Pirata do Espaço

Texto: Rafael Jiback e Fábio Cloud
Edição: Rafael Jiback
Revisão:
Leandrogon (Larc)
Última atualização em 31 de maio de 2020.


Cada geração costuma ter uma espécie de “pilar” para se espelhar, e com isso moldar o que deve ser seguido pela indústria. Se no fim dos anos 2010 os japoneses buscaram incansavelmente por novas histórias com ares de RPG, sobre um humano que fica preso em um mundo fantasioso (o chamado isekai), na virada dos anos 1990 para os 2000 vimos crescer de forma assustadora a quantidade de animês que tinham como tema bichinhos fofinhos (e suas variantes colecionáveis) – tudo em nome dos trocentos produtos que eles geram para seus investidores e, geralmente, são garantia para o fluxo de caixa.

É o básico do capitalismo selvagem. No meio da animação japonesa, a fórmula é comum desde o começo da produção de séries em formato comercial: fez sucesso, a ordem é fazer algo similar. Nos anos 1960, quando a animação japonesa ainda dava seus primeiros passos (com o nascimento de Astro Boy, em 1963), a moda eram séries com um garoto vindo do espaço que deveria combater seres alienígenas invasores. Ás do Espaço, Zoran e Super-Homem do Espaço são só alguns exemplos que seguiram o mesmo caminho e foram exibidos aqui no Brasil. Tudo isso refletia a onda da corrida espacial, o assunto da época e que era um prato cheio para os roteiristas (pensando bem, nem tanto, vide o excesso de repetição de situações).

Já nos anos 1970, a coisa ficou um pouco mais diversificada. Nesse período, com a poeira da corrida espacial baixando (o homem enfim foi à Lua em 1969), os estúdios começaram a investir em três frentes: garotas com poderes mágicos (como Angel), adaptações de clássicos da literatura (O Pequeno Príncipe, Pinóquio…) e os mecha – o assunto que mais nos interessa neste texto, obviamente.

Mazinger Z, marco dos robôs gigantes/Reprodução Toei Animation

Durante aquela década, as produções que mostravam os mecha (robôs de combate) começaram a moldar o que veríamos mais tarde em franquias icônicas como Gundam ou mesmo no cult Evangelion. Os robôs deixaram de ser geringonças guiadas por controle remoto (geralmente por um pentelho filho do cientista que o construiu) para se tornarem máquinas com forma mais “humanoide” e já pilotadas por um humano. O grande responsável por essa guinada foi Mazinger Z, série criada em 1973 por um dos mangakás mais influentes de todos os tempos, Go Nagai. O robozão Mazinger Z foi o pioneiro no conceito de um mecha pilotado por um ser humano e rendeu a criação de uma linha de brinquedos super memorável no Japão, mostrando que, desde cedo, o país entendeu como uma série infantil poderia ser utilizada como gancho para promover produtos.

Com o sucesso de Mazinger Z, dezenas de séries passaram a ser produzidas, naquele mesmo esquema de repetição de conceitos básicos. Assim, o Japão viu uma sequência de robôs enfrentando impérios alienígenas vindos dos confins do universo, e se metendo em situações até certo ponto constrangedoras, vistas hoje em dia. Neste balaio empurrado pelo próprio Go Nagai foi que nasceu em 1976 a série Groizer X – o que aqui carinhosamente (e obrigatoriamente) conhecemos como o Pirata do Espaço.

 

Uma obra de Go Nagai que… não é dele?

No início dos anos 1970, Go Nagai manteve uma parceria de sucesso com o estúdio Toei Animation. Três dos seus mangás mais populares viraram animê na TV naquela época: Cutie Honey, Devilman e Mazinger Z. Só que as histórias originais do mangaká eram “malucas demais” para as crianças. Muita violência, gente pelada, entre outros temas pesadinhos (apesar de serem publicadas em revistas voltadas para garotos a partir dos seus 12 anos). Para virarem as séries animadas pra pirralhada que queria comprar o boneco na loja no dia seguinte, a Toei jogou muito do material fora, atenuando as situações e criando tramas episódicas, com o herói derrotando o “monstro do dia”.

