Resenha: Bem-vindo à N.H.K. Volume 1 – Editora Panini

Shonen aborda a questão social do hikikomori.

Welcome to the N.H.K. é uma série de mangá desenhada por Kendi Oiwa (Ou Kenji Ooiwa) baseada na novel (livro) de autoria de Tatsuhiko Takimoto. A novel foi publicada em 28 de janeiro de 2002 e conta com apenas um volume, já o mangá foi de 24 de junho de 2004 até 06 de junho de 2007, compilado em 8 volumes tankoubon. A versão em quadrinhos ganhou uma adaptação em anime do Estúdio Gonzo com 24 episódios que segue os 16 primeiros capítulos do mangá e depois toma um rumo diferente.

A obra trata de temas polêmicos como o problema social dos hikikomori, vício em drogas, lolicon etc. Por incrível que pareça é um mangá shounen (saiu na Shounen Ace da Kadokawa Shoten), mas podemos dizer que ao mesmo tempo é muito mais maduro que obras feitas para o público “adulto”.

O protagonista da história é Tatsuhiro Sato, um hikikomori de 22 anos. Aliás, o que é um Hikikomori? A tradução para o termo é isolado doméstico e é usado para pessoas que geralmente por conta de um fracasso em suas vidas sociais (perda de [email protected], não passar no vestibular, ficar desempregado) acabam se isolando do mundo vivendo sem sair de casa em um confinamento voluntário. Se trata de uma doença mental muito séria, um dos países com maior taxa de hikikomoris é o Japão. A cultura social por lá acaba ajudando a formar hikikomoris já que as pessoas não costumam se intrometer muito na vida um dos outros e já são culturalmente mais isolados do que a maioria das outras culturas.

Voltando ao mangá, Tatsuhiro Sato descobre que sua fonte secou: dois anos depois de trancar a faculdade e quatro anos realmente isolado em casa, seus pais cortam a sua mesada. Nesse meio tempo por causa de seu isolamento a comunicação interpessoal regrediu e não só ela, boa parte de suas habilidades sociais piorou e ele já não sabe se portar em público direito quando ele percebe que se quiser sobreviver vai ter que voltar a trabalhar, mas ele não tem coragem pra isso e prefere ficar em casa usando as drogas que ele compra pela internet.

Durante uma viagem de cocaína ele tem um delírio e começa a achar que os seus móveis falam e por causa da paranóia começa a achar que a N.H.K. (Nihon Housou Kyoukai – Sociedade de Radiodifusão do Japão) na verdade é Nihon Hikikomori Koyukai (Sociedade dos Hikikomori do Japão), que a rede de televisão que exibe vários animês de alta qualidade é na verdade uma organização secreta do mal culpada por tornar as pessoas hikikomoris.

Daí então ele tenta um emprego na rede de tv, para se infiltrar em território inimigo, mas chegando lá ele reconhece na recepção uma garota que tentou distribuir panfletos “evangélicos” (até no Japão existe isso ~_~U) e com suas limitadas habilidades sociais não consegue dizer nada que faça sentido para a coitada e sai envergonhado.

Ao voltar para casa o vizinho pentelho da quitinete ao lado que ele nunca viu na vida está tocando músicas de anime no volume máximo, parece uma provocação e ele derruba a porta do cara pra tirar satisfações, é quando ele descobre que o vizinho é um conhecido dos tempos de escola e companheiro de “otakice”, o cara acaba tornando o que já era ruim em algo pior ao apresentar para Tatsuhiro a infame perversão chamada: lolicon. Ao mesmo tempo a garota da N.H.K. vai ao apartamento dele dizer que ela quer que ele seja sua cobaia em um projeto para tratar os hikikomoris.

A história é bem bacana, a leitura é rápida, os personagens são bem legais (mas também é bem fácil odiá-los). É muito bom sair do estereótipo dos mangás shounen de sempre e ter algo bem diferente do habitual como uma opção de leitura. O traço é bem particular e bonito, o autor organiza muito bem as páginas e a leitura é rápida e fluida. Outro lado positivo é que fala sobre a cultura otaku e não a glorifica, mostra o lado mais sujo e doente e como as pessoas podem precisar de ajuda – E não me entenda mal, quando se fala de otaku de verdade significa que estamos falando de pessoas que são obcecadas por determinados assuntos, podendo ser ou não relativo a animes e mangás. A expressão otaku aqui no ocidente foi erroneamente interpretada como fãs de anime, mas um otaku de verdade é muito mais que um simples fã.

O ponto negativo da história é a falta de seriedade com que trata o tema pedofilia. Otakus podem ser patéticos, eles são em boa parte do tempo, mas certas coisas não devem ser tratadas com tanta “leviandade”, como a pedofilia foi tratada no mangá. Quando o Tatsuhiro sai com uma máquina fotográfica na mão para tirar fotos de meninas de 12~13 anos saindo de um colégio, isso não foi engraçado, pode ter sido patético, deprimente, mas é algo bem sério e na minha humilde opinião faltou um aviso bem grande por parte da Panini de que fazer isso é um crime grave. Por sorte os outros personagens do mangá conseguem passar a mensagem de quanto isso é feio, nojento e danoso. Ao mesmo tempo o Yamazaki, companheiro de otakice do Tatsuhiro, diz que pedofilia é ok enquanto for apenas pedofilia em mangá ou anime. Não, isso não é ok, pedofilia em mangá ou em anime é crime no Brasil e se você tiver material desse tipo (lolicon, shoptacon, toddlercon) armazenado na memória do seu computador, gravado em dvd ou mesmo impresso em papel pode ser preso a qualquer momento (outro aviso que a Panini deveria ter colocado no mangá).

A edição do mangá está ótima, a adaptação ficou bem bacana, manteve os sufixos honoríficos e ao mesmo tempo tem um texto fluido e sem ruídos. O glossário está muito bom e se o verbete Hikikomori é pequeno é porque o termo é largamente discutido durante o mangá, afinal essa história trata deles. A capa é igual à original na frente e no verso com um resuminho da história (viram só, a Panini aprendeu). A editora merece parabéns por respeitar o original japonês e usar dezenas de fontes diferentes, o que reforça o caráter cômico da obra. Em compensação os extras estão orientados no sentido ocidental, o que causa uma grande confusão na hora de ler. Nas páginas 39, 91, 144, 146 e 147 têm várias placas, rótulos e panfletos não editados, a editora  optou por não traduzir ou sequer colocar uma nota explicativa e também não decidiu se iria usar N.H.K. ou NHK, chega ao ponto de na mesma página haver as duas versões.

No geral é um ótimo mangá, desconsiderando as diferenças culturais entre japoneses e brasileiros, esse é um título que nos leva a refletir e faz a gente lembrar daquelas pessoas que conhecemos pela internet e que estão se transformando aos poucos em legítimos hikikomoris. Eu recomendo esse mangá para qualquer um que se considere um fã de mangá (eu falo de fã de verdade, não de gente que lê apenas shounens porradeiros), é um dos melhores títulos já lançados no nosso país, tem um traço muito bacana, um roteiro ótimo, a organização e clareza do conteúdo é excelente também.

Título: Bem-vindo à N.H.K.
Autores: Tatsuhiko Takimoto (roteiro) e Kendi Oiwa (arte)
Demográfico: Shounen
Gênero: Comédia, Slice of Life
Tamanho: 13 x 18cm, cerca de 190 páginas
Duração: 8 Tankoubons
Preço: R$9,90
Periodicidade: Bimestral (??)

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