Imagem: Hyoga segurando prancha de surfe e Sakura Kinomoto em montagem da Coluna Se Localizando edição 11.

Outras versões americanas das quais nos livramos | Se Localizando #11

‘Cavaleiros do Zodíaco’ sem sangue, ‘Cardcaptor Sakura’ sem romance e um desenho infantil transformado em coisa “estilo Adult Swim”: conheça mais adaptações americanas que não vieram para cá.

Bom, é enfim chegada a hora de continuarmos com a coluna da vez passada. Para quem não testemunhou o evento, eu comecei a falar de animês que tiveram versões pesadamente editadas na América do Norte, sendo que tais versões não vieram para cá; ao invés disso, recebemos versões menos editadas desses mesmos animês. Versões americanas das quais escapamos, por assim dizer.

Nós falamos sobre algumas obras do grande panteão internacional da Toei – Dragon Ball, Sailor Moon, Digimon… mas acabamos deixando para hoje uma outra em particular. Sim, ele mesmo: Saint Seiya, vulgo Os Cavaleiros do Zodíaco, que recebemos por aqui pela primeira vez na Manchete, em 1994.


Image: Os 5 cavaleiros de bronze em uma fileira.
Divulgação: Toei Animation.

Os defensores de Atena demoraram muito mais para chegar na terra do Tio Sam, fazendo sua estreia no Cartoon Network gringo em 2003.

Para começar, preciso falar da abertura da série: eu já esperava que fossem trocar “Pegasus Fantasy”, claro, mas não esperava que em seu lugar fossem usar… um cover de “I Ran” (música da banda A Flock of Seagulls) pela banda Bowling for Soup.

Nada contra a música, mas é muito incomum uma música pré-existente ser usada como abertura em adaptação americana; eu queria muito saber o que aconteceu aí.

A primeira versão norte-americana de Cavaleiros ficou a cargo da DIC, a mesma responsável pela localização de Sailor Moon, abordada na última coluna. Logo de cara isso já apresenta um grande desafio: a DIC não lidava com desenhos violentos, e Saint Seiya, como todos sabemos, é bem violento.

Digo, algumas das decisões relacionadas a isso foram bem de praxe: golpes excessivamente violentos eram cortados, nenhum tipo de violência era permitida nos flashbacks mostrando as versões criança dos personagens no orfanato, e ninguém podia falar de morte, com muitos dos personagens que morrem na história sendo poupados pela adaptação (menos o Mitsumasa, porque dane-se aquele velho).

Mas o mais marcante foi a solução da adaptação pras quantidades gargantuanas de sangue do animê. Apagar cada gota dele digitalmente seria bem custoso (ainda mais com o animê sendo tão antigo), e a série ficaria incoerente se cortassem todas as cenas que incluíssem sangue. Então, o que eles decidiram fazer… foi pintar o sangue de várias cores diferentes, e bolar várias desculpas para o que ele era.

Imagem: Cassius com sangue editado.
Cassius com o verdadeiro sangue azul. | Reprodução: Toei/DiC.

Enquanto os adolescentes espirravam sangue azul, verde, preto ou o que mais tivesse, em alguns dias ele seria “energia espiritual”, em outros seria “força mágica”, em outros seria só “suor”… sempre uma surpresa diferente. Como dá para imaginar, as lutas em “Knights of the Zodiac” eram uma experiência bem surreal.

Também infame foi o ajuste de personalidade de certos personagens… bem, em um personagem, realmente. Como muitos sabem, o sério Hyoga se tornou mais convencido, antagônico e jovial, e para expressar todas essas qualidades, ele ganhou um sotaque de surfista californiano que entrou para a História, com todas as gírias que vêm no pacote (“wicked!”, “radical!”, “dude!”). Ironicamente, o animê em si foi dublado no Canadá.

Como com Sailor Moon, as músicas de fundo também foram trocadas para soarem mais “modernas”, mas diferente da série de garotas mágicas, trocas de nomes foram até bem escassas. A mais chamativa foi a Saori virando Sienna (o “nome oficial dela quando se é preciso trocar”, tendo sido usado nesta dublagem, no texto original em inglês do Saint Seiya CG da Netflix, no futuro filme live-action e no mangá da VIZ).

Eu não mencionei isso anteriormente, mas tanto Sailor Moon quanto “Knights of the Zodiac” também incluíam novas transições de cena, produzidas via computação gráfica – uma tentativa de mascarar o fato dos desenhos serem bem antigos.