Em 1975, o estúdio ainda animaria Grandizer, mas a relação já se estremecia. Segundo fala do presidente da Knack Productions (já vamos falar dela), publicada no livro Super Robot Daikan (sem tradução no Brasil), Nagai travou disputas judiciais com a Toei, que naquela altura afirmou que nunca mais trabalharia com nada vindo do autor (uma promessa que foi quebrada anos mais tarde).

Mas Go Nagai estava mais do que consolidado e adiantado no mercado. Seu sucesso começou em 1968 com o mangá Harenchi Gakuen, e no ano seguinte ele criou o Dynamic Pro, seu próprio estúdio de quadrinhos, que cuidaria de toda a papelada de suas propriedades – uma visão que o cara teve depois de ver que não recebia nada dos produtos derivados de seu primeiro êxito. O estúdio, que só produzia histórias com contrato assinado (algo raro com as editoras), também formou outros profissionais, incluindo um tal de Gosaku Ota, responsável por desenhar uma versão dos quadrinhos de Mazinger Z para a revista infantil Bouken-ou.

Pirata do Espaço/Reprodução Knack Productions

Ota (um amante da pescaria – informação a princípio nada relevante que jogamos aqui) já vinha de uma experiência como assistente de outra lenda dos quadrinhos japoneses, Shotaro Ishinomori (criador do Kamen Rider, do primeiro Sentai, dentre outras pérolas), quando ingressou no Dynamic Pro. Lá dentro, ele desenvolveu o Pirata do Espaço e aqui a história ganha uma divergência. A primeira narrativa diz que Go Nagai levou o projeto para o estúdio de animação Knack Productions depois que rolou a baixaria com a Toei. Porém, em outro livro, Go Nagai’s Animation Chronicle (também inédito por aqui), é dito que a série começou como um projeto solo da Knack, que levou então o conceito geral para o Dynamic Pro.

Mangás de Groizer X da Sun Comics

Independentemente de qual linha esteja correta, Go Nagai foi creditado como o supervisor do animê do Pirata do Espaço e a criação continuou sendo de Gosaku Ota (embora o site do Ichi, que é como o Knack se chama hoje em dia, credite ao Nagai, só pra nosso desespero). Nesse telefone sem fio, durante muito tempo no Ocidente a obra foi creditada só ao Nagai (porque, afinal, tem toda cara de coisa dele), mas aparentemente o homem mal triscou no produto final. Aliás, tem algo que ele mexeu sim: as letras das músicas de abertura e encerramento, em parte, são dele.

Voltando ao Ota, ele também escreveu versões em mangá de Groizer X paralelamente à exibição do animê. O mais “popular” não foi além de dois volumes, que saíram pelo selo Sun Comics do departamento editorial da Asahi Shimbun (na época chamado de Asahi Sonorama), um dos jornais mais famosos do Japão. Houve outras, mas o negócio é tão obscuro que vamos ficar devendo essas informações.

 

Conflitos sociais e drama para crianças

Joe e Rita pilotando o Pirata do Espaço/Reprodução Knack Productions

Como já comentado, apesar de alguns avanços, os animês de mecha (não é “mecha” de cabelo, leia méca, por favor) dos anos 1970 ainda continuavam mostrando histórias onde invasores alienígenas chegam à Terra e precisam ser combatidos por robozões (o que virou praticamente um dos sinônimos de desenho japonês mundo afora). E com Pirata do Espaço não foi diferente.

Na história (mais detalhada no 2º episódio), os aliens da vez são os do Império Gailar (Gailler), que chegam do espaço por um acidente. 300 anos antes, esse povo resolveu sair do planeta rumo a uma expedição qualquer, mas em pleno espaço a neve deu tilt, forçando-os a pousar no planeta mais próximo – que para a infelicidade dos japoneses, era a Terra, o que sempre se traduz como o Japão. A ideia inicial que os gailarianos têm é a de se enfiarem em cápsulas de hibernação para esperarem a ajuda do seu planeta natal, só que três séculos se passam com o povo todo dormindo sem nenhum sinalzinho de fumaça da repatriação.

