No fim dos anos 1980, dois seriados japoneses com efeitos especiais (tokusatsu) foram transmitidos na TV aberta brasileira com estrondoso sucesso: Jaspion e Changeman. Não que esse tipo de produção fosse inédita por essas bandas — na década de 60 e 70, outros tokusatsu passaram na TV brasileira — mas a dinâmica das histórias de Jaspion e Changeman, juntamente com os efeitos e trilha sonora, era diferente de qualquer outra coisa já lançada por aqui.

Eles redefiniram o gosto dos “desenhos” favoritos no público infantil na época e em consequência disso, vários outros seriados acabaram sendo lançados no Brasil. A superexploração do nicho, falta de algum planejamento e a repetição das “fórmulas”, saturou o segmento e logo o ar de novidade foi se perdendo.

Assim, ou era um grupo de jovens com roupas coloridas ou heróis com armadura de metal. Entre os poucos diferentes que chegaram, um em particular chamou atenção por uma série de motivos. Seu nome era Black Kamen Rider (Kamen Rider Black no original ou ainda Blackman, como foi comercialmente tratado por aqui).

 

Henshin!

imagem: o black original.

Divulgação: Toei.

Enquanto no Japão o nome Kamen Rider já era bastante popular — graças a várias produções lançadas na TV de lá a partir de 1971 — no Brasil, o Kamen Rider Black foi nosso cartão de visitas à família dos homens-ciborgue (kaizo ningen em japonês). E que belo cartão! Mesmo se tratando de uma produção voltada para o público infantil, a carga dramática do seriado o tornava diferente de alguma maneira, proporcionando um tom único e, por que não dizer, memorável?  Quando esse tom foi alterado na continuação direta (Kamen Rider Black RX), que também chegou por aqui uns anos depois, muita gente levantou uma série de criticas  — embora o objetivo de vender brinquedos tenha sido devidamente atingido.

Aproveitando o aniversário de meio século da franquia Kamen Rider, a Toei Company realizou com grande pompa 3 anúncios: um novo filme (Shin Kamen Rider) para recontar a origem do primeiro Kamen Rider com direção de Hideaki Anno (criador de Neon Genesis Evangelion e diretor de Shin Godzilla; a primeira série de animê da franquia (FUUTO PI, disponível por aqui com dublagem via Crunchyroll) e por fim um reboot em formato de série para Kamen Rider Black — com o título de Kamen Rider Black Sun.

A decisão de fazer um reboot da história provocou grande excitação entre o público (ainda) fã da história original, com destaque para nós aqui do Brasil. Todas as novidades anunciadas em torno da produção até seu lançamento definitivo na plataforma AmazonPrime Video (em 28 de outubro) gerou grande ansiedade e muitas discussões.

A escolha dos produtores por um ar mais sombrio e maduro parecia atender os anseios de grande parte do fandom ao mesmo tempo que respeitava a visão do personagem criado pelo falecido Shotaro Ishinomori. Quando ainda vivo, Ishinomori criou o violento filme Shin Kamen Rider: Prologue, lançado em 1992 e em entrevistas, declarou que aquela seria uma visão mais próxima da sua ideia de Kamen Rider. Se na época o filme parecia controverso (ainda mais vindo depois do “alegre RX”) e não fez muito sucesso, hoje ele é considerado cult.

 

Política e tokusatsu

imagem: cena de protesto em black sun.

Reprodução: Toei/Amazon.

Quem teve acesso ao mangá original de Kamen Rider, publicado no Brasil pela editora NewPOP, pode conferir que a obra original de Shotaro Ishinomori possui camadas bem mais densas que a velha alegoria de luta do bem contra o mal que um seriado tokusatsu foca em apresentar. Inclusive a adaptação em português desse mangá gerou algum incômodo entre alguns leitores, conforme abordamos aqui.

Mesmo em Black Kamen Rider, é visto algum envolvimento da organização Gorgom com altos figurões da sociedade e políticos, mas essa subtrama perde espaço no decorrer dos episódios.

O que parecia interessante lá atrás assume um protagonismo no reboot. O teor do roteiro de Kamen Rider Black Sun é amplamente político e se edifica em questões atuais do mundo real como imigrição, preconceito, corrupção, excessos e negligência. O tokusatsu em si (ou seja: a fantasia e efeitos especiais) acaba ficando muitas vezes em segundo plano, considerando a forma como a trama é conduzida. E logo de cara, o diretor Kazuya Shiraishi faz questão de cortar todos os laços afetivos/nostáligicos que você tinha com a produção original, estabelecendo que você verá algo totalmente novo.

