Imagem: Naruto criança meio apagado e Boruto em capa de artigo especial, com fundo em dois tons de azul.

‘Boruto’ ainda pode ser o “novo Naruto”? | Artigo

Boruto tem uma difícil missão: fazer frente ao sucesso estrondoso de seu pai. Será que a série consegue seguir com esse legado?

Quase dois anos após o final do mangá de Naruto, a revista Shonen Jump, da editora Shueisha, começou a seriar uma sequência para a história de um dos ninjas mais famosos no Brasil, BORUTO: NARUTO NEXT GENERATIONS (2016–).

Uma continuação com uma nova geração não era algo pouco esperado pelos fãs: a cena pós-crédito do filme Naruto: The Last (2014) já deu a dica do longa Boruto: Naruto the Movie (2015). O mangá foi uma ideia do autor Masashi Kishimoto, que chamou o roteirista do filme, Ukyo Kodachi, para escrever a série – ao menos, num primeiro momento –, e seu antigo assistente Mikio Ikemoto para desenhá-la.

É um pouco difícil saber se isso é algo que esteve amadurecendo por um tempo na mente de Kishimoto, ou se o envolvimento com o filme de Boruto o fez pensar que seria um passo interessante. Seja como for, Boruto veio aí. Mas é capaz de fazer jus ao sucesso de seu “pai”?


Vamos ser sinceros, quase 10 anos após seu fim, Naruto ainda é extremamente vivo e presente, ao menos por aqui. Em pleno 2021, a série levou o prêmio de Melhor Marca Jovem na Licensing Con. Estamos falando de uma marca que há mais de 10 anos não está mais nas TVs brasileiras – mas segue nos streamings –, e não teve sua fase final, Shippuden, dublada por completo. Naruto é um monstro. Um case invejável.

Imagem: Naruto fazendo "sinal da paz" com os dedos.
Divulgação.

É um pouco difícil para qualquer sequência conseguir fazer jus a um antecessor de muito sucesso, pois as expectativas não só são altas, como há uma gama enorme de gostos para agradar. O que cada pessoa gosta e busca em Naruto é diferente. E por isso, cada uma vai buscar algo diferente numa continuação.

Existem também várias formas de abordar o que é “fazer jus” – a deste texto não será sobre escolhas de roteiro. Com a entrada de Kishimoto como roteirista do mangá, entende-se que essa história é o que poderia haver de mais “oficial” de sequência, com todas as suas reciclagens. Então é a sequência, e ponto. Por isso, nossa abordagem será sobre força da marca: Boruto consegue reproduzir, ao menos em parte, o sucesso de Naruto?

Quando olhamos a situação no Japão, temos algumas coisas a considerar. Boruto não inventou a continuação por meio de novas gerações (oi, Dragon Ball GT), mas podemos ver algumas grandes séries que seguiram caminho parecido após o fim de Naruto. Tite Kubo meio que tentou trazer essa ideia quando acabou Bleach. Muitos spinoffs tipo Yashahime vieram por aí. Teria Boruto algum impacto em trazer de volta essa “moda”?

Imagem: Boruto em mangá dando um ataque.
Divulgação: Kishimoto/Ikemoto/Kodachi/Shueisha.

É difícil saber. Principalmente porque o mangá de Boruto não tem sido um hit estrondoso, daqueles que ficam entre os mais vendidos da Oricon anualmente.

A série saiu da Shonen Jump em 2019 e foi para a V-JUMP. Alguns dizem ser porque é mensal então colocaram de vez numa revista mensal. Mas não é tão simples.

Antes de mais nada, a Shonen Jump é um grande vitrine e é também a revista de mangás de maior circulação no Japão. Em 2018, a V-JUMP não tinha 10% da circulação da Shonen Jump. Sair de uma revista tão grande para uma revista tão pequena em números parece mais um “não vale a pena”, do que qualquer outra coisa.

Não podemos saber, claro, tudo por trás disso. Mas podemos especular que Boruto não vende o suficiente para “tirar o espaço” do outras séries com maior resposta mercadológica mas ainda vende o suficiente para a Shueisha deixar a série em uma revista classe B. No entanto, o animê segue no ar desde 2017 ininterruptamente – e animês só duram tanto se vendem.

Talvez Boruto tenha uma baixa resposta com o público leitor, talvez afetada por sua peridiocidade mensal, mas uma boa resposta com merchandising e audiência? É possível. Mas vale lembrar que os números de 2018 são de circulação impressa e provavelmente as crianças de hoje não leem tanta coisa impressa – talvez as views na Shonen Jump+ pudessem nos dar uma ideia melhor. É possível também que a série sirva como vitrine para manter novos produtos de Naruto vivos no mercado.

