Crítica | Dorohedoro (Netflix)

Candidato fortíssimo a animê do ano, “Dorohedoro” é um dos bagulhos mais lindamente desconfortáveis vindos do Japão nos últimos anos.

Seria Dorohedoro o grande animê de 2020? Pra este que vos escreve, ainda falta dar uma olhada em outros de maior engajamento que saíram em temporadas passadas, mas já adianto que deve ser difícil alguma outra produção se equiparar a isso. A adaptação do mangá de Q Hayashida feita pelo estúdio MAPPA e dirigida por Yuichiro Hayashi lindamente esquisita, grotesca, surtada, agressiva. Quase anárquica. E possivelmente ofensiva. Do tipo que, para o bem e para o mal, não consegue passar incólume ao espectador que lhe dá play.

Na trama, um grandalhão com cabeça de lagarto, Kaiman, perde sua memória e conta com ajuda da cozinheira Nikaido para investigar seu passado. A dupla mora no Buraco, um local sujo e perigoso onde feiticeiros vindos de outra dimensão praticam suas magias nos moradores, que, na melhor das hipóteses, acabam desfigurados nesse processo. Para reunir pistas, os dois caçam os bruxos que invadem o bairro, com o lagartão abocanhando (literalmente) suas cabeças para que, de dentro de sua garganta, um homem misterioso diga se eles são ou não os culpados pela transformação em réptil. Quando inocentes, o destino é, bom, morrerem nas mãos deles.

Com fome? | Reprodução: Netflix

Não que o enredo de Dorohedoro seja criativo. Histórias de amnésia em que identidades e segredos são revelados através do recolhimento de pistas são muito comuns. O lance é que isso é contado usando tantos elementos, (visuais, narrativos, roteirísticos) impressionantes que o argumento todo ganha um gosto a mais quando colocado pra apreciação. Um gosto desconfortável, amargo, mas que funciona, que fica na cabeça.

Visualmente, o design explode aos olhos. É como assistir uma zine punk dos anos 1970 animada. É uma estética suja, ultra detalhada e ligeiramente perturbadora, exprimindo bem a sensação de “sujeira” que alguns dos ambientes do Buraco devem possuir e, em contraponto, fazendo o mesmo em “limpeza” quando a trama é levada para o mundo dos bruxos. Enquanto o primeiro passa perigo, desconforto, medo, realismo chocante dentro de uma ambientação futurista distópica, o outro vende algo mais fantasioso, fabuloso, utópico. Um excelente paralelo entre o “bom” e o “mau” (que é destroçado quando percebemos que as coisas não são bem o que parecem). E tudo isso poderia ser uma verborragia desnecessária, mas a direção consegue também criar segmentos bem bonitos usando esses cenários como se tudo fosse uma grande pintura e os personagens se movessem pela tela.

Vai um cogumelo pro jantar? | Reprodução: Netflix

O uso do gore como truque narrativo é um dos melhores que assisti em tempos. Algumas das cenas são de virar o estômago. Há uma lindíssima onde alguém é transformado numa empada de carne gigante (que depois é comida) que dá agonia de lembrar. Um dos protagonistas tem a habilidade de picotar outras pessoas sem que elas morram, criando situações empolgantemente nojentas. E todos os momentos envolvendo cogumelos saindo de corpos são festivos de tão horrorosos. Essa não é uma violência gratuita, feita só pelo valor de choque. Serve sim para ilustrar o quão aterrorizante pode ser aquela realidade, para fortalecer a sensação de urgência dentro dos episódios e fazer com que, de fato, temamos pela vida dos personagens envolvidos.

O leque de personagens criados aqui também é excelente. Tanto pela criatividade em cada um deles, dotados de poderes diferentes e visuais arrojados, quanto pelas discussões que suas personalidades, camadas e conflitos próprios podem levantar ao espectador. Ao terminar de assistir, comentei sobre alguns pontos do animê com dois colegas e, ao fim, percebemos que nós três havíamos chegado em conclusões totalmente diferentes em relação aos dois núcleos principais: um deles achou que havia uma distinção clara entre heróis e vilões na trama; outro achou que todos ali eram mocinhos a seus próprios modos e que a maneira como aquele universo era gerido os fazia se comportar numa dinâmica de caçador e presa; e eu defendi que, na verdade, ninguém ali prestava de verdade, que eram todos “vilões” que escolhiam se aproveitar das piores maneiras possíveis das situações. Não sei se há resposta certa nisso. A graça está em consumir um produto que pode levantar tais discussões.

Reprodução: Netflix

Gosto demais da dinâmica “Pulp Fiction” do Shin com a Noi, servindo aquilo de pistoleiros sanguinários que tratam o trabalho com tanta naturalidade que gastam mais tempo conversando sobre amenidades enquanto o executam do que, de fato, se preocupando com essas ações. A pose palaciana do En é hilária de acompanhar, sendo o arquétipo da nobreza desgarrada da realidade levado ao extremo. As atitudes dele são as mais sérias e perigosas para todos, mas o próprio dedica sua atenção mais para atividades nababescas, como participar de bailes, sediar festivais, dirigir, roteirizar e estrelar seu próprio filme biográfico, do que o lance todo de dominação mundial.

O arco de fracassado sem poderes que precisa se esforçar mais para impressionar do Fujita é quase tocante (não fosse ele também um pretenso psicopata). Todas as gags humorísticas envolvendo a Ebisu são emocionantes de tão podres. O Dr. Kasukabe também é um personagem fascinante, inicialmente parecendo agir como um médico “adolescente” de boa conduta, que quer ajudar ao próximo.

Inseticidas costumam ser úteis em momentos assim… | Reprodução: Netflix

As boas ideias e bons desenvolvimentos para elas não ficam só nos personagens. Elas também são usadas em outros elementos, sejam eles úteis para tocar a história pra frente, ou apenas ilustrações de como um mundo naqueles moldes poderia funcionar. A ala do hospital dedicada ao tratamento de deformados por feitiços; as vassouras ultratecnológicas; os banheiros com descargas que queimam a sujeira com o fogo do inferno; as máscaras esquisitonas; as portas estilizadas que ligam os mundos; o contrato assinado entre duplas com os demônios abrindo o tórax dos bruxos como se abrissem um cofre; a própria anatomia diferenciada dos feiticeiros, com os poderes saindo de uma fumaça negra que circula por tubos nos membros e um tumor em formato de demônio preso dos cérebros. E as ideias seguem. Tudo muito legal de assistir e ir pescando quando se repete.

Enfim, Dorohedoro é espetacular. É um animê imaginativo, que impressiona do início ao fim, que não se prende a tantas convenções narrativas, não apresenta soluções fáceis e dosa legal os discursos politicamente mais questionadores com entretenimento puro e garantido. Será que 2020 dentro do mundo de animações nipônicas ainda fica melhor que isso?


Esse texto foi feito tomando como base os 12 episódios da primeira temporada de Dorohedoro, disponíveis na Netflix, com dublagem em português pelo estúdio Unidub.

Publicidade
close