Imagem: braços do ricardo cruz segurando capacete do jiraiya.

Anime Friends RJ: clássicos ainda têm espaço entre o público, inclusive com os mais novos | Artigo

Evento reuniu diferentes gerações de otakus que são fãs de diferentes gerações de produções otaku.

Sábado, dia 16 de julho de 2022, umas três e pouca da tarde. O espaço em frente ao palco principal da Expo Mag, local onde ocorreu o Anime Friends no Rio de Janeiro, agrupa uma pequena multidão. Eles assistem a um painel com os atores Takumi Tsutsui, de Jiraya e Hiroshi Watari, de Jaspion e Sharivan, mediado pelo cantor Ricardo Cruz.

Em dado momento, um rapaz na plateia recebe o microfone e diz algo como: “sei que estou fora da faixa etária dos fãs, porque essas séries são de mais de trinta anos atrás, e eu só tenho 16, mas sou muito fã de vocês!” E a plateia, em resposta, começa a aplaudir.

O rapaz estava meio certo. É presumível que tokusatsus dos anos 1980, exibidos a partir do final dessa década aqui no Brasil, tenham como um público mais fiel a galera que estava lá naquele momento, que era criança ou adolescente, e cresceu com essas memórias, hoje nostálgicas. Mas não era exatamente só esse público que ocupava a pequena multidão.

Tal qual o rapaz de 16 anos, havia outros meninos e meninas que não aparentavam ter mais de 25 emocionados com o que assistiam. E havia crianças acompanhadas de seus pais e mães, que provavelmente lhes passaram o amor por essas séries. Como pais fãs de obras como Star WarsStar Trek e demais séries e filmes de tempos atrás transmitem aos filhos seus hobbies. Afinal, tokusatsus são produtos culturais, formas de arte, e podem encontrar apreciadores fora de suas respectivas gerações de exibição, tais como quaisquer outros produtos culturais.

 

E essa apreciação pode ser, também, de forma ativa dos novos fãs. Outro garoto na plateia, que não declarou a idade, mas também parecia bem novo, aproveitava para gritar tiradas espertinhas quando surgiam as oportunidades. Em uma história sobre pesca e jacarés contada por um dos atores, o menino dizia feliz: “e esse jacaré era igual a aquele personagem réptil de tal episódio?”, arrancando risadas dos que estavam ao redor.

Ao fim de painel, Tsutsui e Watari dançam e cantam com o Ricardo Cruz as músicas temas de suas respectivas séries. E a pequena multidão vai junto, com vários, de várias idades, esgoelando as letras — em japonês! — de forma catártica. Ainda ficaria maior.

Enquanto arrumavam o palco principal para a atração seguinte, o mestre de cerimônias pediu para que o pessoal se afastasse da beira do palco, pois precisavam colocar grades, já que uma equipe realizaria captações de vídeo ali.

Um cara altão do meu lado, com uma camisa do uniforme que a tropa do Freeza, de Dragon Ball Z, utiliza, reforçou o coro. Alguém mais afastado gritou pra tomarem cuidado, pois tem crianças ali. Mais gente chegava na pequena multidão, incluindo o que, acho eu, é uma família com uma mãe e duas filhas, bem novas, e uma delas estava com um cosplay da Kanae Kocho, de Demon Slayer.

Começa a atração: um show do projeto YUYU20, que regrava a trilha sonora em português do animê Yu Yu Hakusho. A performance começa com a abertura “Sorriso Contagiante”. O público entra em êxtase e canta toda a letra (cujo lyric video feito aqui pelo JBox é exibido no telão atrás, como num grande karaokê).

A empolgação segue durante as outras músicas, mas encontra um novo ápice quando, pro meio do show, o vocalista Luigi Carneiro anuncia a entrada da Matsuko Mawatari, interprete das faixas da trilha sonora original de Yu Yu Hakusho, que fazia ali no palco carioca do Anime Friends sua última apresentação ao vivo. Perto de mim, a mencionada cosplayer da personagem de Demon Slayer vibra: “acho que esse é um dos dias mais felizes da minha vida!”

(Nota: espero não ter atrapalhado esse que foi um dos dias mais felizes da vida dela, pois precisei levantar a câmera na frente dela algumas vezes para fotografar o show. Foi mal aí, cosplayer da Kanae!)

O público, que já estava empolgado com as músicas em português, agora canta as originais em japonês. E rola uma animação especial da parte deste que vos escreve quando começa “Geração dos Sonhos”, sua predileta da trilha sonora. Pode ser que ele tenha esquecido de tirar algumas fotos enquanto pulava cantando abraçado com mais gente na plateia? Ele jamais admitirá.

