Coluna do Daileon#113 | ‘Kamen Rider Black’ deveria ter estreado com mais tempo e planejamento

Erros na reestreia na TV e entrave com a dublagem poderiam ter sido evitados com antecedência.

No momento em que escrevo esta coluna estou muito triste/chateado (assim como vários fãs) com a suspensão de Kamen Rider Black na Band. A edição já estava pronta e tive que fazer uma adaptação, pois o assunto seria uma análise do anúncio do clássico para a TV e principalmente sobre minha expectativa sobre o final inédito. Mesmo assim, quero fazer minhas considerações e, obviamente, tratar sobre esse assunto que ninguém queria comentar hoje. Seguirei a ordem cronológica.

Foram 26 anos, 1 mês, 14 dias, 18 horas e 56 minutos que separaram Kamen Rider Black da TV brasileira. A saga de Issamu Minami contra os Gorgom seria contada mais uma vez para o público nas manhãs de domingo da Band, logo após Changeman e Jiraiya. O anúncio pegou todo mundo de surpresa, obviamente. Esperava-se que o lançamento acontecesse primeiro na plataforma de streaming Amazon Prime Video.

Eu confesso que fiquei feliz e ao mesmo tempo achei estranho o lançamento quase repentino. Com o passar dos dias, pensei com os meus botões e cheguei à conclusão de que era uma boa oportunidade da Sato Company relançar a série. Mas como tudo que é feito a curto-prazo tem um certo preço, as chances de erros acontecerem foram consideravelmente maiores (ou piores). Ao que tudo indica, as falhas na estreia foram da Band. Não vou entrar no mérito pra tentar achar um culpado. Mas uma espécie de consultoria poderia ajudar, de alguma maneira, a emissora a não cometer os erros que aconteceram no dia da (re)estreia do Homem Mutante.

Uma coisa que ficou estranha foi a aparição do primeiro Kamen Rider na miniatura de anúncio da próxima atração. A gente até entende como as imagens de Bioman e Bicrossers foram parar nas fitas VHS de Jaspion e Changeman, no auge do sucesso. Sabe Deus como a imagem do primeiro motoqueiro mascarado foi surgir na emissora do Morumbi, mas o Sr. Black é inconfundível – se compararmos visualmente com o pioneiro.

Os sacerdotes de Gorgom | Divulgação

Outra coisa que não deu pra entender foi que a nova versão do tema de abertura, em português, cantada por Ricardo Cruz estava pronta e não foi ao ar. Segundo o que o próprio cantor comentou nas redes sociais, garantiram a ele que “estava tudo certo“. Pelo jeito, foi usada alguma matriz com o tema original.

Ainda sobre a exibição, não gostei do corte dos eyecatches no primeiro episódio. Quem me segue há mais tempo nas redes sociais, provavelmente deve saber que curto esse e outros tipos de detalhe e reclamei quando a Band fez isso nos primeiros episódios de Jaspion e Jiraiya, pois foram perdidas pequenas informações (continuidade, diálogo e coisas do tipo) enquanto passava a linha com seus respectivos títulos. Felizmente isso não aconteceu no segundo episódio.

Quanto às hashtags que surgiram, a primeira que a Sato Company havia oficializado no dia do anúncio para a TV foi #KamenRiderBlackNaBand. Até aí, tudo bem. Só que a emissora usou #KamenRiderNaBand sem combinar com a distribuidora. Tá certo que a primeira é extensa pra tela, mas não seria melhor ambas as partes terem entrado em consenso, com antecedência, em unificar a segunda, até por questão de praticidade?

Esse detalhe acabou seguindo por outro caminho. Pra acabar com uma certa polêmica (que particularmente eu não vejo como grande coisa), a distribuidora acabou mudando a hashtag oficial para #BlackKamenRiderNaBAND. Ainda assim, ela é extensa. Se for pra mudar, que ficasse a que foi ao ar na TV, pois atenderia todo o público. Particularmente, eu usaria a primeira que foi escolhida.

Eu até entendo a preocupação do sr. Nelson Sato com isso e também com os saudosistas que chamam o herói de “Black Kamen Rider”, como foi adaptado pela dublagem clássica. Mas uma mudança assim, tão repentina, é estranha, ainda mais pra quem conhece ele pelo nome original/oficial. Para nós brasileiros, nenhum dos dois nomes estão errados. Usaria a nova hashtag aos domingos, mas continuarei referindo a série como Kamen Rider Black. É assim que eu e outros produtores de conteúdo usamos há longa data, é mais próximo dos outros Riders e está até mesmo na nova canção em português. Mas é preciso ter cuidado também para um eventual relançamento de Cybercop para depois não acrescentar um plural inexistente no título.

