Imagem: Os personagens de Salaryman's Club com roupa de trabalho (na verdade, começando a tirar a roupa provavelmente para se trocar), em enquadramento de resenha do JBox.

Crítica | Salaryman’s Club: Deixou a peteca cair

A perspectiva do setor de gestão de pessoas sobre o que é cooperatividade, diversão e amizade no ambiente de trabalho.

Ryman’s Club ou Salaryman’s Club é um drama em 12 episódios que conta a história de Mikoto Shiratori, um jovem prodígio do badminton, tendo que lidar com uma crise generalizada na sua carreira após um acidente em quadra.

Depois de ser demitido de seu antigo time, aceita uma nova oferta que quebra suas expectativas pois não se tratava de um contrato exclusivamente esportivo, tendo também que, paralelamente, trabalhar no setor de vendas da empresa de bebidas que produz o seu refrigerante favorito.

É à contragosto que concorda e gradualmente se adapta a esse regime misto, reencontrando colegas antigos e pessoas novas que vão ajudá-lo a se reerguer enquanto jogador profissional. Problemas antigos são resolvidos e novos surgem, rivalidades, inseguranças e expectativas, tanto corporativas quanto esportivas, ao mesmo tempo em que um senso forte de cooperação e camaradagem entre os trabalhadores dos diferentes setores vai sendo incorporada como elo entre esses dois ambientes.

E dado o teor da empresa, tudo isso acontece também com muitas bebidas, sejam alcoólicas ou não, e as situações que elas acarretam.

Imagem: Os assalariados bebendo e comendo em bar izayaka.
Reprodução: Liden Filmes/Crunchyroll.

A animação é frustrante e repetitiva para um animê mo qual o movimento é fundamental para dar peso e substância ao esporte que está sendo apresentado com tantos personagens que por ele fervem uma paixão lancinante em seus corações.

Todos os jogos são muito parecidos e o foco parece ser muito maior nos maneirismos e na estratégia do que na ação muda necessária de quem gosta de assistir qualquer esporte – o arfar, o atrito dos tênis com a quadra, os gritos, a sensação de esforço e velocidade, etc.

Mesmo que tudo isso de fato pode ser referenciando em momentos do animê (a presença desses elementos pode ser confirmável), nada disso é colocado de uma forma melodiosa, é como se houvesse um checklist de fatos essenciais e na medida em que existem, já é dado como suficiente.

Em Ping Pong The Animation, por exemplo, a tentativa de transmitir esse momento não se resume apenas ao retrato e ao recorte, mas de uma interpretação da combinação de experiências dentro desse fenômeno complexo (existe uma infinidade de coisas em jogo em qualquer acontecimento, basta que alguém se importe o suficiente para pensar sobre ele) que só é possível na medida em que a imaginação é aguçada e retirada do lugar pequeno de uma descritividade opaca e simplória.

Imagem: Personagem jogando badminton.
Reprodução: Liden Filmes/Crunchyroll.

Já nos conflitos que se utilizam, principalmente, das partidas e bebedeiras como momentos de manifestação, muito do que poderia ser dito sobre o sentimento de culpa é deixado de lado para dar ênfase a uma simpatia que acontece quase que no vácuo.

Tudo é resolvido muito rápido, tudo dá certo muito rápido, o drama nunca se concretiza porque nunca é dado tempo suficiente para uma maturação da situação, e são tantos personagens que, no fim, nunca há de fato uma sensação de aproximação com os problemas de cada um.

Além dessa unidimensionalidade dos personagens, refletida inclusive em características e situações com um teor totalmente arbitrário (a habilidade do protagonista de “ler” o comportamento das pessoas, o tique do companheiro de quadra, o problema no joelho do coprotagonista, o protagonista se arrebentando na rede, etc), o próprio papel de cada um é difuso fragmentário, dando a impressão de que a existência deles se autojustifica (não são utilizados como elementos para certos momentos pontuais), mas isso entra em choque direto com a falta de aprofundamento necessário para dar a ilusão de que esse ou outro personagem age de acordo com a sua própria vontade e não ao querer caprichoso da trama.

Nenhum deles de fato tem dúvidas inquietantes e construídas a partir de um panorama detalhado, tanto que nos monólogos internos a maioria dos discursos, se não todos, são grandes epifanias expositivas que, ao serem frases soltas ditas por marionetes, tiram a pouca sutileza que ainda poderia existir em algumas cenas.

Imagem: Peteca vindo em direção do protagonista, jogando.
Reprodução: Liden Filmes/Crunchyroll.

Os dois cenários, o trabalho e o esporte, não se ligam em nenhum outro sentido que não o da circunstância do time de badminton ser da empresa. E isso também entra no quão rápido os conflitos são resolvidos para dar lugar a outros: o descontentamento de Shiratori é apenas uma birra fútil facilmente superada e que não diz absolutamente nada de muito interessante nem do protagonista e nem do ambiente.

Por outro lado, a comédia ser fraca e com piadas sem nenhuma especificidade e ironia oportuna só é reflexo desse descuido generalizado na construção do quadro geral.

Acaba acontecendo um efeito dominó que vai tornando cada vez mais difícil recuperar tudo aquilo que não foi feito até então, acumulando um placar negativo que, mesmo acertando em alguma coisa aqui e acolá, não consegue chegar nem a zerar a coletânea de faltas.

Quando existem certas tomadas de partido mais ousadas, como num momento em que o protagonista xinga a pretensiosidade (extremamente caricata) do diretor executivo da firma, não tem nem uma fração do peso que deveria ter porque não foi construído, até então, nenhum tipo de clima para algo sério a esse ponto. Em nenhum momento se questiona ou se critica, em absolutamente qualquer sentido, qualquer coisa minúscula que seja da vida de assalariado, tornando impossível levar a sério quando algum personagem tenta ser porta voz de um conflito de poder. Tudo acaba caindo no mesmo cesto da picuinha.

É um enorme desperdício de premissa porque a princípio a ideia de falar sobre trabalho (no capitalismo) e esporte, pensar nesses dois regimes tão próximos da combinação de competitividade com inexistência de objeto próprio (ser melhor que o outro) parecia algo muito sofisticado, que realmente poderia propor configurações novas de certas relações de poder, mas isso infelizmente não consegue ir além de uma dicotomia boba sem qualquer tipo de consciência de classe, onde a ode por um certo coletivismo colaborativo é só um modo mais amigável e fraterno da mesma competitividade.

As figuras hierárquicas são somente envelopes de afetos simplificados cuja conexão com a própria posição se dá somente numa relação que fica pairando ao longe de qualquer tipo de acusação mais forte de problemas estruturais, a culpa de tudo sempre recai sobre a “ruindade das pessoas”. Do início ao fim faltou a coragem de não usar da “realidade” apenas como artifício de aproximação, para tornar a própria “base” como motivo forte de especulação e criação.


Salaryman’s Club foi exibido pela Crunchyroll com legendas em português de forma simultânea com o calendário japonês e toda a temporada está disponível no catálogo do streaming. A empresa fornece ao JBox um acesso à plataforma.


O texto presente nessa resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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