Opinião: Até onde vai a Panini?

Uma reflexão sobre como a maior editora de quadrinhos do país vem se posicionando diante das recentes crises no mercado de mangás.

Se coubesse a um analista – desses que passam o tempo especulando sobre o mercado financeiro e a economia do país em canal de TV por assinatura – fazer uma análise sobre o atual momento do mercado de mangás nacional, diria ele, provavelmente, que esta louvável instituição está em crise. Na verdade são muitos os fatores que engendram esse momento de instabilidade que assombra o sistema editor-obra-público (tomando de empréstimo e parafraseando a formulação de Antonio Candido a respeito do sistema literário, coisa só um pouco comparável ao que a gente chama de mercado brasileiro de mangás).

Desde 2015, ano chave para entender os rumos que o país tomou desde o plano macro até às coisas menores como o nosso modesto mercado de quadrinhos japoneses, já tivemos algumas pequenas crises, as quais prefiro chamar “complicações” ou “sintomas” decorrentes de uma crise maior que atravessa o Brasil e que, como não poderia deixar de acontecer, chegaram até o consumidor de mangás da maneira menos sutil: o reajuste de preços. Nesses 4 anos, destaco dois episódios mais significativos:

1) A chamada crise do papel, quando leitores passaram a reclamar da qualidade apresentada pelos mangás das principais editoras nacionais (Panini, JBC e NewPOP), no segundo semestre de 2015. Fora a visível mudança na qualidade do papel, esse momento abarca também a questão do encarecimento e dos problemas de logística relacionados à compra do papel pisa-brite (o conhecido “papel jornal”), por parte das editoras. Daí chegamos à predominância dos papéis da família offwhite, que se tornou o preferido das empresas brasileiras para os lançamentos de 2016 pra cá (a respeito dos tipos de offwhite, recomendo a leitura do esclarecedor artigo do Biblioteca Brasileira de Mangás).

2) Mais recentemente, já em 2018, tivemos a crise de distribuição, que, dentre outras coisas, levou as editoras a uma reconfiguração em suas logísticas de distribuição – daí a drástica redução dos mangás enviados às bancas e a mudança na periodicidade dos novos volumes, por parte da JBC, e outras manobras, como a criação de uma loja física própria (caso da mesma JBC) e a loja virtual da NewPOP, por exemplo.

Esboçado esse panorama, passo enfim ao assunto dessa nota. Como em qualquer relação fornecedor-consumidor que se preze, pouco importa ao da ponta de cá, ou seja, ao consumidor, os motivos que levam o fornecedor a tomar medidas como o reajuste de preço ou o fim da distribuição em bancas de jornal. O que importa ao comprador é, em essência, ter a possibilidade de continuar adquirindo determinado produto. Para ilustrar: mesmo que Mob Psycho 100 deixe de custar R$ 13,90 e passe para assustadores R$ 19,90 (que, como bem assinalou o Mais de Oito Mil, é desproporcional comparado ao reajuste de outras séries que também tiveram acréscimo no preço de capa), o leitor espera continuar comprando os volumes de acordo com o lançamento de cada nova edição. Nada mais inconveniente, convenhamos, que deixar de comprar um mangá na metade e ficar, portanto, sem conhecer o desenrolar da história.

Aí chegamos num ponto embaraçoso. Não foram poucas as vezes que escutei editor prestar a seguinte queixa:

O primeiro volume de todo mangá é sempre o mais vendido. Os 5 ou 10 seguintes, vendem razoavelmente, mas menos que o primeiro. Depois do décimo, aí a coisa cai de vez e muita gente deixa de comprar.

Geralmente dita em palestras e eventos de anime por aí, a plateia costuma rir desse tipo de declaração, criando uma atmosfera quase pactual (peço perdão pelo exagero da imagem) que, em linhas gerais, transfere ao consumidor a culpa pelo insucesso de série x ou y. Acaba ficando fora da equação, portanto, um detalhe: a falta de logística das editoras que não oferecem ao seu público consumidor a possibilidade de continuar a adquirir os mangás que, pasmem, editores (!), ninguém deixa de comprar sem motivo.

Acontece que o título dessa nota já aponta, de saída, para o destinatário da mensagem. Refiro-me ao papel que vem exercendo no mercado a Panini Mangás do Brasil.

