Coluna do Daileon#115 | Cybercop era a série tokusatsu mais inusitada da saudosa Manchete

Com efeitos especiais inferiores em seu tempo, os heróis do ano 2000 se destacaram na extinta emissora carioca pela alta qualidade da trama.

Hoje faz exatamente 32 anos da estreia de Cybercop – Os Policiais do Futuro (Dennou Keisatsu Cybercop) no Japão. No próximo dia 12 de outubro, completam 30 anos do lançamento deste clássico na extinta Rede Manchete. Foi uma série bem diferente de seus contemporâneos e perdurou na programação da emissora carioca por um bom tempo.

Cybercop foi produzido pela Toho, o mesmo estúdio que trabalhou com filmes kaiju como Godzilla. A Toho não produzia uma série tokusatsu para a TV desde 1979 com Megaloman, época em que produções do gênero kaiju estavam em declínio. Durante esse hiato, a Toho lançou The Return of Godzilla (1984; Godzilla 1985 nos EUA) para os cinemas japoneses, que mais tarde foi considerado como o primeiro filme do Rei dos Monstros da era Heisei (apesar do período imperial ter começado em 1989).

O cabeludo Megaloman foi o predecessor de Cybercop | Divulgação

Inicialmente Cybercop seria filmado em película, a julgar pelo episódio piloto que apresentava os heróis fazendo coreografias e poses de batalha similares aos heróis de Super Sentai. Felizmente o formato mudou, pois seria um mais do mesmo. Um problema gritante de Cybercop pode ser os (d)efeitos especiais que se tornaram uma de suas características. Foi uma das primeiras séries filmadas em vídeo (VCR), como economia em custos de produção. Mas isso não atrapalhou a experiência. Pelo contrário, acabou ajudando – de alguma forma – a apresentar um Japão com tecnologia mais avançada entre o final de 1999 e meados de 2000 – segundo a visão da época da produção. Antes, tivemos Andro Melos (Tsuburaya, 1983) nessa mesma qualidade de imagem, que era rara. Era comum ver produções do tipo com películas de 16mm para a TV e 35mm para o cinema, que eram consideradas como algo top de linha.

O título talvez não tivesse o mesmo impacto (pelo menos por aqui) se tais ajustes não fossem feitos. A filmagem, que deixava os efeitos capengas, foi compensada pelo roteiro carregado de situações do cotidiano. Os heróis tinham mais humanidade. Ou seja, se divertiam, tinham conflitos e ainda conciliavam tempo para salvar o dia (ou a semana) contra os androides da Destrap (Death Trap). Isso foi bem inovador numa época em que os heróis não tinham dramas particulares explorados. E isso chamava atenção tanto das crianças (o público-alvo) quanto os adultos. A Toei seguiu um caminho parecido com Jetman (1991), só que com estilo próprio e uma pegada mais sombria.

O mistério que impulsionava Cybercop era sobre o passado de Shiniya Takeda, um jovem que perdeu a sua memória e se apresentava com o codinome Júpiter, ao vestir sua Unidade Cyber. Foi o personagem mais explorado na trama em relação aos seus companheiros de trabalho. Seu braço direito era a policial Tomoko Uesugi, que tinha uma queda por ele. Akira Hojo/Marte, o líder da equipe, era praticamente um rival de Takeda e se tornou um dos maiores aliados na luta contra a Destrap. Durão, teve uma paixão pela vilã Luna, que aparece nos últimos episódios. A equipe também era formada pelo mulherengo Ryoichi Mori/Saturno e pelo corajoso Osamu Saionji/Mercúrio. Isso sem contar com outros membros do ZAC (Zero-Section Armed Constable). O departamento especial da polícia metropolitana de Tóquio era comandado pelo Capitão Hisayoshi Oda e pela secretária Shimazu Mizue. Seus auxiliares eram o operador de informática Daisuke Yazawa e a oficial de comunicação (e chorona) Miho Asakura.

O implacável Lúcifer em seu primeiro duelo contra Júpiter | Divulgação

Durante a série, aparece Lúcifer. Um misterioso guerreiro do futuro que pode vestir uma Unidade Cyber, sem a necessidade de usar uma cabine de transformação (como era o caso dos outros Cybercops). Inicialmente, ele era aliado da Destrap, por intermédio do Barão Kageyama, o verdadeiro assassino de seus amigos. Kageyama veio do futuro e se une à organização maligna liderada por um programa de computador chamado Führer. Com eles estavam os cientistas Dr. Ploid, Madame Durwin e Professor Einstein. Cada um deles comandavam os androides Garoga, Harkos e Ominous, respectivamente, para enfrentar os Cybercops.