Geldon indica o Japão como ponto inicial/Reprodução Knack Productions

Quando começam a despertar, graças aos testes nucleares dos terráqueos (Godzilla mandou abraços), vem a reviravolta interna. Um bicho feio chamado Geldon resolve que eles têm que ficar ali mesmo e tomar a Terra para si. Como um verdadeiro tirano, como se espera de qualquer vilão E.T feio dos anos 1970, ele assassina o comandante contrário a suas ideias e começa a pilhar o povo para o seu plano, que convenientemente começará a partir do Japão – rola até uma desculpa para isso, com Geldon defendendo que o arquipélago oriental oferece melhores condições por conta de sua tecnologia (pobres japoneses).

Mas Rita, uma gailariana rebelde, discorda dos planos do imperador e foge com a poderosa nave Pirata do Espaço (Groizer X), que havia sido construída pelo seu pai, Yan, a mando do próprio Geldon. Ela cai com a máquina, ferida e desacordada, sendo encontrada por um jovem piloto de aviões acrobáticos chamado Joe Kaisaka. Na Ilha Akane, a moça alienígena é cuidada pela equipe da base aérea, composta pelo sério professor Tobishima (que foi uma espécie de tutor do Joe) e o trio de alívio cômico Baku (um velho baixinho), Ippei (o mecânico) e Sabu (um moleque aspirante a piloto). Às vezes aparece no grupo também o humilde pescador Gen (que a dublagem chama de Jen), que é sempre zoado pelos demais pelo seu sonho de pilotar um avião (ei, lembra que dissemos que o autor era um fã de pescaria? Seria aqui um desejo velado do Ota? Bem, nunca saberemos…).

Pirata do Espaço/Divulgação Knack Productions

Depois que a moça desperta e tudo é explicado, a dupla Joe e Rita é formada para pilotar o Pirata do Espaço, tido como a única arma capaz de deter o império gailariano. O avião com cara de coruja pode se transformar também em um robozão gigante quando necessário, um recurso que é bem menos utilizado do que uma fábrica de brinquedos gostaria pra fazer propaganda. Ao longo dos 36 episódios do animê, em menos da metade deles o veículo vira um robô de combate, o que talvez possa ter frustrado um pouco a criançada – é mais um desenho de um avião de ataque cool do que de robô gigante, de certa forma. O mais legal talvez seja pensar que o Pirata foi um “transformer” muito antes dos Transformers existirem – apesar de que a ideia de veículos sendo transformados em um robô já tivesse sido usado em Getter Robo, de 1974 e em Gaiking, contemporâneo à série.

Mas voltando ao enredo, por sorte, os gailarianos importaram gente o bastante para que houvesse um inimigo diferente por episódio. Assim, as tramas de Pirata do Espaço se desenrolam sempre para culminar naquele esquema clássico do “monstro do dia”, que aqui é representado pelos chamados robôs-bomba. As lutas costumam ser facilmente vencidas pelo Pirata do Espaço, seja como avião ou como robô, mas antes da batalha final o melodrama é o que costuma reger os roteiros.

A tristeza recorrente em Pirata do Espaço/Rperodução Knack Productions

Pirata do Espaço é bem triste. Rita precisa constantemente lidar com o fato de que está lutando contra o seu próprio povo, enquanto vê os seus iguais causando destruição no planeta alheio. Mortes são constantes. É criança ficando órfã porque os gailarianos dizimaram uma cidade, é antigo parceiro sendo convertido pro lado do mal para inevitavelmente ser morto depois, fora alguns suicídios que acontecem em prol da paz (e pra que não sejam os protagonistas a morrer, claro). Muitos civis são descartados em meio às explosões, mostrando desde cedo aos espectadores o terror da guerra. Haja preparo emocional pra essa criança, hein?

 

Primórdios do projeto

Groizer X nem sempre foi “Groizer X”. No livro Go Nagai’s Animation Chronicle é possível ver como o projeto original do robô era bem diferente. Pra começar, a série teria outro nome: Miracle Robot God Titan (ou O Milagroso Robô Deus Titã). As artes conceituais iniciais reveladas no livro mostram que o tal God Titan, que era o nome da máquina, era mais parecido com um Transformer, tendo até um rosto humanizado. Sua forma inicial seria uma nave que se parte ao meio, sendo que de uma dessas metades “nasceriam” os membros pra formar o robô final.