Imagem: Capa nacional de Naruto Gold.
Divulgação.

Aliás, existe uma coisa no sucesso de Naruto que o separa de fenômenos japoneses como One Piece: seu alcance com o público do exterior. Das quase 490 milhões de cópias em circulação de One Piece, pelo menos 400 milhões estão no Japão – isso é 81% lá contra 19% fora.

Naruto tem 250 milhões de cópias, com 153 milhões dela no Japão, as cópias no exterior correspondem à 39% do total. Só de exemplo, Naruto tem mais cópias na Alemanha que o número de gente na área urbana de Berlim (e um pouco menos que na área metropolitana).

Mesmo no seu auge, Naruto fazia mais ou menos a metade das vendas de One Piece em sua terra natal, mas conseguiu ter numericamente maior quantidade de edições no exterior, mesmo 8 anos após seu término: One Piece colocou 80-90 milhões de volumes em 58 países/regiões de 1997 para cá, enquanto Naruto colocou ao menos 97 milhões, em 47 países/reigões, entre 1999 e 2019. É bastante expressivo considerando a discrepância entre o total de cópias das duas.

Não temos esses números divididos desta forma para Kimetsu, mas das 150 milhões de cópias em circulação, mais de 100 milhões foram vendidas fisicamente no Japão segundo levantamentos da Oricon (seriam 66% do total) – como cópias em circulação incluem estoques em lojas e vendas digitais, presume-se que haja um número bem maior circulando dentro do país, eu suporia que pelo menos uns 75% está no Japão.

Só a título de curiosidade, não temos números de Boruto desde que o mangá passou 1 milhão de cópias em 2017, indício de que as vendas são medíocres ou ruins, ao menos no Japão. Sinal de que mangá realmente não é seu forte por lá, mas o animê quem sabe seja.

Voltando ponto do sucesso no exterior, talvez Boruto realmente siga o mesmo caminho de seu pai quanto ao público internacional. Na MANGA PLUS, a série tem 490 mil visualizações em inglês, número bem maior que as 83 mil de Kimetsu (isso inclusive reforça a pouca penetração com o público estrangeiro), acima das 347 mil de Jujutsu, e também na frente das 84 mil da reedição de Naruto – lembrando, esses são todos números das versões em inglês na plataforma.

Não temos números da Panini, mas falta de anúncios de reimpressões faz parecer que o mangá não vende tão bem assim no Brasil. Em comparação, Naruto já está em sua 3ª edição brasileira, com reimpressões e novels vindo por aí. Mas os fãs de Naruto no Brasil provavelmente se concentram em faixas etárias mais altas e eles podem pagar mais de 30 reais por um Gold. Ainda pode haver espaço para o filho do Naruto por aqui… ainda mais se uma mídia audiovisual ajudar.

Imagem: Naruto e Boruto em imagem promocional.
Divulgação: Pierrot.

Se o forte for o animê, Boruto também sempre parece figurar bem internacionalmente nos rankings de mais assitidos que a Crunchyroll divulga vez ou outra – não temos número para o Brasil.

De qualquer modo, parece ser uma série com certo sucesso contínuo com o público fora do Japão. Talvez com um público mais jovem: boa parte dos fãs mais antigos de Naruto aparenta não ter tanto interesse em Boruto. Mas aí não tenho dados para além do fato de ser da geração que baixava .rmvb dos episódios mais recentes.

Por fim, um outro indício que o forte de Boruto é mesmo a animação é sua qualidade técnica: comparado a Naruto, tende a ser bem melhor no quesito de produção. O fato de muitos animadores de fora do Japão trabalharem na série talvez também seja um sinal de que a mira dela é no público do exterior.

Considerando isso tudo, a estreia na Netflix pode ser um grande marco no sucesso da série por aqui (mesmo que sem legendas, apesar de conter também o áudio original). É bem óbvio que o streaming é um agente importante na manutenção da longevidade de Naruto – tem muita criança sem idade para ter visto Naruto na TV que é vidrada na série porque viu por lá (e alguns não tão criança, viu?). Então a Netflix pode ampliar o alcance e público dessa repaginação de uma obra conhecida e adorada por muitos, ainda mais em versão dublada.

O desafio real provavelmente vai ser cair no gosto dessa nova geração. Mas a performance na Crunchyroll parece indicar que há espaço para isso. Talvez Boruto não tenha feito jus ao tamanho do estrondo que foi Naruto…. mas ainda pode fazer. Mas, de verdade, qualquer história teria dificuldade em suceder esse legado.

Onde assistir:


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