Essa versão só durou 32 episódios antes de ser removida da programação. Muita gente acha que todas essas censuras foram o motivo por trás do fracasso de desempenho, mas eu pessoalmente acho que a culpa está mais na idade do desenho – em 2003, depois que coloração digital já havia virado regra, um animê de 1987 na TV devia parecer ancestral, ainda mais Cavaleiros do Zodíaco, que é propositalmente feito em um estilo anos 70. Mas acho que nunca saberemos.

O interessante é, diferente de outros casos nestas colunas, “Knights of the Zodiac” não foi a única versão a ser lançada no mercado americano na época: ao mesmo tempo que a série era exibida no Cartoon, uma outra dublagem dela, sem cortes, era lançada direto em DVD pela distribuidora ADV Films, sob o título japonês “Saint Seiya”.

Basicamente, a série foi licenciada em duas partes: uma empresa ficou com os direitos de TV, e a outra, de home vídeo. A versão da ADV também não cobriu a série inteira, mas chegou bem mais longe, parando no episódio 60, no meio do arco das 12 Casas.

Felizmente para os (provavelmente não muito numerosos) fãs norte-americanos de Saint Seiya, recentemente a série foi adicionada à Netflix com uma terceira dublagem, essa também sem cortes e cobrindo a série inteira. Nada dos OVAs de Hades ou dos filmes dublados (apesar terem sido lançados legendados em home video), mas eu diria que a cavalo dado…

Imagem: Sakura e Kero em pôster.
Divulgação.

O outro caso extremamente infame que eu deixei de fora da última coluna foi a versão norte-americana de Cardcaptor Sakura, rebatizada somente de “Cardcaptors”. A nossa versão latina é bem fiel à japonesa (independente do que alguns conspiradores dizem), mas o caso na América do Norte, que exibiu uma versão editada pela Nelvana, foi mais… estranho.

O primeiro ponto é que os episódios foram bastante alterados e cortados, mais até do que normalmente se veria com a 4Kids ou a Saban. Em adição à típica troca de trilha sonora e nomes (Yukito virou Julian, Tomoyo virou Madison), o intuito era claro: cortar todo o romance de Cardcaptor Sakura, fosse ele controverso ou não, e focar exclusivamente na história de caça às cartas, no lado da ação.

Como dá para imaginar, isso resultou em vários episódios bem curtos, que eram compensados com longos flashbacks extras a episódios anteriores… incluindo a episódios que não foram exibidos.

Cardcaptors estreou em agosto de 2000 no bloco de desenhos do extinto canal The WB… com o episódio 8, que marca a estreia do rival de Sakura, Li Syaoran. Seguido pelo episódio 12. Que foi seguido pelo episódio 17. E o animê seguiu assim, exibindo os episódios que queria, na ordem que queria, até o final de 2001, fechando a saga de Sakura após… 39 episódios.

Imagem: Syaoran bravo.
O novo protagonista. | Reprodução: Madhouse.

Isso foi feito com dois propósitos. O primeiro era simplesmente pular os episódios com melosidade demais e ação de menos – mesmo resultando na Sakura capturando metade das Cartas Clow “entre episódios”, o que não é a melhor forma de vender a sua série de captura de cartas mágicas.

O segundo era dar mais proeminência ao Syaoran, dando mais foco aos episódios em que ele tinha maior participação; daí a troca do nome da série para o neutro “Cardcaptors”.

Essa decisão é um pouco exagerada na internet: quase todo site diz que Cardcaptors “transformou o Syaoran no protagonista”, o que é só… mais ou menos verdade.

A Sakura claramente continuava a protagonista, a história não foi alterada a esse ponto, mas a série foi vendida mais como uma aventura com dois protagonistas.

Mas a coisa fica mais estranha. Apesar de só 39 episódios terem sido exibidos nos Estados Unidos… todos os 70 foram exibidos em outros países falantes do inglês, como o Canadá e a Austrália. Mesma versão, mesmo elenco, mesmo nível geral de edição e alteração… só que todos os episódios.

Geralmente o que se acredita é que a Nelvana localizou todos os episódios, mas que os Estados Unidos escolheram só 39 para exibir. Mas eu tenho outra teoria: eu acredito que esses 39 tenham sido dublados primeiro, e depois os demais 31 foram editados para esses outros mercados.

Não tenho muitas provas disso, é só um palpite baseado em duas coisas: a primeira é que os demais 31 tiveram menos edições que os 39 americanos e foram traduzidos um pouco mais fielmente, e a outra é que a voz do dublador-mirim do Syaoran foi engrossando no decorrer dos episódios, e nesses 31 “extras”, ela está consistentemente grossa, sugerindo que foram dublados só mais tarde.

