Crítica | Gintama (live-action)

Lançado recentemente no catálogo do Looke, filme retrata com fidelidade os personagens do mangá, tem boas lutas, mas investe pouco no humor característico do original.

Recentemente, o serviço on demand do Looke adicionou ao seu catálogo o primeiro filme live-action de Gintama, adaptação do mangá de sucesso de Hideaki Sorachi, que continua em publicação até hoje (apesar de que já deveria ter terminado, porém o autor deu seus jeitos de continuar).

O filme tem direção de Yuichi Fukuda (Chasing My Girl, Hentai Kamen) e foi um sucesso de bilheteria e também de crítica em seu país de origem, principalmente por conseguir transpor muito bem a obra de Sorachi para mais uma mídia, sendo que já existe uma adaptação para anime de sucesso que fica esporadicamente em exibição desde 2006. Além da direção, Fukuda também cuidou do roteiro do filme, se baseando na história original.

Sobre o live-action, como já foi dito, ele entrega muito bem a essência de Gintama. Foi escolhido para o longa a adaptação do arco da espada Benizakura, correspondentes aos volumes 11 e 12 do mangá e aos episódios 58 ao 62 do anime. Esse arco também foi refeito para um filme animado, exibido no Japão em 2010. Ele é considerado como a primeira fase do mangá que tem um acarretamento maior para o enredo da obra.

Como é de se esperar por causa da fase adaptada, o live-action não é uma boa introdução para a série como um todo, já que, apesar de tentar fazer a introdução mínima das peças principais para o longa, como os protagonistas e também os vilões principais, não há tempo de tela o suficiente para tudo, o que acaba sendo proveitoso apenas para os fãs já de longa data.

Na história, acompanhamos o grupo Yorozuya (chamado na tradução exibida pelo Looke de Bicos Bizarros S.A.), que é responsável, como diz o nome, por cuidar de diversas situações que acontecem pelo distrito de Kabuki, no período Edo, quando os samurai não existem mais e não é mais permitido o uso de espadas desde que a raça alienígena Amanto invadiu a Terra.

Certo dia, acaba caindo sobre o grupo formado por Sakata Gintoki, Shimura Shinpachi e Kagura duas investigações diferentes, uma sobre o ataque ao samurai Katsura, amigo de infância de Gintoki, e outra sobre o sumiço da espada Benizakura, que é tida como se tivesse vida própria. A partir daí começa uma história de ação e lembranças do passado de Gintoki, Katsura e do vilão Shinsuke.

Sobre o filme como um todo, ele possui um nível de comédia bem abaixo do esperado para Gintama, mas isso não é culpa da produção em si, mas sim do arco do mangá escolhido para adaptação. O arco por si só foca no passado de alguns personagens importantes para a trama e acaba recebendo bem mais peso emocional, em contraponto a algumas fases que trazem muito mais foco na comédia.

As referências, claro, continuam bastante vivas na versão live-action. O grande destaque fica para trechos que citam Dragon Ball, Nausicaä do Vale do Vento e até mesmo um trecho inteiro com a presença de um enorme Mobile Suit de Gundam e também do icônico personagem Char Aznable.

Outra coisa que chama bastante atenção no live-action são as cenas de luta extremamente bem feitas. A grande maioria das lutas, principalmente as que envolvem Gintoki, tiveram um grande capricho na coreografia, lembrando inclusive bastante as lutas da adaptação para anime, com grande foco nos impactos e nos ataques ferozes de Gintoki, assim como também acontece no mangá original.

A atuação dos protagonistas foi outro grande ponto do filme. Shun Oguri (Gintoki), Kanna Hashimoto (Kagura) e principalmente Masaki Suda (Shinpachi) conseguiram reproduzir de forma excelente a essência presente nas representações originais dos personagens. Outra atuação muito boa foi de Kankuro Nakamura (Isao Kondo) que, apesar de não ter tido muito tempo de tela, foi bastante fiel a sua representação original.

Talvez o grande ponto fraco do filme esteja logo depois do clímax final. Uma luta contra o antagonista Shinsuke Takasugi é inserida nessa versão live-action, porém o peso que essa batalha carrega não consegue se destacar por conta dos acontecimentos anteriores e também pela falta de espaço para a introdução do lado emocional da relação entre Gintoki e seu antigo amigo ao decorrer do filme. Talvez fosse melhor pensar no conflito dessa relação em uma produção futura, como acontece na obra original e nas adaptações para anime.

A versão traduzida do Looke também pode atrapalhar um tanto a experiência do espectador por causa dos diversos erros de tradução que por muitas vezes aparentam ter sido repassadas automaticamente por um sistema de tradução automática (e nem do japonês para o português, mas sim do inglês para nossa língua). Algumas escolhas frasais também incomodam bastante, apesar dos termos relacionados com a série, como a própria tradução do nome Yorozuya, não ter sido ruim.

Nesse trecho a personagem comenta sobre o uso exagerado da referência à ‘Nausicaä do Vale do Vento’ no longa, porém a frase, mesmo no contexto, não faz sentido. Algo como “Não estamos cruzando o limite legal, né?” poderia ter funcionado melhor.

O live-action de Gintama, no fim, consegue ser uma boa reprodução do que é a obra de Hideaki Sorachi, falhando só em alguns pontos que podem ter sido um tanto afetados principalmente pela dificuldade de repassar o non-sense do mangá para uma versão com atores de carne e osso. Como supracitado, o filme não serve como uma boa introdução, mas para quem já está preparado, é bem divertido de se ver.

O live-action já está disponível para ser visto no serviço de aluguel e compra digital do Looke. O anime de Gintama anteriormente já teve uma versão dublada lançada para a Netflix, porém esta foi removida do catálogo. A versão legendada da série está com todos os episódios lançados até agora disponíveis na Crunchyroll. O mangá original da série nunca deu as caras por aqui, mas quem sabe alguma editora cometa a loucura de se arriscar a obra algum dia (o que é quase inimaginável a esse ponto e considerando o número elevado de volumes).