Crítica | Olhos de Gato (A Whisker Away)

Ainda que não reinvente a roda em momento algum, “Olhos de Gato” entretém com uma história adorável, referências bem aplicadas e uma virada alucinada que vale a espera.

Havia uma menina no colégio. Ela falava bastante, era super expansiva, atraía olhares por onde passava. E havia esse menino. Ele era bem menos, ahn, “notável”. Mal falava, mal chamava atenção na turma. Mas a tal menina se apaixonou por ele. E ele correspondeu isso, a abraçou como se fosse de sua própria família, a recebeu em casa algumas vezes, apresentou aos parentes, deu de comer. Gostava do cheiro dela, dizia que era como o sol. Confessou segredos. Em dado momento, até disse que amava. Uma fofura de relação.

Esqueci de mencionar: isso acontecia enquanto a menina estava transformada em uma… gata.

Miau! <3

É dessa premissa que parte Olhos de Gato (ou A Whisker Away), novo filme do Studio Colorido (dos recentes Children of the Sea e O Tempo com Você), dirigido por Junichi Sato (de Sailor Moon e Sailor Moon R) e Tomotaka Shibayama (Blue Exorcist), com roteiro assinado por Mari Okada (Anohana). Originalmente, o longa-metragem animado estrearia nas salas de cinema japonesas no dia 5 de junho, mas com a popularização do COVID-19, a produção ganhou distribuição internacional através da Netflix (sem dublagem por aqui, ainda pendente, também pela pandemia).

O filme é uma graça. Um belo pipocão adolescente, que mistura uma porção de clichês shoujo colegiais com uma certa loucura fantasiosa a la Hayao Miyazaki que demora pra acontecer de verdade, mas quando vem, torna a experiência uma viagem lisérgica que vale a espera. É como uma grande alegoria para a adolescência, onde os problemas ganham uma proporção maior na cabeça daqueles que vivem do que deveriam ter na realidade. Só que com consequências surreais, mas já chego lá.

Nele, a jovem estudante Miyo Sasaki, durante um festival tradicional do qual participava com a mãe, encontra um gato falante vendedor de máscaras, que lhe oferta um novo rosto, com a capacidade mágica de transformá-la numa gata ao tempo de uma cambalhota. Em sua primeira experiência como bichana, durante a explosão de fogos do festival, ela encontra o rapazote Kento Hinode, que a acolhe em carinhos. Nisso, a menina se apaixona e, como humana, começa a despejar seu amor nele durante a rotina escolar. O problema é que Hinode não sabe que ela é a tão fofinha gata com a qual ele passa seus fins de tarde, morrendo de vergonha das manifestações públicas de apresso que vem recebendo na frente de todos.

Dividindo o guarda-chuva com o senpai!

Olhos de Gato aproveita o gancho místico para trabalhar alguns esteriótipos de gênero duma maneira bem interessante de assistir. Nada no filme é realmente original ou fora da casinha, mas é tudo muito eficaz e divertido na execução. Aquele clichê onde um não consegue se declarar para o outro, por exemplo, é bem montadinho, de modo criativo, rendendo algumas cenas bonitinhas onde o garoto só se abre de verdade com a felina. Ou onde Miyo, em frente a uma porção de dificuldades e decepções, enfim decide deixar a capa de personagem propositalmente “escandalosa” de lado e ser sincera com seu sofrimento; Tem até a eventual cena do casal dividindo um guarda-chuva, só que feita quase que às avessas.

Ainda que não saia de um lugar-comum, o roteiro consegue estabelecer uma porção de subtramas e tratá-las com a profundidade que cada uma merece ao fim. Ele vai a fundo nos problemas de Miyu e no porquê dela preferir, naquele momento, se transformar em uma gata (não é só a falta de atenção do carinha, rolam problemas familiares, uma mãe desatenciosa, um pai que decidiu seguir em frente e também pensar em si mesmo, uma madrasta que é vista como intrusa, a opinião não pedida de vizinhos, o tratamento de colegas, por aí vai); também faz muito pelo que o Hinode vive, carregando uma relação esquisita de expectativas colocadas pela mãe, sonhos não realizados e a falta de capacidade para se abrir pra qualquer um que possa responder; para a melhor amiga de Miyu, colocada entre esse fogo cruzado dos protagonistas, há também uma imersão em suas motivações, nas matizes de cinza que guiam suas decisões e conselhos à protagonista, numa mescla de egoísmo e compaixão por ela.

Mesmo quando os personagens não exigem tanto aprofundamento narrativo, a história os presenteia com conflitos próprios de menor tempo em tela, mas efetivamente resolvíveis: a hilária irmã de Hinode que não consegue se declarar prum funcionário do ateliê de sua família; a dupla de bullies que atormenta os protagonistas na sala de aula; sobra desenvolvimento até para a gata de estimação da madrasta.

É tudo bem legalzinho de assistir, entretenimento leve e gostoso sem muitas pretensões na maior parte do tempo. Só que o grande trunfo aqui está no terceiro ato, quando a trama toda deixa de ser um romance adolescente com um pé na fantasia e se transmuta numa fantasia com um pé no romance adolescente. Após determinadas consequências de um ato impensado, a história ganha ares de thriller, misturando pacto fáustico, doppelganger e paranoia sufocante. Tudo num cenário viajado que remete a A Viagem de Chihiro em seu desprendimento à realidade e fascínio visual explodindo em cores, arquitetura disposta para perseguições de tirar o fôlego (aqui, adoraria ter visto em tela grande, no cinema) e esquisitices deslumbrantes nas caracterizações de personagens. Demora um pouco pra chegar, eu admito, mas é uma espera fácil e que recompensa o espectador.

Olhos de Gato não reinventa a roda em momento algum, mas também não é como se essa fosse a ideia. É um longa adorável no modo como trabalha seus clichês, seus personagens e seu plot maluco. Diverte como uma refeição fast food bem feitinha, confortável de repetir, gostosa em sua simplicidade. E quando resolve ousar um pouco mais, utiliza as referências corretas, entregando um bom entretenimento que vale muito o tempo dedicado.

Nota mental: daqui em diante, tomar cuidado com gatos de rua que levar para casa!

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