Um fenômeno iniciado há quase 10 anos parece estar tomando proporções cada vez maiores. As youtubers virtuais – mais conhecidas como VTubers – são aquilo que indica o nome: personagens virtuais produzindo conteúdo para o Youtube. Esse é um nicho de cultura otaku que vem se expandindo, seja pela pandemia (que certamente aumentou o tempo de consumo de YouTube), seja pelo sucesso que já vinha acontecendo.

Como quase tudo ligado ao entretenimento asiático, esse nicho cresceu graças à cultura de fã, com traduções amadoras especialmente japonês-inglês permitindo maior acesso ao conteúdo. Mas quem são essas VTubers? Onde elas vivem? Do que se alimentam? Descubra hoje, nesta coluna (quem me dera).


As pioneiras

Hoje quase indissociável das personagens nipônicas, a primeira VTuber também é, talvez de forma meio acidental, japonesa. Muito antes de Hololives ou Nijisanjis, Ami Yamato lançou seu primeiro vídeo em 18 de maio de 2011, na época em que ainda se usava o termo “vlogueiro“. Ela mora em Londres, mas nasceu no Japão.

Ami Yamato ao lado de GODZILLA (uma estátua).

Ami Yamato, a primeira VTuber. | Reprodução.

O canal da Ami, ainda vivo, segue um modelo de vlog mesmo, com a personagem contando causos, frequentemente colocando ela em ambientes do mundo real. Ou seja, os vídeos são pré-gravados em lugares reais e a “boneca 3D” é inserida depois, na hora de editar.

A personagem é uma pessoa um tanto confusa, que faz vídeos “que confundem as pessoas”, segundo ela mesma.

Ela se autodenomina uma “vlogger 3D”, embora seja considerada a primeira VTuber – inclusive, em entrevista à BBC neste ano, Ami respondeu que também queria saber o que é uma VTuber.

O canal dela conta com mais de 150 mil inscritos, pouco perto de algumas VTubers da moda, e o número de vídeos em 2020 está perceptivelmente menor, talvez pela dificuldade em gravar em locais reais durante a pandemia de Covid-19.

Barbie 3D em cosplay de GLaDOS, segurando uma batata.

A Barbie vlogueira é fã de cosplay e ‘Portal’. | Reprodução.

Não foi só a Ami que entrou no mundo do VTuber antes das “agências” japonesas de talentos virtuais. Uma figura muito conhecida que já está neste universo há 5 anos é a Barbie – claro, ela é conhecida por ter muitas profissões.

Desde 2015, o canal da Barbie possui um espaço para a “versão youtuber” da boneca, o Barbie Vlog, onde a personagem (e, às vezes, algum convidado do universo Barbie) fala, num geral, sobre coisas da vida.

Focado no público infanto-juvenil, o canal também não chamou muito a atenção por aqui, mas, de vez em quando, faz certo barulho na mídia americana, principalmente quando saem alguns vídeos abordando temas mais “politizados”, como racismo ou machismo.

A iniciativa parece seguir um movimento iniciado pela Mattel pelo menos desde 2012, com a estupenda série Life in the Dreamhouse, de fazer um rebranding da boneca, tentando afastá-la dos valores conservadores socialmente associados a ela, criando uma personagem mais despojada e espirituosa.

Digna de nota também é Any Malu, uma youtuber 2D brasileira, criada pelo Combo Estúdio em 2015 e hoje com série no Cartoon Network. Obviamente, a personagem também segue com modelos roteirizados e talvez não seja bem uma “VTuber”, já que o termo geralmente se refere a modelos em 3DCG, mas ela também segue um pouco o espírito da coisa.

Nós também tivemos a Eva Byte apresentando o Fantástico nos anos 2000!

 

Kizuna Ai

A primeira VTuber nos “moldes atuais” do fenômeno a chamar a atenção do público foi a Kizuna Ai. O canal dela, A.I. Channel, foi criado em outubro de 2016, mas o primeiro vídeo foi postado em 29 de novembro. Apesar de não ter sido a primeira, a Ai é uma grande pioneira de todo o movimento que viria depois.

