Crítica: Yu-Gi-Oh! O Lado Negro das Dimensões

Duelos deslumbrantes, personagens inesquecíveis: o Lado Negro das Dimensões é o melhor filme de Yu-Gi-Oh! já feito!

É engraçado como são imprevisíveis as coisas a que atribuímos valor. Via de regra, quanto mais descaradamente comercial um desenho é, menores suas chances de ser classificado como um “clássico” – lembrado, sim; amado, talvez não. E apesar de ser uma franquia que se iniciou com um mangá de 1996 sobre vários tipos de jogos ligados ao sobrenatural, Yu-Gi-Oh! definiu  seu lugar no cenário da cultura pop como possivelmente o mais bem-sucedido veículo de venda de cards do mercado. Especialmente após a estreia do anime de 2000, que marcou presença aqui no Brasil, conhecido no Japão como Yu-Gi-Oh! Duel Monsters. Conceitualmente, Yu-Gi-Oh! parece ser só mais um veículo de venda de produtos, fadado ao esquecimento e ao escárnio de fãs mais velhos; mas ao invés disso, o anime, em particular sua primeira “saga” que estreou por aqui em 2002, permanece vivo no imaginário pop-cultural e adorado por milhões, e ainda comercialmente relevante no meio, apesar de todas as várias sagas que a sucederam desde então. E para celebrar o vigésimo aniversário da franquia, a produtora Konami retornou a essa primeira saga com este novo filme cheio de aspirações nostálgicas: Yu-Gi-Oh! O Lado Negro das Dimensões.

O enredo dele oferece aos fãs, acima de tudo, um reencontro com esses queridos personagens de longa data. Passando-se pouco tempo após a despedida de Atem, vulgo “Yami Yugi”, no final da história, acompanhamos os momentos finais de Yugi, Joey e os demais no ensino médio e seus preparativos para o futuro incógnito que vem pela frente. Simultaneamente também acompanhamos o rival de Yugi, Seto Kaiba, em sua busca desesperada por uma forma de trazer Atem de volta à vida para um duelo final, a única coisa que dá sentido à sua vida. Todas as cenas envolvendo esses velhos conhecidos – especialmente as do egocentriquíssimo Kaiba – são um enorme deleite, e não somente graças à evidente nostalgia de revisitá-los. Há um sentimento de mudança e de crescimento que permeia essas cenas. Yugi e seus amigos não estão simplesmente aqui para fazer uma rápida aparição que somente reafirma seus personagens, como foi feito no filme anterior, Vínculos Além do Tempo (2010); aqui, aprendemos mais sobre alguns deles e somos testemunhas de seu crescimento – e do descontrole de sua obsessão, no caso do Kaiba. A temática de Lado Negro como um todo pode ser vista como a superação do passado em preparação para o futuro, e cada um dos membros da turma do Yugi enfrenta essa batalha em seu decorrer, sejam alimentados pela esperança, seja pelo desespero. É bem mais do que o filme precisava ser, mas, tendo o autor do mangá, Kazuki Takahashi, envolvido na produção, é compreensível: esta não é só uma reunião, mas também o capítulo seguinte desta história, o que faz do filme muito mais essencial aos fãs dos que os dois que o precederam.

Mas o filme não é somente sobre aqueles personagens. O vilão aqui é um rapaz chamado Diva, vulgo Aigami, um adolescente egípcio de um clã esquecido de viajantes dimensionais que quer vingança contra o Faraó Atem por indiretamente culpá-lo por um incidente traumático de sua infância. Se isso lhe parece familiar, é porque é: Aigami tem inúmeros paralelos com o segundo grande vilão do anime de 2000, Marik Ishtar, incluindo uma irmã contrária a ele e um bom amigo que relutantemente o auxilia. Infelizmente, diferente de Marik, Aigami não tem mais de 50 episódios para estabelecer seu personagem, e por conseguinte não é particularmente convincente, seus objetivos e ações parecendo alheios aos acontecimentos que cercam os demais personagens. Dito isso, ele não é exatamente um personagem ruim, – certamente está anos-luz à frente do vilão de Vínculos – mas prejudica o filme a quantidade de tempo que é dedicada a ele. Não há como negar que lhe falta a complexidade e “presença de palco” que tornava o Marik tão querido, em adição à sua voz tão… característica (não que o dublador do Aigami faça uma má performance, como logo veremos).

Não posso deixar de mencionar os duelos também – afinal, é graças a essas disputas dramáticas, dinâmicas e intensas entre jogadores de cards que esta série permanece viva e forte, e o filme oferece alguns simplesmente fantásticos. São duelos mais rápidos e diretos do que os que vemos nas séries, é claro, mas que se utilizam do orçamento cinematográfico do projeto para dar a eles todo o peso e voracidade que só os melhores episódios do anime conseguiam oferecer. Dito isto, eles nem sempre parecem feitos para agradar ao público consumidor: a maioria dos duelos neste filme são “Duelos de Dimensão”, uma variante do jogo exclusiva do filme que despreza um monte das regras consideradas sagradas do TCG em prol de jogadas mais imediatas e grandiosas. O resultado são disputas lindas de se ver, mas não exatamente replicáveis no jogo – e parando para pensar, considerando o modo como as regras do jogo operavam nos primórdios do anime, no Reino dos Duelistas, não seria essa escolha a mais nostálgica possível? O duelo entre Yugi e Kaiba durante o clímax do filme, um intenso embate de emoções que se utiliza tanto de cards clássicos quanto novos e mercadologicamente pertinentes, é o grande destaque da obra, fornecendo aos fãs toda a vivacidade e carga dramática que fazem de Yu-Gi-Oh!, “Yu-Gi-Oh!”.

