Crítica | Violet Evergarden

Valendo ser redescoberto, animê mostra a bonita evolução social de uma jovem anteriormente utilizada como arma de guerra.

Violet Evergarden é um daqueles casos onde, por uma porção de fatores, uma obra adquire um status bem mais (na falta de uma definição melhor) “culto” do que mereceria normalmente. E quais seriam esses fatores? Uma animação bem feita, explorando traços, cores e tonalidades fotográficas interessantes, que lhe atribui ares cinematográficos; um enredo fora das obviedades shounen adolescentes do dia a dia, “mais adulto” e, por associação equivocada, de suposta mais difícil compreensão; além de não carregar tantos maneirismos repetidos exaustivamente na indústria.

É bobagem caprichar visualmente para mascarar roteiros medianos? Perfumaria? Há quem acredite que sim. Entretanto, é preciso convir que, por vezes, são os pequenos pontos de diferença da manada que conseguem elevar um produto. Não sei se conseguiria qualificar como excelente, por exemplo, No Game, No Life sem o esforço de detalhamento que há em tela nos cenários, visuais de personagens e todo o entorno. Tampouco me divertiria com a atual The God of High School não fosse o investimento em fluidez nos seus momentos de luta, resultando em entretenimento visual de alta qualidade.

Dedicando uma atenção maior ao “visual”, junto com os demais artifícios listados, Violet Evergarden consegue se sobressair em meio a tantos pares. Agora com o distanciamento do hype gerado à época, tal qual um vinho, o desenho envelheceu muito bem, sendo uma boa pedida para quem busca uma opção mais sóbria dentre os animês mais recentes que ganharam distribuição internacional com o selo de “originais” da Netflix.

Baseada na light novel de Kana Akatsuki e Akiko Takase, publicada até então entre 2015 e 2016 pela editora KA Esuma Bunko (mas ainda em andamento após isso), em 13 episódios, a série animada foi produzida pelo estúdio Kyoto Animation (de K-On!, Dragon Maid, Free!, dentre outras), dirigida por Taichi Ishidate, saindo na temporada de inverno de 2018 – com exibição simultânea aqui no Brasil pela plataforma de streaming vermelha.

Violet precisa lidar com suas partes mecânicas, sendo uma autômata na sociedade que antes era tomada por arma na guerra.

Contextualizando, a trama se passa num período pós-guerra e conta a história de uma ex-militar de 14 anos, Violet, amputada, com próteses mecânicas nos braços, que começa a tentar a vida sendo escritora de cartas. Ocorre que, no exército, tal menina era utilizada como arma viva em campo de batalha. Agora com o fim do combate, ela aparenta não portar ou entender qualquer emoção humana, até ficando traumaticamente transtornada ao ouvir a frase “eu te amo” do superior que lhe servia de figura paternal antes do fim da batalha que encerraria a guerra.

O plot parte desse ponto para mostrar sua evolução como “ser social”, interagindo em sociedade, começando a aprender os significados dos sentimentos e a se expressar emotivamente. Essa não é uma ideia inédita, visto inúmeras variações já terem servido de engate para tantas outras obras nas últimas décadas. Dadas as devidas adaptações, podemos inclusive traçar um paralelo com a temporada Viva a Diferença, de Malhação, que está sendo reprisada atualmente na Globo. Na novela, uma das cinco protagonistas, a Benê (Daphne Bozaski), uma autista, também vive um arco de aprender mais sobre as emoções alheias e como se portar com novas amigas, saindo de sua zona de conforto, adequando seus sentimentos, exercitando empatia e por aí vai.

Quando bem utilizado, o gancho rende passagens bem bacanas e divertidas. Num dos episódios, Violet acompanha uma colega do emprego de escrever cartas até sua terra natal. Essa, omitia e mentia alguns fatos a seus parentes, de modo a parecer mais bem sucedida que na realidade, o que gerou cenas engraçadas ao colocarem a sinceridade inconveniente da protagonista em cena, desmentindo-a inúmeras vezes.

Todo esse aprendizado acaba servindo de fio condutor para os episódios, dando um sentido para que eles existam, mesmo que de maneira sutil. Existe uma evolução na personagem, um amadurecimento. A Violet do último episódio é diferente do robô vazio dos primeiros. A cena final, com ela explicando que precisou segurar o choro durante certo acontecimento, é bem tocante e ilustra a jornada de maneira correta.

Equipe do sistema de correios num dia normal de trabalho.

Claro, o animê também tem alguns defeitos. O roteiro opta por desenvolver a protagonista de forma bem lenta. Resultado disso: os dois primeiros episódios são bastante arrastados, as coisas só começam a acontecer de verdade após o terceiro. As mini-histórias episódicas são bacanas, mas podem cansar por tomarem fôlego demais. E com uma principal tão monossilábica e propositalmente inexpressiva quanto a Violet, são necessários coadjuvantes fortes para dar ritmo. Quando eles aparecem, funciona legal, quando não, admito que os minutos demoram um tiquinho a mais para passar.

Em algumas horas, rola também uma preferência de roteiro pela obviedade nas resoluções de problemas. Em um dos episódios, por exemplo, ela é contratada para escrever as cartas públicas de amor de uma princesa para um candidato a pretendente em outro reino. No início, somos direcionados a acreditar que haverá críticas ao costume monárquico de utilizar crianças em uniões políticas, a questionar se existe uma diferença de idade ideal para que casais fiquem juntos, se a vontade dos envolvidos conta nessa equação. Porém, a ideia morre do meio em diante, com a princesa se mostrando totalmente caidinha pelo cara uma década mais velho desde seu aniversário de 10 anos. Até faz sentido com o contexto histórico que parece servir de inspiração, não chega a ser ruim, independente de opiniões pessoais a respeito do assunto, mas é um caminho muito óbvio, quase “idealizado” e “adolescente” demais pra estética mais sóbria que vinha sendo construída.

De qualquer forma, nada é realmente trágico, que não dê para relevar quando levamos em conta seus momentos mais legais e o quão exuberante é seu visual em contrapartida. Violet Evergarden traz uma “embalagem” tão bonita que, ainda que o presente dentro não seja o mais transgressor de todos os tempos, sua apreciação é interessante e vale o tempo gasto revisitando ou dando uma chance pela primeira vez.


Violet Evergarden está disponível oficialmente na Netflix, com opção de áudio original com legendas e dublagem em português.

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