Imagem oficial de Kizuna Ai.

Kizuna Ai, uma das primeiras VTubers japonesas a fazer sucesso no nicho otaku. | Divulgação.

Auto-proclamada a “primeira VTuber” e uma inteligência artificial, seus primeiros vídeos seguiam mais um modelo de vlog ou esquetes e ela era a única personagem presente em um espaço branco.

Isso fazia parte da “lore” da Ai, cujo objetivo era ter amigos para além daquela “sala”.

Já nessa época, havia vídeos focados em jogos. Em março de 2017, no entanto, o conteúdo de games foi para um segundo canal, o A.I. Games.

O universo da personagem foi se expandindo também, com aparição de novos “bonecos” (ou até figuras reais!) – Ai descobriu que a jornada pelo YouTube são os amigos que fazemos no caminho, como ela tanto queria.

Com boa aceitação entre o público japonês, em 2018 Ai já estava fazendo propaganda de salgadinho.

No começo de 2019, ela lançou um single, Hello, World. Foi criado um canal chinês para ela no Bilibili (o “Youtube” da China) e, há alguns meses, ela abriu uma empresa, a A.I. Kizuna Inc, responsável agora pelo gerenciamento de todas as suas redes (a empresa Activ8 é a criadora do conceito da VTuber).

Ainda em 2020, ela foi convidada para um festival de música online pelo DJ americano Porter Robinson (e a Miku levou décadas de carreira até poder ir ao Coachella…), além de já ter até chamado a atenção do famosíssimo youtuber (real) Pewdiepie.

A Ai também é das poucas, se não a única, VTuber cuja voz original já foi de conhecimento público. Recentemente, Nozomi Kasuga admitiu interpretar a personagem, mas a atriz aparentemente teve o papel substituído, causando certo mal-estar entre os fãs.

 

Hololive

A Ai foi uma das primeiras VTuber a atingir fama enorme dentro e fora do Japão, mas a Hololive é também central no “boom” dessas ídolas virtuais. A empresa é uma “agência de VTubers”, como se fosse uma agência de talentos, ligada à empresa Cover Crop, fundada em 2016 por um designer de jogos, Motoaki “Yagoo” Tanigo, de olho no sucesso de fenômenos como Hatsune Miku e Kizuna Ai.

Várias VTubers da Hololive.

Algumas VTubers da Hololive. | Divulgação.

A primeira youtuber virtual deles foi Tokino Sora, cuja “estreia” ocorreu em 7 de setembro de 2017 – segundo a “lore” da personagem, ela fundou a “agência”, aos 17 anos (pois teria nascido em 2000). Em seguida, veio a Roboco, em março de 2018. A ideia da Hololive, como indicado no nome, é de fornecer conteúdos em transmissões ao vivo.

Hoje, eles contam com uma infinidade de VTubers, inclusive algumas falando outros idiomas. Há mais VTubers mulheres, mas a Hololive conta também com uma “divisão masculina” e cada personagem tem uma personalidade e história própria.

A empresa teve um boom na China no ano passado, fazendo uma parceria para fornecer conteúdos também pelo Bilibili e agora está começando também no público que entende inglês. Mas a parceria com os chineses foi recentemente encerrada e as VTubers chinesas agora estão com “carreira independente”.

Inugami Korone em imagem promocional de jogatina de Assassins Creed.

Inugami Korone se preparando para jogar Assassin’s Creed. | Divulgação.

Já a unidade anglófona da empresa, a HololiveEN, anda se mostrando frutífera, com todas as artistas batendo pelo menos 400 mil inscritos nos canais. A mais “quente” delas, em questões numéricas, tem sido Gawr Gura, a primeira a chegar em 1 milhão de inscritos em menos de 2 meses após sua estreia.

Por aqui, andam tendo muito sucesso as VTubers da divisão (por enquanto apenas japonesa) de gamers, cujo conceito dos canais é fazer stream jogando – por algum motivo, todas as personagens gamers têm também temática animal.