Vamos ter um Kotaro (Issamu em uma decisão  “desconfortável” da tradução de legendas em nosso idioma), um Nobuhiko; um Black (Sun… que virou San/Senhor em um equívoco da tradução brazuca da série original nos anos 1990) e um Shadow Moon. Contudo, esqueça a forma como tudo aconteceu lá atrás e libere sua mente para aceitar algo novo — que pode agradar quem sequer era nascido mais de 30 anos atrás.

imagem: black e shadow moon lutando no clássico.

Divulgação: Toei.

A série começa em algum ponto do passado (na década de 50) quando testemunhamos alguns cientistas em meio a um eclipse solar realizando uma operação agressiva e violenta em duas crianças. Essas crianças eram Issamu Minami e Nobuhiko Akizuki. Os cientistas (pais dos pequenos) implantam metade de uma pedra (a cobiçada King Stone) na criança Issamu e quase que de forma instantânea o garoto sofre uma transformação, em meio a seus gritos de dor.

Após a abertura — com várias fotos que farão sentido no final da série — somos ambientados a um Japão atual no ano de 2022 (!). O país se encontra dividido entre odiosos nacionalistas de extrema direita e manifestantes marginalizados chamados Kaijin, que são, na verdade, mutantes vivendo em guetos disfarçados como humanos, e sendo constantemente hostilizados por muitos — ainda que o governo e a polícia tente controlar o ânimo entre os grupos. Quando irritados, os “disfarces” humanos dos Kaijin desaparecem em meio a muito vapor e eles mostram suas verdadeiras — e nem sempre agradáveis — faces.

imagem: granderei na nova versão.

Reprodução: Toei/Amazon.

Um incidente durante um protesto é o pontapé inicial que nos faz mergulhar em uma trama que oscila entre passado e presente para entender como Japão chegou na situação em que está. Conhecemos o partido Gorgom, que se coloca como um representante político dessas minorias desde o fim dos anos 60 (época em que o Japão vivenciou uma série de protestos estudantis que culminaram no nascimento do que historiadores chamaram de nova esquerda japonesa) mas que, nos bastidores, possui ações e intenções bem diferentes do que aparentam ser. Também conhecemos a jovem ativista Aoi Izumi, que luta pela igualdade de direitos entre humanos e Kaijins. Em sua primeira aparição, já vemos a garota discursando durante uma conferência da ONU.

É nesse cenário efervescente e decadente de um Japão contemporâneo que conhecemos o adulto Issamu Minami, um “coroa” bem conservado que apenas faz bicos como assassino de aluguel para sustentar seu vício em cetamina — uma droga que mantém o estado de anestesia do corpo, livrando o usuário de dores intensas.

Ele acaba aceitando o trabalho de matar Aoi, mas acaba salvando-a de outra tentativa de assassinatato, matando brutalmente um kaijin aranha, depois de fazer sua primeira transformação. A relação de Aoi e Issamu é estabelecida de forma um tanto rápida, mas esse elo é o que motiva o amargurado personagem a sair de sua “paz” e bater de frente com os Gorgom — e posteriormente Shadow Moon.

 

Homenagens, acabamento e sentimento

Uma das piores decisões que alguém pode tomar antes de assistir ao reboot do Black Kamen Rider é revisitar a série original. Esse apego nostálgico é um tanto tóxico e pode comprometer a experiência. Inevitavelmente sua memória afetiva vai buscar conexões com o passado que podem ser desprezadas. Como é de se esperar de uma “produção adulta” de tokusatsu, o ritmo dos eventos em dado momento é arrastado. Que sorte que a série já foi lançada por completo pois os cortes entre um episódio e outro não são muito inspirados.

A ideia de visitar temas “espinhosos” e dimensioná-los como plot principal foi um acerto — associado à liberdade que uma série para streaming pode proporcionar. Já tínhamos visto uma repaginada menos infantil de um Rider em Kamen Rider Amazons (de 2016, também disponível no Prime Vídeo, mas solenemente ignorado no Brasil com relação à legendagem), mas em Black Sun isso vai para um patamar muito mais gore — com cenas viscerais que podem incomodar pessoas mais sensíveis. Há sangue, decapitações, violência física, morte, dor. Tudo isso para te envolver e aceitar as escolhas dos personagens.

imagem: políficos em black sun.

Reprodução: Toei/Amazon.

A outrora seita macabra Gorgom (impossível não se esquecer dos assustadores sacerdotes envolvidos em “lençóis brancos encardidos” da série original… maldita nostalgia!), perde espaço para um vilão humano muito mais terrível que qualquer monstro mutante ou kaijin: o primeiro ministro Donami.  Em dado momento, a década de 70 tem mais espaço que o presente e o papel de uma mulher chamada Yukari se destaca. Contudo, não fica muito claro se ela tem algum caso com Issamu ou Nobuhiko, ou os dois (rs). Atrevo-me a dizer que poderiam produzir mais uns episódios para explorar melhor essa época na série, bem como os eventos que deram origem à figura do Grande Rei.

