Crítica | In/Spectre

Decepcionante, ‘In/Spectre’ até que parte de uma premissa interessante, mas dá trabalho demais ao espectador para ser “gostável” de verdade.

É interessante quando obras direcionadas a determinadas demografias se esforçam para não seguirem tanto os maneirismos relativos ao que faz sucesso nelas. Mas entre ser uma tentativa arriscada interessante que, de fato, dá certo no que se propõe, ou uma experimentação que não chega a lugar nenhum, há uma linha bem tênue.

Dentro da demografia shounen, gosto de usar Death Note como um bom exemplo de obra nessa vertente. É uma história, em teoria, voltada para o público masculino jovem, misturando ícones folclóricos sobrenaturais com os de romances policiais e do cinema noir, baseando seus episódios muito mais em textos, expressos em diálogos entre personagens, pensamentos ou monólogos, do que em ação propriamente dita. Foge ao convencional, mas ainda carrega elementos “acessíveis” o suficiente para agradar (e muito) dentro desse nicho.

Já In/Spectre, outro animê shounen, mais ou menos nesses moldes, exibido na mais recente temporada japonesa de inverno, passa longe de ter esse refinamento. A premissa é bem legal: uma jovem, Kotoko, após perder uma perna e um olho, se torna uma espécie de deusa ou sacerdotisa para criaturas místicas (fantasmas, yokais, por aí vai), que a contatam para resolver pequenos problemas que afetam o mundo dividido entre eles e humanos. Como ajuda, ela recruta (e se apaixona por) um universitário, Kurou, com dons sobrenaturais, cujas habilidades assustam até mesmo as mais perigosas criaturas que rodeiam aqueles locais. O problema é a maneira como ela é desenvolvida, oras funcionando muito bem, oras sendo insuportavelmente massante de assistir.

“Então, espectadores, o que acontece no episódio de hoje é que blá blá blá blá blá blá blá blá blá blá…”

Tal como em Death Note, o foco maior aqui está no texto. As tramas, em sua maioria, são traçadas não mostrando o que acontece de verdade, mas relatadas através de diálogos, hipóteses e planos dos personagens. Em determinados momentos, isso funciona bem, com o esse texto sendo utilizado de modo a tocar a história pra frente e brincar, com certa sagacidade, com a percepção do espectador daquilo que é passado. O primeiro episódio é excelente nisso (leiam o que escrevi à época da estreia aqui), com a dupla de protagonistas sendo desvelada tal como uma boneca russa numa discussão espetacular que toma metade de sua duração, mas parece passar em segundos, tão boas que são as viradas de mesa entregues.

Essa destreza é repetida, ao menos, duas vezes mais para frente: num episódio envolvendo uma cobra gigante e um corpo jogado num pântano, e em outro, onde Kotoko usa sua genialidade para desviar as especulações de um fórum online a respeito do assassinato de um policial que se tornou midiaticamente enorme. Esse segundo é bastante comentável: nele, acreditam que isso foi cometido por um espírito maligno, cujos boatos vinham se tornando populares dias antes. A menina consegue redirecionar as suspeitas para uma provável policial colega dele, tudo como parte de um plano que, a fim de evitar spoilers, prefiro não aprofundar aqui. Mas a grande sacada é que, na verdade, essa colega do assassinado, pra quem as atenções são enviadas, é uma ex-namorada do Kurou, que vinha ajudando-os nesse caso. E aí, fica no ar se aquilo foi feito por ser a opção mais viável ao plano no momento, ou por maldade proposital de Kotoko.

Só que esses momentos são exceções pontuais. Na grande maioria do tempo, essa fórmula “descritiva” é usada sem o menor propósito narrativo, dando ao animê um aspecto “contado e não mostrado” preguiçoso demais e muito cansativo de assistir. De certa forma, é como acompanhar alguém discorrendo sobre determinada ocorrência em palestras de vinte e tantos minutos em vez de, bom, observar o ocorrido – o que renderia um entretenimento bem mais divertido, caso posto em prática.

Mas algumas cenas são visualmente muito bonitas.

As coisas ficam ainda piores quando algumas gratuidades começam a aparecer sem o menor cuidado de construção dentro do roteiro. Em dado segmento, resolvem inserir uma prima do Kurou como grande suspeita de um caso em andamento. Isso aparece muito subitamente, sem qualquer contexto previamente criado, e é explicado com informações que os personagens já tinham, mas não foram mostradas ao público até aquele momento. É como se tudo fosse montado para enganar o espectador por diversão, sem muito cuidado para soar costurado quando visto como um todo. Dá trabalho demais relevar isso e aguentar o tanto de texto expositivo para curtir de verdade ao fim.

E isso consegue até mesmo ofuscar outros artifícios que são até bem executados num geral, como o bom desenvolvimento dos personagens, que são bem variados em suas personalidades, design e expressões dentro do que são utilizados – algo que se estende também aos cenários, bem detalhados, à maneira como usam a fotografia e os ângulos da câmera. Um apuro técnico caprichado embalando um material tão mediano.

In/Spectre é uma decepção. São tantos os bons elementos envolvidos que dá até pena observar o quão mal cuidados são os caminhos tomados com eles. De nada adianta uma obra partir de uma premissa tão interessante e ousar em seu formato se os que estão responsáveis por isso não conseguem tirar dela uma peça de entretenimento agradável de acompanhar.


In/Spectre é um animê dirigido por Keiji Gotoh (Endride), com roteiro de Noboru Takagi e produção do estúdio Brain’s Base (Durarara!!, Blood Lad, Servamp, Duel Masters!!). Ele é original de uma light novel com autoria de Kyo Shirodaira, publicada no Japão pela Kodansha, desde 2011, possuindo também um mangá, com ilustração de Chasiba Katase, da mesma editora, publicado nas revistas Shounen Magazine R e Monthly Shounen desde 2015, já com 11 volumes encadernados. Ambos são inéditos aqui no Brasil.

O texto abaixo leva em consideração apenas o que foi apresentado na animação, disponível na Crunchyroll com o áudio original em japonês e opção de legendas em português, não se baseando no que já foi entregue na obra original.

 

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