Quando estourou a referida crise (após os sintomas iniciais e os referidos momentos de complicação), em meados de 2016, percebia-se uma mobilização por parte das editoras nacionais que carregavam um enorme “E agora?” estampado na face de seus representantes. A cada publicação no Facebook, a cada Henshin Online da JBC e sobretudo nas palestras costumeiras, era visível a preocupação com a necessidade de lidar com os percalços impostos pela crise macroeconômica e até política que vivia (?) o país.

Daí as estratégias mencionadas: mudança de periodicidade, criação de lojas online e física para tentar suprir a saída das bancas, manutenção e ampliação do sistema de assinaturas etc. As editoras demoraram, mas entenderam que continuar do jeito que estava não daria certo. O dólar chegava na casa dos R$ 4,00 e o desemprego batia os terríveis 12%. O que isso tem a ver com mangá? Tudo. E as editoras sabiam disso.

No entanto a Panini optou por lidar com a crise de maneira distinta e, convém dizer, irresponsável. Enquanto JBC e NewPOP (pra ficar com as editoras que estão no segmento há mais tempo) optaram por adotar um sistema de racionamento, se permitido o termo, a multinacional italiana continuou a nadar de braçada.

Os dados dos gráficos abaixo permitem observações interessantes:

Comparando o número de volumes publicados no ano passado (os dados foram consultados no Biblioteca Brasileira de Mangás, que, vale mencionar, faz um trabalho hercúleo em relação à reunião de informações do mercado brasileiro), salta aos olhos a enorme disparidade na quantidade de encadernados publicados. As informações reunidas pelo BBM, e que você pode consultar clicando aqui, dão conta que a Panini publicou, em 2018, 245 edições de mangás, o que chega a incrível média de 20,4 volumes por mês. Desse total, 17 foram lançamentos, ou seja, séries inéditas no país, dando na média de 1,4 lançamentos por mês.

A Editora JBC, no mesmo 2018, publicou 93 volumes encadernados impressos (por questão de método, deixo de fora os volumes de mangás digitais, que giram em torno de 40 edições + as dezenas de capítulos individuais de séries como Edens Zero, por exemplo), obtendo a média de 7,7 volumes por mês. Dentre as séries que correspondem a esse número, 7 foram séries estreantes, chegando à média de 0,58 lançamento por mês.

A NewPOP por sua vez levou ao seu público 55 volumes no ano, número significativo para uma editora que até pouco tempo publicava seus títulos apenas em datas especiais, como eventos etc. A média, portanto, foi de 4,5 volumes por mês. Dentre os 55 volumes publicados, tivemos a estreia de 14 novas séries, dando a média de 1,16 lançamentos por mês (surpreendentemente maior que a média da veterana JBC, cabe ressaltar).

Os números levantados apontam para dados um pouco perversos para um momento de crise. Para o passo que pretendo dar agora, talvez a NewPOP sirva menos como exemplo. Explico: na contramão das suas duas maiores concorrentes, a empresa é a “caçula” e aproveitou o momento de instabilidade para ir se firmando no mercado. Vale destacar que a editora conseguiu, no último ano, estabelecer uma regularidade quanto à periodicidade das publicações, o que era o maior motivo de queixa do público consumidor.

Mais curioso é comparar as duas maiores, Panini e JBC. Comparado aos anos anteriores, 2018 foi um ano atípico para a brasileira (JBC). Quem costumava publicar cerca de 15, 16 volumes por mês viu o número cair pela metade (infelizmente não houve tempo de levantar com exatidão dados anteriores, mas a média da editora sempre variou em torno dos 15 volumes mensais). Já a sua concorrente multinacional manteve a mesma variação de 20 volumes por mês, o que causa espanto.

Mas o que é que aconteceu em tão pouco tempo? A JBC teria sentido mais a crise e a Panini, por ser uma gigante mundial dos quadrinhos e, portanto, ter maior aporte financeiro, estaria resistindo melhor à delicada situação econômica do país? Sim e não.

Não é novidade para a parte do público mais informada a diferença financeira entre as duas empresas. Nem vale estender-se nesse assunto. É bastante óbvio e natural que uma empresa como a Panini consiga resistir melhor a uma crise, dada a imensidão da casa editorial. No entanto chama atenção a visível falta de esforço em lidar com o problema de maneira responsável, tentando entender que o leitor pode e provavelmente tem outras demandas, não apenas o shounen de lutinha a 22 reais (pra ficar com a expressão mais usada pelo Mais de Oito Mil nos últimos meses).