O visual original do “Pirata”, ainda como God Titan/Reprodução Go Nagai’s Animation Chronicle

Rita e Joe também não eram os mesmos nesses rascunhos. Rita ainda se chamava Rita mesmo, mas seu visual era completamente diferente, com cabelos loiros e um vestido verde, ainda sem o uniforme de pilotagem. Já Joe se chamaria Takeshi Yamato (que por ironia do destino se tornou o mesmo nome do protagonista da série tokusatsu Ultraman 80. Coincidência?) e seu visual parece mais com o de um garoto do que de um adulto, com um capacete que lembrava o cabelo do Astro Boy.

Da esq. p/ dir., os conceitos originais de Geldon, Rita e Joe/Reprodução Go Nagai’s Animation Chronicle

Pra completar, o Imperador Geldon. O vilão também exibiria visual completamente diferente, com barbicha branca, capa amarela e um braço e uma perna mecânicos (e vamos combinar, parecia bem mais marcante do que aquela coisa feia que se tornou).

O responsável por mudar tudo isso foi o Gosaku Ota. Todo esse conceito estava sendo desenvolvido antes da entrada dele, que primeiramente mudou o título da série para Kuubaku Robo Daibattle, até finalmente fechar em Groiser X e o resto é o que conhecemos. Será que o God Titan teria vingado mais no gosto japonês?

 

 

No Brasil, o primeiro animê da Manchete

Pirata em “modo avião”/Reprodução Knack Productions

O Pirata do Espaço foi um dos desenhos animados que mais marcou a infância de quem era criança na primeira metade dos anos 1980. A produção foi trazida para cá pela distribuidora Network, empresa fundada em 1960 pelo lendário Victor Berbara (nome importante nos bastidores da comunicação no Brasil), e que viria a se tornar o estúdio de dublagem VTI. Não se sabe exatamente de onde surgiu a negociação, mas a Network parece ter buscado os materiais direto da fonte japonesa, trazendo consigo também os animês Superaventuras e Don Drácula.

O pacote muito interessava a uma então jovem emissora carioca. Indo ao ar em 5 de junho de 1983, a Rede Manchete estava com sede de se tornar uma grande emissora (a TV do ano 2000, como diziam) e precisava turbinar a programação. Entre os reforços de desenhos animados do Clube da Criança, o programa infantil que revelou a Xuxa (que mais tarde, junto das Paquitas, “atormentaria” nossas manhãs) estreou o Pirata do Espaço já no dia 19 de junho daquele mesmo ano. Por algum motivo, a música de abertura da série veio pra cá apenas com a trilha instrumental, uma marchinha que também era tocada em todo santo episódio na hora da batalha e grudava na cabeça mais que chiclete.

Joe e Rita na pilotagem/Reprodução Knack Productions

Para a dublagem, foi escalado o inesquecível estúdio Herbert Richers, com um elenco de vozes características daquela década. Joe (que no original foi vivido por Toru Furuya, o Seiya de Pégaso d’Os Cavaleiros do Zodíaco!) ganhou a voz do saudoso Cleonir dos Santos, que marcou como o Daniel San no 1º Karatê Kid e o Dennis, o Pimentinha (no desenho animado exibido pelo SBT), além de ter sido o Speed Racer na dublagem original perdida da série homônima. Já Rita foi interpretada por Maria da Penha, a Rita Repulsa dos Power Rangers e o potro Brutus, de Cavalo de Fogo. Ainda tínhamos a marcante voz de Silvio Navas (Mumm-Ra de Thundercats e 1ª voz do Darth Vader nos filmes da franquia Star Wars) no caricato vilão Geldon.

Tirando variações de pronúncia, os nomes japoneses dos personagens foram mantidos, bem como o de localidades – o que dá mais uma pista de que a versão brasileira foi feita em cima do idioma original (em países de língua espanhola, por exemplo, Joe Kaisaka virou… José Alcantara). A falta de experiência em dublar coisas japonesas, no entanto, provocava vez ou outra alguns diálogos incoerentes na nossa versão…

Nos vizinhos latinos (que viveram o sucesso de Mazinger Z, ao contrário de nós que só assistimos em 2020) a série tinha o título genérico de El Justiciero e parece só ter tido algum sucesso na Argentina. Mas o caso mais absurdo é o da Espanha, que resolveu renomear a bagaça como Maxinger X, editando os episódios em um longa-metragem. Dados os exemplos, até onde se sabe, Pirata do Espaço foi um título criado exclusivamente no Brasil por algum iluminado da Network ou da Herbert Richers. O “Groizer” do título original provavelmente é uma forma de escrita da palavra grouser, que significa garra em inglês, ou seja, algo como “Garra X”. O que os criadores quiseram dizer com isso fica aberto à interpretação (bem, o Wolverine já existia).