A escolha para o elenco possui altos e baixos. Hidetoshi Nishijima entrega um Issamu/Kotaro muito eficaz. Não dava pra se esperar menos do ator que é um dos protagonistas do oscarizado Drive My Car. Sua atuação se contrapõe à quase caricata atuação de outros integrantes do elenco (especialmente os atores estrangeiros) e fica um tanto desequilibrada contracenando com Kokoro Hirasawa, que faz a garota Aoi Izumi. Outro ponto alto do elenco fica para o ator Lou Oshiba que fez um primeiro ministro tão ordinário quanto um político do mundo real.

imagem: aoi na nova versão.

Reprodução: Toei/Amazon.

Na mesma linha de “atuação convicente”, destaco o nome de Hiroki Konno, como líder dos protestantes contra os Kaijns. Impossível não vibrar com seu “destino”.

O design de personagens também possui altos e baixos. A opção por humanizar os Kaijin às vezes causa certa confusão quando “partes humanas” permanecem ainda visíveis. Daisuke Kobayashi, responsável pelo trabalho, gastou muito mais tempo nos protagonistas que em outros personagens. Com o personagem Taurus/Bilgenia, que se pergunta por que  sua “cara fica de fora” da couraça/armadura. Aliás, nem entendi direito que bicho ele é (de acordo com o guia oficial da série disponível no site oficial, ele é um kaijin peixe ancestral).

A opção por efeitos especiais mais práticos que o de computação gráfica — tão exagerada e criticada em produções tokusatsu mais recentes — tem seus acertos, mas também falha com uma “plasticidade” em certos pontos como no bizarro Grande Rei ou na forma mais “inseto” dos protagonistas. É quase como se nos obrigassem a lembrar que a série ainda é um Tokusatsu raiz e que isso é parte do charme do negócio.

Apesar das imagens promocionais apresentarem o visual final de Black Sun e Shadow Moon, os personagens ficam na maior parte do tempo em um “primeiro estágio”. Até certo ponto da trama os personagens se “ajudam”, mas as diferenças se acentuam de forma bem construída até que finalmente assistimos ao embate de ambos. E que embate! Um ponto que achei fraco foi a trilha sonora e os efeitos de som. A melancólica abertura até combina com a série, mas me remeteu aquela  musiquinha deprê da série do Incrível Hulk com o Lou Ferrigno.

imagem: kotaro e nobuhiko em poster de black sun.

Divulgação: Toei/Amazon.

Embora não recomende ter a nostalgia ativa na mente, é inevitável não identificar uma série de homenagens e “easter-eggs” deixados na série. A “cabeça” de vários monstros derrotados na série anterior são vistas várias vezes. Personagens marcantes como o “Monstro Baleia” tem espaço, mas seu desenvolvimento é um tanto confuso – bem como o do monstro Morces.

Os sacerdotes passam a maior parte do tempo como humanos e suas formas monstruosas, não chamam muita atenção. Pelo menos eu finalmente entendi que o Danker era um trilobita e a Pérola era um pterodáctilo. Na série old isso não era muito claro. A sequência de morte e ressurreição de Kamen Rider não tem o mesmo drama ou impacto que na série anterior.

Contudo, o personagem Taurus ganha mais visibilidade e até uma redenção no reboot – atendendo uma saciedade no desejo dos fãs das antigas. De todos os personagens, é Shadow Moon que se destaca (novamente). Nunca ficou muito claro na série antiga se ele possuía ou não as memórias de Nobuhiko. Era suspeito ele se recordar de sua namorada e irmã (Satie e Kyoko, ignoradas nesse reboot), mas não se lembrar de Issamu. Agora o célebre vilão tem um “henshin” e sua maldade é justificada. A memória afetiva sentiu falta do som de seu caminhar, mas… Dá pra viver sem. Da mesma maneira que você vai precisar deixar de lado a lendária “Patrol Hopper” — que até está presente, mas sem “vida” (literalmente) —  e aceitar a finalidade do Sabre Satã — que não fica em momento algum na mão de Shadow Moon.

imagem: taurus e black.

Reprodução: Toei/Amazon.

Por fim, não dá pra ignorar a presença e desenvolvimento de Aoi Izumi. A personagem é rica, mas o roteiro pareceu um tanto apressado pro valor e papel que ela desempenha. O papel do Grande Rei e a origem das King Stones também deixaram a desejar na explicação mas no geral, Black Sun é uma série que homenageia seu criador e é uma verdadeira catarse para quem sempre quis assistir uma produção mais adulta e violenta de uma das melhores séries Kamen Rider de todos os tempos.


Kamen Rider Black Sun está disponível com áudio original e legendas na Amazon Prime Video desde 28 de outubro.


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