 

Mas já eram quase seis da noite e, do outro lado da Expo Mag, no Auditório Ultra, estava para começar o painel aqui do JBoxPlay na Memória com as animesongs brasileiras. No caminho, passo por mais pessoas de várias faixas etárias, com cosplays, camisas e demais adereços de diferentes produções de diferentes épocas. Jujutsu Kaisen, One Piece, Darling in the Franxx, Pokémon, etc.

Ao chegar, vejo que o local está com poucos lugares sobrando, pois exibem no telão um episódio dublado de Tokyo Revengers (provavelmente o maior sucesso que percebo em cosplays daquele dia no evento, eram vários, e de vários personagens). Nos bastidores, percebemos que o episódio chegou ao fim quando começa a tocar “koko de iki oshiete”, da eill, utilizada como tema de encerramento da primeira temporada.

Música essa que é acompanhada por uma parte da audiência, que, olhando por cima, me parece diferente da presente no palco principal: a galera mais velha parece ser menor, com menos da metade dos assentos ocupados por pessoas com uma aparência mais adulta.

Isso poderia ser preocupante num painel onde o tema principal era relembrar animesongs adaptadas para o português, costume que diminuiu bastante nos últimos anos com a migração dos animês dublados da TV para o streaming. Os otakus mais novos, que não consumiram tanto essas trilhas adaptadas, se interessariam por esse assunto?

E a resposta foi… sim! Quando os senpais Larc e Luis Afonso introduziram canções tema de animês já clássicos da época da TV aberta e fechada, como Pokémon, Digimon Frontier, Shurato, Cavaleiros do Zodíaco, Inuyasha, Yu Yu Hakusho, dentre outros, vários acompanhavam, aplaudiam, gritavam. Tinha gente que sabia a letra do encerramento de Tenchi Muyo!

As brincadeiras “Qual é a Música?” de completar a letra foram bem disputadas e renderam prêmios aos participantes, além de momentos icônicos, como o do rapaz que subiu a palco para cantar o tema de Inuyasha e não queria sair, ou um outro que ficou nervoso ao cantar o de Dragon Ball Z, mas foi abraçado pela plateia, que soprou a letra para que ele ganhasse o brinde.

O mais bonito, na opinião deste que vos relata, foi no final, quando exibiram um vídeo do Edu Falaschi cantando “Pegasus Fantasy” à capela no Rock in Rio de 2013, e a plateia do auditório resolveu também cantar o tema por si só.

 

Se o público deste primeiro dia de Anime Friends no Rio de Janeiro reflete o que é o público otaku aqui do Brasil na atualidade, é possível dizer que há espaço no coração dos fãs para obras de todos os tipos. E não há uma delimitação forte de idade para isso. Há adultos, jovens e crianças que podem gostar só de obras antigas, só de obras atuais ou de ambas.

E que bom que houve no evento espaço para todos esses gostos. As programações dos palcos ofereceram tanto atrações sobre temas mais antigos, como os painéis e o show mencionado, quanto outras com um apelo para quem curte atrações mais recentes, como painéis com dubladores de Jujutsu Kaisen e Tokyo Revengers, e dubladores famosos por si só com essa geração, como o Wendel Bezerra e o Guilherme Briggs.

Porém…

Isso não quer dizer que essa edição tenha sido perfeita. Tirando as atrações desses palcos, eram poucas as coisas para fazer dentro do evento. Havia alguns videogames, um espaço um pouco mais afastado para os fãs de K-Pop e meio que só isso.

A maioria dos produtos vendidos não eram tão acessíveis. Os quadrinhos, mangás e livros no estande da Comix estavam quase todos pelo preço de capa (ou seja, caríssimos), e quase tudo de comer era bem mais caro que o normal (tinha um food truck de salgados cobrando R$12,00 por um joelho de queijo com presunto menor do que o que compro por R$4,00 na faculdade).

Enquanto as atrações poderiam satisfazer públicos de diferentes faixas etárias e sociais, não acredito que uma galera mais nova e/ou mais pobre teria poder aquisitivo para consumir esses produtos sem isso pesar no bolso.


Vocês viram o Arara? Eu fiquei de encontrar ele no estande da Crunchyroll, mas só lembrei disso cinco horas depois, quando olhei o Twitter, já no metrô para casa. Como é o Arara ao vivo? Uma abraço, Arara!


O texto presente neste artigo é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.


POSSÍVEL CONFLITO DE INTERESSES: Apesar o redator Igor Lunei não fazer parte da organização e apresentação, o JBox apresentou um painel no Anime Friends Rio — citado na própria matéria — e contribuiu para o projeto YuYu20 com produção de material de divulgação, incluindo material em vídeo.

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