Pirata do Espaço/Reprodução Knack Productions

Numa época em que ainda não se usava o termo “animê” para os desenhos japoneses, também ainda não se tinha muito tino comercial para trabalhar com as marcas do Oriente. Mesmo chamando atenção da molecada em meio às produções da Hanna-Barbera, o Pirata do Espaço se limitou a reprises na Manchete até por volta de 1985, quando a emissora já enfrentava sua primeira crise. O animê só voltaria ao ar 9 anos depois, dessa vez na CNT/Gazeta, junto com Don Drácula e Guerra das Galáxias (o Macross original!), dentro do programa Tudo por Brinquedocomandado por Mariane, mais uma apresentadora loira aos moldes da Xuxa. Nessa reprise, a falta de respeito com o telespectador imperou: a abertura e o encerramento foram mutilados (mais do que já eram!), assim como todos os episódios foram exibidos fora de ordem, ignorando-se que havia uma sequência de acontecimentos a ser respeitada. Um personagem poderia aparecer morto em um dia e no seguinte estava vivo sem explicação nenhuma.

Box de DVDs da Cult Classic/Divulgação

Uns bons anos depois, em 2013, a “misteriosa” empresa Cult Classic lançou nas lojas um box de DVDs com a série completa, incluindo boa parte da dublagem original. Dublagem essa que claramente só foi possível de inserir graças aos fãs que gravaram na época que passava na TV e não conseguiram registrar os episódios 31 e 33 (o áudio do material é essa dublagem recuperada, faltando justamente o áudio em português desses dois episódios). O box também inclui o áudio original e legendas em português, mas levanta suspeitas até hoje sobre o licenciamento legal (pode ser que o Pirata fosse pirata mesmo, se é que me entende). Para completar a desconfiança, a caixa foi replicada tempos depois pelo selo World, o mesmo que colocou no mercado DVDs piratas do Jaspion.

 

Esquecido, mas nem tanto

Cena de Dynamic Super Robot Shoushingekki/Reprodução

O Pirata do Espaço era só mais um entre as dezenas de robôs que fizeram a alegria dos japinhas (tá bem, talvez ele tenha dado mais tristeza) nos anos 1970 e logo caiu no esquecimento. Ele só foi relembrado no ano 2000, quando rolou um especial chamado de Dynamic Super Robot Shoushingekki – era uma minissérie de três episódios de 2 minutos cada um, sem diálogo, apenas mostrando a família de robôs de Go Nagai se juntando pra cair na porrada com outros robôs (precisa de mais que isso?). E o Groiser X aparece até com certo destaque, com papel importante no time dos mocinhos.

Apesar disso, só em 2005 o Japão resolveu colocar a série original completa no mercado nostálgico de DVDs, ganhando até um relançamento em 2013 (curiosamente, o mesmo ano do DVD brasileiro). Entre esses dois lançamentos de home-video, o avião-robô ainda ganhou brinquedo novo e uma nova versão deu as caras em Mazinger Edition Z: The Impact!, uma releitura do Mazinger Z que foi lançada no Japão em 2009 – e até passou por aqui com uma dublagem esquisita na Netflix em 2015. Nesse animê, no entanto, o Pirata virou um robô-bomba do vilão Conde Brocken, agora renomeado como Groizer X-10.

Por mais que o desconhecido Gosaku Ota tenha tido sua parte, podemos ver que o Pirata do Espaço é considerado parte do panteão de Go Nagai. E foi com esse animê inexpressivo mundialmente que o Brasil teve o primeiro contato com uma lenda dos mangás e animês – e foi o único por muitos anos! Só veríamos outra coisa com o nome dele por aqui em 2008, quando a Platina Filmes lançou um live-action de Devilman em DVD. Pouco antes disso, forçando a barra, teve uma paródia do Mazinger Z exibida no Animax com o nome de Panda Z.