Pela primeira vez em 29 anos, o tema de encerramento de Black finalmente foi exibido na TV brasileira | Divulgação

Apesar desses problemas, tivemos motivos para comemorar. Pela primeira vez estamos assistindo ao clássico com a imagem remasterizada em HD, o tema de encerramentoLong Long Ago 20th Century passou pela primeira vez na TV (a Manchete jamais exibiu) e os dois primeiros episódios foram lançados horas depois no canal TokuSato (ex-Tokusatsu TV) no YouTube. Por lá estiveram no ar o novo tema em português – que a Band não passou – e os previews dublados recentemente pelo narrador oficial Luiz Antônio Lobue. Essas conquistas compensaram os problemas na TV.

Originalmente, meu principal ponto desta edição seria o seguinte: a Sato Company e a Band precisariam estar muito bem alinhadas com a exibição de Kamen Rider Black para traçar um objetivo para que a exibição da série fosse até o final – com segurança.

A distribuidora ainda tem uma carta na manga que é o final inédito da série. Conferir a dublagem na TV seria uma experiência maravilhosa. Todos estariam reunidos em casa, nas redes sociais para celebrar esse marco que esperamos há muito tempo. Talvez o momento seria similar a assistir a um jogo do Brasil no final de uma Copa do Mundo ou mesmo ver o final de Dragon Ball Super em praça pública. A interação dos fãs nas redes sociais poderia impulsionar o final na TV, antes e durante a exibição.

Do contrário, a audiência poderia despencar. Lançar esse episódio via streaming antes da TV mataria toda a expectativa em volta do material inédito. Seria um erro fatal. Se a exibição seguisse até o fim (independentemente da possível mudança de horário), a Sato teria pela frente mais 25 semanas. Ou melhor, menos de seis meses. Tempo hábil para criar uma boa estratégia para promover a exibição do final jamais exibido pela Manchete. O sucesso da então pretendida 49ª semana do bloco dependeria de um planejamento minucioso.

Nesse caso, a exibição na plataforma de streaming da Amazon ou qualquer outra poderia esperar até o fim de Black na TV, para que a transmissão não perdesse o seu valor. É compreensível que as séries clássicas de tokusatsu entraram na programação da Band em caráter emergencial, como tapa-buraco. Só que o tempo e a audiência mostraram que elas são rentáveis e muito mais do que um mero suporte. Cada detalhe deveria ser analisado com cautela para que o ouro fique bem guardado a sete chaves, até ser entregue no tempo certo.

Issamu Minami ao lado do corpo de seu pai, assassinado pelos capangas de Gorgom | Divulgação

Kamen Rider Black tinha (ou ainda tem) boas chances de dar certo na telinha. Mas depois desse entrave com a dublagem que veio a publico na noite desta quinta (3), cheguei à conclusão de que o momento pra estreia da série acontecer não era pra ser agora. Poderia ser a vez de Flashman ou Jiban para substituir Jaspion, mas o Homem Mutante poderia voltar quando tudo estivesse pronto, nos mínimos detalhes.

Duas semanas foram um período muito apertado para deixar tudo pronto. E, por sinal, não foi um tempo hábil para fechar um acordo com o dublador que está reivindicando pelos direitos conexos (é justo). Mas isso é uma situação que deve ser acertada com muita paciência para que nós, fãs do herói, não sejamos prejudicados. Não é impossível de acontecer o consenso. Espero que isso se resolva da melhor maneira possível (embora não seja fácil).

Os episódios foram removidos do canal TokuSato (ex-Tokusatsu TV) no YouTube. Jaspion entra no lugar provisoriamente (agora sim como um tapa-buraco). Faz sentido porque, caso a situação de Black seja resolvida, ele volta para a programação. Foi o que aconteceu recentemente no Japão com o animê Digimon Adventure: que teve que ser substituído pelas reprises de seu antecessor, GeGeGe no Kitarou, durante o hiato causado pela pandemia da COVID-19.

Tudo era uma questão de planejamento a longo prazo, para evitar problemas, como disse acima. O que era apenas problema técnico, acabou gerando outro problema. Uma coisa que aprendi sobre administração (sou formado em gestão de RH) é que só se leva um projeto à frente se houver certeza ou tudo acertado. Se a resposta for não ou talvez, melhor nem seguir adiante. No caso de Kamen Rider Black no Brasil, é uma questão de se trabalhar com o tempo e formar uma boa estratégia.

Em tempo: hoje faz exatamente 32 anos do episódio 47, onde o herói foi vencido por Shadow Moon. Coincidência ou ironia do destino? O tempo vai dizer…

#VoltaBlack


O texto presente nesta coluna é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.

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