Imagem: Kishibe Rohan com o indicador direito na cabeça. A imagem está envolta na moldura que o JBox usa para resenhas.

Crítica | Assim Falava Kishibe Rohan: A maestria como obra de terror

Apesar de não ser a visão tradicional do que acompanhamos em ‘JoJo’, o “bizarro” de Hirohiko Araki surge de outra maneira e bem executado.

Apesar de todos os elementos bizarros e que apelam para o próprio horror gráfico em JoJo’s Bizarre Adventure, eu não esperava que os OVAs de Assim Falava Kishibe Rohan seriam uma pequena seleção de contos de terror de Hirohiko Araki, ainda mais considerando que Rohan é quase uma representação do que Araki considera como uma versão sua dentro de sua obra (o protagonista é um diligente mangaká).

Kishibe Rohan é dividido em quatro episódios, cada um com uma história distinta. Os episódios não seguem especificamente uma ordem cronológica, mas sim um lançamento de alguns contos mostrados na história, que acontecem de forma episódica.

Os quatro contos que vemos no anime são “O Confessionário”, “Mutsu-kabe Hill”, “O Pedaço dos Milionários” e “A Aposta”. Apesar de serem bem distintos em questão de roteiro, eles possuem uma estrutura semelhante, contando ou não com uma participação mais direta de Rohan (apesar de, no geral, ele sempre ser uma figura presente).

Indo bem direto ao ponto, Kishibe Rohan é uma excelente coletânea de contos de horror. Os quatro OVAs lançados pela Netflix esse mês demonstram uma linguagem única bastante intrínseca com a abordagem do terror japonês. Tudo que vemos ali é comumente visto na literatura, cinema, videogames e, claro, mangás produzidos no Japão dentro do gênero.

Imagem: Homem sem cabeça e olhos do Kishibe Rohan (como se fosse um quadro de quadrinho).
Reprodução: Netflix.

Não é algo que visa em um primeiro momento o susto, o desgosto imediato por alguma cena. Ele visa a curiosidade, a observação de uma situação bizarra. Curiosidade e observação, inclusive, características importantes de Rohan não só no spin-off, mas também em sua aparição na obra principal de JoJo.

Apesar de Rohan usar de seu stand, que é capaz de observar e alterar memórias de um ser, o poder em si não é tão relevante pra história. O que fica nos holofotes são contos de terror muito mais assemelhados ao que conhecemos como lendas urbanas.

A cultura das lendas urbanas é sempre forte em diversos países, mas o Japão parece dedicar um grande espaço para isso dentro de sua produção midiática, algo que provavelmente está ligado com os youkai, seres sobrenaturais do folclore japonês que, se observados de perto, parecem histórias próximas de lendas urbanas – um animê que mostra isso de forma interessante é a versão mais atual de GeGeGe no Kitaro (2018-2020), onde vemos quase uma mescla das lendas modernas com as que já fazem parte do folclore japonês há milênios.

Imagem: Um ser estranho (parece um boneco macabro) segurando um prato com milho.
Reprodução: Netflix.

As quatro histórias têm elementos distintos. “O Confessionário”, por exemplo, nem mesmo acontece no Japão, mas sim na Itália. Ela se assemelha bastante mais ao que vemos em JoJo’s Bizarre Adventure em questão da demonstração do bizarro do que algo do folclore japonês, ainda mais pelo fato de usar bastante elementos cristãos na narrativo.

“Mutsu-kabe Hill” é uma história que não seria nada estranha se fosse escrita de forma semelhante por alguém como o renomado mangaká de horror Junji Ito. Nela, vemos um lugar amaldiçoado onde um homem que, mesmo após morto, não para de jorrar sangue e isso continua por anos e anos, influenciando até mesmo as próximas gerações que vivem no local.

Imagem: Mulher demoníaxa matando um ser humano magricelo, espirrando sangue para todo lado.
Reprodução: Netflix.

A terceira história é “O Pedaço dos Milionários”. Em um primeiro momento ela parece que irá se distinguir das duas anteriores, até pelo fato de ter uma grande participação de Rohan, porém no fim acaba se tornando subitamente assustadora quando uma estranha maldição é envolvida, esta abrangendo até mesmo seres sobrenaturais das montanhas.

Por fim, temos “A Aposta”, outro conto com envolvimento mais direto Rohan… porém não tão diretamente assim. Em um primeiro momento,  também não aparenta ser uma situação perturbadora, focando apenas em um ator e modelo que quer ter um corpo mais chamativo devido a sua profissão.

Porém as coisas ficam um tanto esquisitas a partir do momento em que ele começa a ser possuído. Mesmo com uma premissa que poderia ser só considerada como “um maromba muito perturbado”, vemos cenas um tanto aterrorizantes – particularmente, me lembrando o filme como O Grito (Ju-on no Japão), e também do mangá Fuan no Tane, de Masaaki Nakayama, grande obra do terror japonês.

Imagem: Um zumbi (?) escalando um prédio.
Reprodução: Netflix.

Apesar de serem histórias de terror, o tom de cada uma não chega a ser muito pesado. Elas contam com alguns aspectos gráficos talvez um tanto assustadores, mas sinceramente não fogem muito do comum do que vemos em outros animês que envolvem um tanto mais de sangue (ou possessão de corpos…).

Outro grande adicional de Kishibe Rohan é a perspectiva do autor, Rohan, dentro de suas próprias histórias. Existe até mesmo certa metalinguagem considerando que acompanhamos relatos do personagem com qual o próprio autor Hirohiko Araki mais se identifica e, felizmente, o que é repassado em cada conto são trabalhos estonteantes que poderiam figurar entre grandes nomes do terror nos mangás.

Assim Falava Kishibe Rohan estreou na Netflix no dia 18 de fevereiro, com os quatro episódios disponíveis de uma só vez, incluindo dublagem em português-brasileiro. Como citado, a animação é um spin-off de JoJo’s Bizarre Adventure, mais especificamente da parte 4 da série. Mesmo sendo uma obra associada, basta conhecer simples conceitos do universo de JoJo para acompanhar aos OVAs sem problema algum mesmo sem nunca ter tido contato mais profundo com a franquia.


O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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