na imprensa. O senhor não pensou em trazer o filme para o Brasil nesse formato?
AKIRA era um desejo, mas a Flashstar conseguiu convencer o pessoal do Japão. Eu tentei durante uns três anos adquirir os direitos para distribuição, mas o pessoal estava sendo duro na negociação. Como desisti, devem ter ficado mais maleáveis e aceitaram lançar o produto com a Flashstar. Mas estou avaliando o lançamento de produtos…
Nota do Jbox: A Flashstar e a Focus Filmes são a mesma empresa.

Pra terminar, uma pergunta bem simples: quais os seus heróis japoneses favoritos? Há algum em particular que o senhor gostaria de ter trabalhado no Brasil?
Gosto muito de live-actions. Meu preferido é Ultraman. Fez parte da minha infância. A família Ultra em particular acho que poderia ter sido melhor trabalhada, pois trouxe o Ultraman clássico (em 1995) e desejava desenvolver toda a família no Brasil, mas o momento – na época – não colaborou…

Agradecemos imensamente por ter respondido esse “vestibular” de perguntas. Desejamos sucesso em todos os seus trabalhos e projetos – tanto atuais, como futuros. E qualquer novidade “made in japan” que o senhor apresente, estaremos prontos para divulgar com imenso prazer em nosso site. Saúde e Paz.
Muito obrigado pelas carinhosas palavras! Sucesso e saúde a todos vocês também! Na vida só vence quem persiste. Quem desiste jamais vencerá.

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