A série não fez todo o sucesso do mundo naquelas bandas, mas tem lá um americano ou outro que se lembra dela com bastante carinho… se bem que eu só consigo imaginar como é para essas pessoas pegar o original para ver; são mundos diferentes.

O animê nunca foi redublado, mas uma dublagem em inglês produzida na China para o mercado asiático está sendo comercializada atualmente. É de muito baixa qualidade, mas pelo menos, sem edições e sem alterações significantes.

Bom, até aqui, vimos exemplos de animês que foram editados para serem mais “desejáveis” às crianças (dentro do entendimento de gente velha sobre o que as crianças querem), mas para fechar, acho que vale a pena dar um exemplo contrário – um animê para crianças que foi retrabalhado para ser mais “adulto”.

Imagem: Personagens de 'Gakkou no Kaidan'.
Reprodução: Pierrot.

“Histórias de Fantasmas” (Gakkou no Kaidan) foi um animê que passou no nosso Cartoon Network em 2005. Para quem não conhece, é basicamente um Scooby-Doo um pouco mais sério, tratando das aventuras semanais de um grupo de crianças, mais um youkai preso no corpo de um gato, lidando com todo tipo de assombração que as cercam.

É basicamente um animê de terror para crianças, e a nossa versão latino-americana foi totalmente fiel à japonesa.

Nos Estados Unidos, a série, sob o título “Ghost Stories”, foi licenciada pela distribuidora ADV Films (a mesma da primeira dublagem sem cortes de Saint Seiya). A empresa claramente não tinha muita fé no potencial de vendas do animê em home video.

A versão mais popular do porquê disso é que ela teria achado o animê “muito medíocre”, mas eu pessoalmente só acho que ela não conseguiu negociar com um canal para exibir – porque é um daqueles desenhos que é assustador demais para um canal infantil americano, mas infantil demais para um Adult Swim da vida.

Mas a distribuidora japonesa declarou que eles podiam fazer qualquer coisa com o animê que o ajudasse a vender, e a solução da empresa foi transformar a versão dublada em uma paródia bem escrachada de si mesma, cheia de humor “adulto”, estilo South Park [disclaimer: as piadas podem não ter envelhecido muito bem].

Não fizeram nenhum corte visual ou mudança de trilha sonora, nem trocaram o nome de nenhum personagem, mas todo o roteiro original foi jogado pela janela e trocado por várias piadas de cunho sexual, religioso, político… todo tipo de “humor politicamente incorreto” que se pode imaginar.

Na época do lançamento, a versão americana não chamou muita atenção para gente “fora do meio”, mas com o advento do YouTube, ela ficou mais conhecida e ganhou vários fãs. E eu acho interessante que, dentre esses fãs, ouve-se uma certa frase com enorme frequência: “essa é a melhor dublagem de animê que existe”.

E eu acho isso fascinante. Basicamente é uma atitude de “o que fizeram com Sakura é inaceitável, mas o que fizeram com Histórias de Fantasmas é desejável”, sabe? Qualquer mudança ou erro de adaptação em um título popular é massacrado na internet, mas Ghost Stories é “permitido”. Hm.

As pessoas dizem que é porque Histórias de Fantasmas não era um animê “bom”, e, portanto, a dublagem teria “melhorado” a série. O que abre todo um leque de questionamentos: então só animês “bons” (sendo esse “bom” bem relativo) merecem respeito na hora de adaptar? A dublagem é perdoável porque a versão japonesa também está presente no DVD? Então desde que a versão legendada esteja disponível, a versão dublada tem permissão para fazer qualquer coisa?

Bom, eu não tenho resposta para isso, mas é interessante de se pensar. No todo, eu acho interessante ver como essas adaptações americanas que não vieram para cá despertam uma reação bem diferente nossa para com versões não-familiares para nós.

Um telespectador casual provavelmente não liga muito para as alterações que Yu-Gi-Oh! sofreu aqui, por exemplo, porque cresceu com a versão americana; e esse mesmo telespectador provavelmente acharia o que aconteceu com Cavaleiros ou Sakura um ultraje.

É muito louco pensar no quanto somos influenciados por aquilo com que “estamos acostumados”. Bom, coisa para refletir. Então, digam aí nos comentários: eu esqueci algum animê para estas duas colunas? (Sei que esqueci de Shaman King, pelo menos!) Você é pró ou anti-dublagem zoeira, a la “Ghost Stories”? Assim como eu, queria que “Knights of the Zodiac” tivesse coberto todo o anime, e filmes, e spin-offs? Mal posso esperar pra ler as respostas, e até a próxima!


O texto presente nesta coluna é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

Publicidade
close