A Inugami Korone, cuja estreia em seu canal próprio foi em abril de 2019, vem sendo um destaque, com maior foco em jogos retrô ou de nicho (especialmente games considerados meio “trash”), com mais de 1 milhão de inscritos em seu canal. Inclusive, Doom Eternal recentemente deixou uma leve referência à ela.

Uma curiosidade da Korone, para mim particularmente interessante, é que ela “mudou” um pouco de personalidade.

No começo, era quieta e reservada, mas foi ficando mais aberta e espontânea – algo que a própria reconhece, e agradece aos amigos e à Hololive pela mudança. Ou seja, desenvolvimento de personagem facilmente entra dentro da lore de VTuber.

 

Nijisanji

Tsukino Mito supostamente na escola.

Tsukino Mito, a maior VTuber da Nijisanji no momento. | Divulgação.

Outra empresa central no universo VTuberístico é a Nijisanji. A empresa começou em 2018 e hoje conta com mais de 100 VTubers, também se expandindo agora para o público falante de inglês, apesar de ter, por enquanto, mais sucesso entre o público japonês.

A maior “virtual liver” deles (é como eles chamam as streamers) é Tsukino Mito, com mais de 630 mil inscritos. Ela faz parte da divisão de VTubers do ensino médio (JK Gumi), tem 16 anos e é presidente do conselho estudantil, sendo, num geral, uma garota de “bons modos”.

A Nijisanji parece ter um foco maior atualmente nos mercados da Ásia, já em 2018 a empresa começou com unidades na China e em Taiwan. Atualmente, eles também têm unidades na Indonésia e Coreia do Sul. A unidade focada no público anglófono (Nijisanji EN) foi anteriormente denominada como Nijisanji IN (Índia).

 

Ufa!

Falamos até agora apenas das personagens ou empresas mais importantes dentro do cenário, mas, assim como fansubs nos anos 2000 foram centrais para a expansão dos animês, os fãs são quem “carregam” boa parte desse sucesso. É fácil perceber que a maioria das “artistas” bombando fala, majoritariamente, em japonês – mas o público nem sempre entende.

Acontece que nas lives há pessoas traduzindo nos chats (não tudo, obviamente), além de diversos vídeos compilando “melhores momentos” com tradução, tudo de forma “não oficial” (e nem remunerada, provavelmente).

Isso abre a questão: será que algum dia vai rolar uma VTuber com “tradução simultânea” oficial? Dublagem em outros idiomas seria algo possível algum dia, ou isso “corta” a graça da personagem ser supostamente real? Afinal, nenhum youtuber dubla seu conteúdo, exceto a Barbie pioneiríssima com vlog até em português.

Falando nisso, é certamente imenso o trabalho das atrizes (e atores) por trás dessas personagens. Ao contrário de uma “simples” dublagem, aqui parece ser um caso de viver uma personagem. Ficar umas três horas “interpretando” enquanto joga (ou assiste alguém jogar), sem sair do personagem? Ainda com certa frequência e tudo em pleno anonimato, para não “estragar” a graça?

É, literalmente, preciso saber respirar como sua VTuber. Claro, não são só elas, todas as pessoas envolvidas com os bastidores desses canais devem ter um baita trabalho.

Nozomi Kasuga, a talvez antiga voz de Kizuna Ai.| Divulgação: Via Livertineage.

Talvez, as youtubers virtuais sejam um desenvolvimento óbvio do fenômeno Hatsune Miku/Vocaloid. Aliás, a própria Miku aparentemente também virou youtuber.

É bastante divertido perceber também como as empresas sabem brincar com essa mistura real x virtual com essas personagens, inventando lores por vezes impossíveis no mundo real.

A impressão é que é uma mistura de seriado com reality show, você acompanha ali por vezes ao vivo, vai vendo o crescimento dessas youtubers, mas tem um quê de magia e fantasia.

Bem, personagens nas redes sociais já temos vários, essas pelo menos não escondem para ninguém que são “de mentira” e isso, talvez, seja muito divertido. Com tantas personagens e lores diferentes, com certeza tem VTuber para todos os gostos.


Agradecimentos especiais a Gabriel Flaquer pela ajuda na produção desta matéria.


O texto presente nesta coluna é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.