Na base do antes tarde do que nunca, o Brasil começou a entender mesmo quem era esse mangaká a partir de 2019, quando a Netflix exibiu a releitura DEVILMAN crybaby, animê dirigido pelo fantástico Masaaki Yuasa. Uma abertura que culminou na vinda de edições luxuosas dos mangás de Devilman e Cutie Honey em 2020 pela NewPOP Editora. Mas nada mais assustador que a estreia da série original do Mazinger Z em pleno 2020 na Netflix, dubladinha. Pois pode mandar mais Go Nagai, que tá pouco.


Outras curiosidades

  • Na trama, o Pirata do Espaço é feito de uma liga metálica chamada de Silliconium Milagroso (Miracle Silliconium). Como o nome original do projeto era Miracle Robot God Titan, é possível que tenham aproveitado esse conceito desde o início.
  • Durante a transmissão semanal da série no Japão, os episódios 5, 10 e 13 foram reprisados em 1977, antes da exibição dos episódios finais. Por isso, em algumas enciclopédias por aí é possível encontrar o registro de que ao todo são 39 episódios.
  • Isaac Bardavid, mais conhecido por ser a voz do Wolverine no desenho clássico dos X-Men nos anos 1990, é uma das vozes mais recorrentes na dublagem da série. Além de ter dublado o chefe de segurança Yoshida, vários inimigos gailarianos também aparecem interpretados pelo ator.
  • Kuni Kawachi, compositor do arranjo do tema principal (aquela marchinha grudenta), também foi responsável pelo tema de Don Drácula, animê que foi exibido na mesma época aqui no Brasil e trazido pela mesma distribuidora.
  • Ko Ikeda, cantor do tema de abertura e encerramento, participou de outras séries animadas de robô e também de tokusatsu. É dele a voz nas aberturas de Getter Robo, Great Mazinger, Kamen Rider X e no encerramento de Gorenger, primeira série Super Sentai.
  • Nas versões em mangá, o Pirata do Espaço tinha uma coloração mais esverdeada. Inclusive, há colecionáveis oficiais baseados nessas cores.

Ficha técnica

  • JAPÃO
    Título:
    Groizer X
    Emissora original: Tokyo Channel 12 (atual TV Tokyo)
    Exibição original: 1º de julho de 1976 a 31 de março de 1977
    Horário original: quintas-feiras, das 19h30 às 20h (os episódios 5, 10 e 13 ganharam reprises no mesmo horário)
    Total de episódios: 36
    Estúdio: Knack Productions
    Criação: Dynamic Planning, Gosaku Ota
    Roteiro principal: Toyohiro Ando
    Direção: Hiroshi Taisenji
    Designer de personagens: Takao Suzuki
    Trilha principal: Kuni Kawachi (composição), Koh Ikeda (interpretação), Go Nagai (letras) e Hiroshi Koenji (letras)
    Produção: Dynamic Planning, Takashi Nagai, Tadaaki Kikuchi
    Elenco de vozes: Toru Furuya (Joe), Kiiko Nozaki (Rita), Katsuda Hisashi (Tobishima), Naoki Tatsuta (Baku), Kazuko Sawada (Sabu), Ikuya Sawaki (Ippei), Nozomi Yamashita (Gen), Michiro Okada (Yoshida), Hideki Yabuuchi (Geldon), Masamune Issei (Dagar), Kiyoshi Kasai (Marechal Dogus)

 

  • BRASIL
    Título no Brasil: Pirata do Espaço
    Distribuição: Network-VTI
    Exibidoras no Brasil: Rede Manchete (1983-1985), CNT/Gazeta (1994)
    Elenco de dublagem: Cleonir dos Santos (Joe), Maria da Penha (Rita), Ionei Silva (Tobishima), Dário Lourenço (Baku), Isaac Bardavid (Yoshida), Silvio Navas (Geldon), André Luiz “Chapéu” (Dagar), João Jacy Batista (Dogus, 1ª voz), Orlando Drummond (Dogus, 2ª voz), Armando Casella (Golen)
    Versão brasileira: Herbert Richers

Guia de episódios

O guia de espisódios está em desenvolvimento e em breve estará disponível na J-Pédia.


Fontes consultadas: Super Robot Daikan (via Ricardo Cruz), Go Nagai’s Animation Chronicle (via encirobot), Jornal do Brasil – edições de junho e julho de 1983 (via Matheus Mossmann), Museu da TV, MazingerZ.com

 

 

 

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