Todo esse conjunto da obra se tornou atraente para o público brasileiro, que estava encantado com o filão que se iniciou com a vinda de Jaspion e Changeman no Brasil. Cybercop estreou no dia das crianças de 1990, em plena sexta-feira. Foram exibidos os primeiros 30 episódios, de um total de 36 (os dois últimos são especiais com os melhores momentos da série) e reprisados exaustivamente por mais de 4 anos. Com a saída de várias séries tokusatsu, Cybercop resistiu à saturação do tokusatsu na TV aberta ao lado de Kamen Rider Black, reprisado de dezembro de 1993 a julho de 1994. Após esse período, formou trio com Patrine e Winspector, que eram novidades por aqui.

Os Policiais do Futuro foram exibidos pela última vez, na tela da Manchete, no início de fevereiro de 1995. Os últimos quatro episódios (31 ao 34) jamais foram exibidos na TV brasileira e só tivemos acesso às suas respectivas dublagens graças a Nelson Sato, presidente da Sato Company. É que ele cedeu esse material anos depois para ser disponibilizado em coleções alternativas, feitas por fãs na década de 2000. Cybercop ainda chegou a ser exibido na CNT/Gazeta a partir de 2 de junho de 2000, junto com as reprises de Ultraman. Porém, as exibições iam até o episódio 18 e sempre voltavam para o início. Sua última exibição aconteceu em 2001, no canal Cinehouse, disponível apenas pela antenas parabólicas da Tecsat.

O elenco principal de Cybercop durante o anúncio oficial de lançamento | Divulgação

Fora isso, o título rendeu uma série de quadrinhos pela Abril Jovem, entre 1992 e 1993, contando histórias não-canônicas. Além de fitas em VHS, álbum de figurinhas, bonecos e outros produtos que séries de sucesso da época rendiam no mercado. E seguindo a rabeira do Circo Show de Jaspion & Changeman, Cybercop também seguiu o mesmo modelo, com apresentação das armaduras originais da série de TV. Quem era criança na época e ficava em casa no domingo à tarde, provavelmente viu os Cybercops no Domingo Legal, que era apresentado pelo saudoso Gugu Liberato no SBT (leia mais aqui). O Circo Show, inclusive, até ganhou uma reportagem para o Aqui Agora, extinto programa jornalístico da emissora de Silvio Santos. Ah, houve também um projeto de fazer uma versão nacional dirigida por Jayme Monjardim, mas nunca foi pra frente. Monjardim foi diretor das novelas Pantanal e A História de Ana Raio e Zé Trovão, ambas novelas produzidas pela Manchete em 1990.

Cybercop era o clássico japonês mais inusitado que já passou pela Manchete. Mesmo tendo uma filmagem fora dos padrões, serviu de “inspiração” para a Tsuburaya e até mesmo a Toei produzirem Gridman (1993) e Changéríon (1996), respectivamente, no mesmo formato. Os efeitos especiais nessa qualidade foram melhorando a partir do ano 2000 com as primeiras séries Kamen Rider da era Heisei. Por sua vez, a série da Toho tem o seu próprio charme e seu potencial é elevado com a ajuda da dublagem feita pela BKS (antiga AIC).  Bem como os efeitos especiais inferiores, a casa de dublagem tinha uma baixa qualidade de áudio (o som do microfone parecia sair do fundo de uma lata). Mas o elenco, cujo boa parte veio da dublagem clássica do filme De Volta para o Futuro (também realizada pela BKS), deixou uma marca na produção japonesa que é praticamente impossível de desassociar na memória afetiva. E a trilha sonora de Ichiro Niita também é inesquecível para quem vivenciou aquele tempo bom que não volta mais.

passou da hora de Cybercop voltar para o Brasil e merece um novo espaço, seja na TV ou em alguma plataforma de streaming.

PS: A série é referida como Cybercop no singular. No plural, apenas quando se refere aos personagens. ;)


O texto presente nesta coluna é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

Publicidade
close