É simplesmente incabível manter a engrenagem rodando na mesma velocidade que rodava quando o país se encontrava em plena tranquilidade econômica. Em momentos de crise, é preciso segurar as rédeas e tentar entender a situação do mercado. Lembro quando, em 2013, a JBC anunciou Diário do Futuro por R$ 13,90. Houve muita discussão, à época, de que o mangá, artigo dispensável na vida do brasileiro médio, estaria se tornando “artigo de luxo” (com todas as aspas, convém assinalar). Olhando agora, mais de 6 anos depois, ainda é difícil enxergá-lo assim. Mas tanto a situação se complicou, de 2015 pra cá, que o mangá se tornou supérfluo. E se, para quem já compra, algo é da prateleira dos desnecessários, para quem não lê e, por ventura, desperte o interesse, o mangá publicado no brasil é pouco ou quase nada convidativo.

Então, qual a solução? Não sabemos se ela já existe, mas os exemplos da JBC e da NewPOP poderiam ser úteis, embora demandaria à Panini uma ampla reconfiguração na periodicidade do seu vasto catálogo. As mudanças realizadas pelas duas editoras brasileiras foram feitas com o intuito de “ajudar” o leitor? Dentro da lógica de produção do capital, a resposta jamais poderia ser “sim” (lembre-se que editora é empresa, e empresa prima pelo lucro). Mas os motivos, que aliás renderiam um bom texto, não sabemos; fato é que o que chamei de racionamento veio a calhar na direção de dar mais fôlego pro público consumidor.

O problema da Panini, todavia, não se resume ao excesso, mas também à escassez. Isso porque, se por um lado a Panini é a editora que mais coloca título no mercado, a editora é também a que menos disponibiliza exemplares de suas obras. Como isso entra na conta? Sugiro ao leitor esperar alguns meses para comprar o volume inicial de algum mangá da editora. Se o leitor encontrá-lo, já pode se considerar pessoa de sorte. Se encontrar pelo preço de capa, use os números do valor em algum jogo desses das casas lotéricas. Ocorre, portanto, que há muita gente que, sabendo desse problema de tiragem, deixa de comer na janta pra conseguir comprar os volumes da Panini – coisa quase inconcebível quando falamos das séries de outras editoras.

E se for permitido usar a imagem homérica do calcanhar de Aquiles, diria que a Panini é atualmente uma criatura trípode. Não bastasse o excesso de volumes lançados em simultâneo e a baixa tiragem de seus títulos, há ainda um terceiro calcanhar que se torna mais fraco a cada dia: o setor de comunicação e marketing da editora.

Não é compreensível que uma empresa do tamanho da Panini marginalize a relação com o público consumidor da forma que vem fazendo, há pelo menos dois anos. A falta de divulgação, que antes era um problema no âmbito da expansão do número de leitores, chegou a um patamar maior: no último domingo, num evento em São José dos Campos, a editora anunciou três novos lançamentos para 2019, dentre eles o fenômeno – de 2015 – Food Wars, de Yuuto Tsukuda e Shun Saeki. O anúncio, no entanto, só chegou ao conhecimento daqueles que não tiveram a oportunidade de estar no evento ontem (25), por volta do meio-dia.

Esse episódio se soma a outros que apontam para o descaso com o canal de comunicação da editora com o público.  O mais grave, provavelmente, são as já habituais revelações das informações de seus títulos por meio de respostas nos comentários do Facebook (a esse respeito, o Mais de Oito Mil tem um texto excelente).

Por fim, retorno ao questionamento que trouxe aqui e que é praxe em evento de anime por aí. “Por que será que meu mangá não tá vendendo?” Talvez seja necessário um momento de reflexão e não apenas por parte das editoras, cabe dizer, mas até da imprensa especializada que, hoje, não tem exercido o papel questionador que toda aquela que se quer imprensa deve exercer – e não restringir-se a garoto de recados ou garoto propaganda das grandes livrarias virtuais (o que, aliás, dá margem às empresas para que continuem a operar nessa lógica de produção excessiva e cara).

PS: Antes de ir embora, gostaria de pedir um parabéns atrasado a esse rapaz aqui que completou dois anos na semana retrasada: