Crítica: Carole & Tuesday (Episódios 1 ao 12)

Ainda que trate de um tema batido e defenda ideais discutíveis, Carole & Tuesday o faz com tanta empolgação, afinco e riqueza que pode entreter mesmo os que discordem destes.

Gosto bastante do trabalho do Shinichiro Watanabe. O considero um dos diretores mais interessantes do universo de animações japonesas nas últimas duas décadas, sendo um dos poucos que, comigo, o nome dentro das produções já é o suficiente para despertar, no mínimo, curiosidade. Em sua obra, existem, ao menos, três séries que considero clássicos contemporâneos: Cowboy Bebop (1998), Samurai Champloo (2004) e Space☆Dandy (2014).

Em comum, o trio de desenhos tem vários aspectos marcantes dentro da direção de Watanabe, como a construção de universo detalhada e imersiva (seja numa Terra sofrendo com o futurismo espacial, num Japão do período Edo mesclado com “urban” ou num contexto intergalático), a multiplicidade de personagens com várias camadas de cinza, trilha sonora marcante, inusitada e útil dentro da narrativa, e um certo humor ácido que ridiculariza o que está sendo contado, quase como se as próprias histórias não se levassem a sério.

Sua incisão na maneira de construir histórias é tão legal de acompanhar que, em suas mãos, mesmo temas sonolentos e batidos podem se tornar entretenimento garantido. Caso de Carole & Tuesday, seu mais recente produto, ainda em exibição no Japão, mas com sua primeira metade já disponível aqui no Brasil pela Netflix.

A trama se passa em Marte, que foi colonizada pela Terra e abriga uma sociedade tão evoluída e desigual quanto a humanidade poderia entregar em termos de distribuição de renda, justiça e oportunidades. Esse cenário é ampliado pela evolução e expansão de inteligências artificiais, que já ocupam vários setores do mercado de trabalho, não se limitando a tarefas braçais substituíveis, mas invadindo também os campos culturais. Nessa linha, há um boom de DJs, bandas e cantores que têm seus repertórios milimetricamente pensados e criados por computadores, que avaliam o que o público deverá gostar ou não.

Em tal contexto, acompanhamos as evoluções contrastantes de duas carreiras: a da ex-atriz mirim Ângela, que quer fazer sua transição de celebridade infantil para cantora adulta, apoiada por um imenso investimento financeiro e auxiliada pelo que de melhor há em produções de inteligências artificiais; e a da dupla Carole & Tuesday, formada por uma refugiada da Terra sem um tostão no bolso e por uma ricaça que fugiu de casa para seguir seus sonhos – o repertório é composto por ambas, tocado ao vivo, e carrega tanta “alma” que consegue conquistar o público sem a ajuda da tecnologia.

A ideia central defendida pelo roteiro é fácil de captar, sendo uma crítica à música “artificial” e uma ode à música “de verdade”. Esse não é uma tema inédito na cultura pop. Rapidamente, consigo lembrar do longa-metragem Mesmo Se Nada Der Certo (2013), onde uma compositora tenta dar certo da indústria fazendo sua música de maneira autoral, orgânica e independente, enquanto seu ex-namorado se torna um astro pop com o impulso de uma gravadora, e do episódio Rachel, Jack and Ashley Too (2019), da mais recente temporada de Black Mirror, com a participação da cantora Miley Cyrus, retratando uma idol pop escravizada pela tecnologia. Dentro do jornalismo musical então, é algo discutido de geração em geração.

E não é uma ideia que eu, honestamente, consiga comprar. Isso de a música “feita com a alma” ser melhor, superior a produtos pop de massa não me desperta muito mais que um rolar entediado de olhos quando pautado. Essas conversas costumam focar muito mais em preconceitos claros contra os ouvintes (racial e social, no caso de fãs de funk carioca; homofobia, com amantes de música pop norte-americana; e os exemplos seguem…) do que nos resultados que são entregues. Claro que isso é puramente pessoal, mas acredito que é necessário analisar o contexto a qual às músicas focam e se elas realmente são úteis dentro deles, se fazem bem no que se propõem primeiramente, antes de reclamar sobre artificialidade e exigir que o resto do mundo enxergue como “verdadeiro” o que consideramos assim.

Com isso em mesa, mesmo trabalhando em cima de um ideal que considero tão bocó, Carole & Tuesday o faz tão bem que é impossível não ser cativado episódio a episódio. Esse é um bom exemplo de anime cuja forma consegue se sobressair à temática, com a primeira vendendo a segunda mesmo aos que não enxergam interesse nela – caso deste que vos escreve.

Em todos os ciclos narrativos dessa primeira metade de temporada, o roteiro trabalha esses “opostos musicais”, passo a passo, de modo a vendê-los como “herói” e “vilão”. As criações da Carole com a Tuesday e a própria escalada da dupla é apresentada de modo natural, poético, com elas se esforçando para que cada composição venha ao mundo, sofrendo com os pesares de uma indústria difícil e atraindo olhares emocionados em suas diversas apresentações pontuais. Quando o foco vai para a Ângela e sua construção como cantora-produto, motivada por desejos pintados como fúteis, tudo fica mais frio, robótico, literalmente artificial, com suas canções sendo matematicamente boladas por computadores e suas habilidades como performer sendo formadas através da dor. Carole e Tuesday são mostradas como artistas de verdade, com um dom, outsiders que merecem ser reconhecidas em meio a tanta coisa pré-fabricada. Ângela é mostrada como um fantoche, como ainda outro movimento do sistema vigente para manter o status quo. Carole e Tuesday representam a música “de verdade”. Ângela representa a música “artificial”.

O fato de o “artificial” dessa equação ser, literalmente, artificial aqui amplia o sentido metafórico da ideia. O anime trabalha metáforas muito bem ao ampliar em tela uma porção de clichês da cena musical internacional, formando dele uma caricatura de críticas que os idealizadores parecem querer expor. Ri bastante com um personagem “DJ de pendrive” que não faz absolutamente nada por sua música, mas age como se portasse um conhecimento acima do normal nesse assunto. Aquela mulher cantando new age e, supostamente, conectada com o universo é uma sacada hilária. Aliás, as várias figuras bizarras de reality show que pintam no bootleg de American Idol são de cair o queixo, com os jurados inclusos nesse pacote. Somando isso à animação bem detalhada, o design de personagem criativo e todos os outros pormenores técnicos apresentados, temos aqui o que parece ser uma das séries mais legais das últimas temporadas.

Por ironia do destino, ainda que role toda essa construção para que o lado “artificial” seja entendido como o errado da balança, é inegável que a cena mais bonita de toda a série até então seja, justamente, onde observamos o plano “vilão” funcionar e a Ângela conseguir se sobressair na competição. Culpa de quem tiver selecionado a melhor música da trilha sonora para o lado oposto ao que está sendo defendido.


Esse texto foi escrito com base unicamente nos 12 primeiros episódios do anime Carole & Tuesday, em sua versão dublada pelo estúdio Som de Vera Cruz, com tradução de Luiz Tavares e direção de Leonardo Santhos, disponíveis aqui no Brasil oficialmente na Netflix.

Publicidade
close