Os valores de produção de Yu-Gi-Oh! nunca foram exatamente revolucionários. Na verdade, em adição ao grande lucro da venda dos cards, provavelmente são a razão por trás da longevidade da franquia: é uma propaganda lucrativa e relativamente barata de se produzir, com enormes porções terceirizadas para estúdios coreanos de baixo custo. Sem rodeios: fora alguns episódios específicos produzidos por animadores talentosos específicos, é um anime feio, que se utiliza de todos os atalhos de animação possível para ilustrar o estilo de Kazuki Takahashi da forma mais econômica possível. Felizmente, o mesmo não vale para este filme – do começo ao fim, sua qualidade inquestionavelmente ultrapassa até aquela dos melhores episódios do anime, com personagens expressivos e vivos (com designs modernizados que mantém o estilo “angular” do mangaká) e saques de cards com majestade e peso condizentes com a fama da série. Minha maior ressalva quanto ao visual do longa – fora algumas cenas que claramente não ganharam tanto cuidado quanto outras – é a utilização frequente de computação gráfica para representar as criaturas mais monstruosas do jogo. É inevitável, claro, – desde Yu-Gi-Oh! 5D’s, de 2008, CG se tornou uma ferramenta muitíssimo presente na franquia – e claro também que a tecnologia utilizada nele é notavelmente superior neste filme em comparação às séries, mas não há como negar que nem sempre os monstros computadorizados se misturam com o resto da animação tão bem quanto deveriam.

Em matéria de som, a trilha sonora, tantos nas versões japonesa quanto americanas, misturam novas composições com temas clássicos de seus respectivos originais, sendo a escolha da mais agradável realmente uma questão de preferência pessoal: as composições mais pesadas e incessantes, além de mais nostálgicas para nós, da versão americana, versus a trilha menos chamativa, com mais momentos de silêncio da versão japonesa. Versão japonesa esta que traz de volta todo o seu elenco de vozes… Mas claro que, para este lançamento do filme aqui no Brasil, o que realmente conta é o time da casa. A dublagem, realizada nos estúdios da Clone, fez questão de reunir o máximo do elenco que foi possível, com destaque especial para Marcelo Campos (Yugi) e Melissa Garcia (Téa), que foram trocados por outros dubladores em projetos anteriores. É um enorme bônus de nostalgia muitíssimo bem-vindo em um filme que faz de nostalgia seu cerne. A reunião vai um passo além, inclusive, com o dublador de Aigami, Marco Aurélio Campos, sendo o mesmo que substituiu Marcelo Campos no papel de Yugi em Vínculos – e fazendo uma ótima performance de vilania, diga-se de passagem. Mas, lamentavelmente, não é uma reunião completa; Bakura é aqui dublado pelo seu dublador mais recente no anime, Fábio Lucindo, ao invés de Alex Wendel, sua primeira voz, e Duke, Shadi e o Sr. Solomon (vulgo avô do Yugi) ganharam vozes inéditas. Apesar disso, contudo, e apesar dos personagens secundários deixarem bastante a desejar e dos vozerios serem desconfortavelmente vazios, o elenco veterano faz um trabalho fenomenal com esses personagens que marcaram seus extensos repertórios. Destaque pessoal para Mauro Eduardo como Seto Kaiba, que passa a arrogância e teatralidade do personagem como ninguém.

É, portanto, uma pena a dublagem ter sido feita em cima da versão americana da 4K Media Inc., sucessora da famigerada 4Kids Entertainment, que cuidou da adaptação do anime de 18 anos atrás. Apesar de visualmente sem cortes, a adaptação não é nem de perto fiel à versão japonesa, e simplifica bastante todos os aspectos do enredo, desde o desenvolvimento dos personagens até as motivações de Aigami e o funcionamento de seu grupo de viajantes interdimensionais, o Plana, em prol de piadinhas de qualidade variável. Consequentemente, o enredo como explicado na versão americana varia de raso a incompreensível dependendo da cena.

Mas de certa forma, até isso funciona em prol da missão do filme de ser uma revisita dos fãs a uma parte querida de suas infâncias. Com seu visual mais caprichado, história cheia de caráter e duelos intensos, o filme é uma recomendação fácil, especialmente para fãs de longa data. E mesmo se você não se encaixar nesse grupo, ou não estiver particularmente familiarizado com esses personagens ou com o término da primeira saga de Yu-Gi-Oh!, a recomendação se mantém. O Lado Negro das Dimensões funciona tanto como uma celebração do carinho dos fãs por Duel Monsters quanto como um ótimo exemplo de uma aventura Yu-Gi-Oh! em seu ápice de qualidade. E do Kaiba em seu ápice de… Kaiba.


ONDE ASSISTIR?

Yu-Gi-Oh! O Lado Negro das Dimensões tem estreia marcada no próximo dia 1º de novembro no Looke, NOW, Google Play, Vivo Play, Microsoft Store e iTunes.

No Looke, o usuário pode optar pelo aluguel, por R$9,99 ou então pela compra digital, por  R$29,99. Há também uma opção de compra conjunta com Yu-Gi-Oh! – O Filme, com 20% de desconto. Quem optar por essa, pode alugar os dois filmes da série por R$11,99 ou fazer a compra digital conjunta por R$39,99.


SORTEIO: concorra a 5 códigos para assistir ao filme no Looke!

Em parceria com o Looke, o JBox está promovendo um sorteio para assistir ao novo filme de Yu-Gi-Oh! na estreia, no próximo dia 1º de novembro. Confira todos os detalhes de como participar clicando aqui.

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