Recentemente, a Crunchyroll adicionou ao catálogo a dublagem em português brasileiro do animê Given, originalmente lançado na temporada de outono de 2019. A adaptação foi produzida pelo estúdio Dubrasil, sob direção de Guilherme Marques e Jonas Falcão — uma surpresa interessante é que música “Fuyu no Hanashi”, do 9º episódio, recebeu uma versão no nosso idioma.

Given foi feito no estúdio Lerche, dirigido pela Hikaru Yamaguchi, e é uma adaptação do mangá josei de mesmo nome escrito pela autora Natsuki Kizu. Na trama, acompanhamos quatro rapazes, Mafuyu Satou, Ritsuka Uenoyama, Haruki Nakayama e Akihiko Kaji, que formam uma banda e dão os primeiros passos na cena underground de sua cidade, ao mesmo tempo em que observamos o desenvolver de sentimentos e relacionamentos entre eles.

Ao assisti-lo pela primeira vez essa semana, em sua maior parte na versão dublada, tive impressões mistas. Honestamente, a narrativa é açucarada demais para o meu gosto. O roteiro é montado sem muita fricção, então as coisas acontecem sem muita dificuldade. E como elas são fáceis demais, calha de o resultado, mesmo que bacana, não emocionar tanto. Nana (2009-2007) e Bocchi the Rock! (2022), para fins de comparação, são animês que entregam premissas parecidas, mas com execuções bem melhores (e mais estilizadas).

Mas apesar dessas fragilidades, Given ainda é uma série divertida, com personagens cativantes e uma cena de música bem montada no episódio 9 que vale a experiência:

Postas essas críticas quanto à obra como peça narrativa, para além disso, vale comentar que Given é um bom exemplo de retratação de bissexualidade masculina dentro de um animê.

Em tempo de mês do orgulho para quem tem interesse em se informar: na atual sigla que engloba expressões de gênero e sexualidade, LGBTQIAPN+, o “B” se refere a bissexualidade. Bissexuais, em resumo, são pessoas que se interessam não só por pessoas do gênero oposto (por exemplo, um homem se interessar por uma mulher, cis ou trans), como por pessoas de seu gênero (um homem que se interessa, além de mulheres, por homens, sejam eles cis ou trans).

Dentro da sigla, há também o “P”, que se refere a pansexuais, que incluem em seu interesse pessoas que expressam seu gênero de forma não-binária (seja se identificando com ambos os gêneros, feminino e masculino, ao mesmo tempo, ou não se identificando com nenhum) — a bissexualidade também abarca quem se interessa por não-binários (já em 1990, um manifesto bissexual publicado em inglês defendia que a bissexualidade não é naturalmente binária), mas muitas pessoas se sentem mais confortáveis se identificando como pansexuais, possivelmente pelo termo já deixar bastante claro quais os interesses afetivo-sexuais da pessoa ou por qualquer outro motivo.

Given traz alguns arcos que são interessantes para se pensar em bissexualidade masculina na vida real. Eles vêm a partir de três dos membros da banda e podem ser lidos como “fases” de entendimento e aceitação dessa sexualidade.

Partindo do nível mais inicial, temos o protagonista Ritsuka Uenoyama. Não há uma fala ou cena explícita que indique o interesse dele por garotas, mas podemos intuir a partir de algumas passagens que um começo de relação entre ele e uma colega de classe estava se formando. Relação essa que talvez fosse pra frente, caso ele não conhecesse o Mafuyu Satou.

Quando Uenoyama inicia sua amizade com Satou, o garoto parece ter o seu primeiro deslumbre de como é se apaixonar por outro rapaz. Ele se sente confuso, pensa no quanto está obcecado. Um dos segmentos mais divertidos da série é quando ele tenta, a todo custo, bolar situações para que o Satou e ele passem mais tempo juntos, mas uma série de coincidências faz com que isso não aconteça. Ao mesmo tempo, Uenoyama reluta com esse sentimento, de modo que volta a tentar interação com aquela colega de classe, talvez como um modo de se descobrir melhor.

Podemos dizer que num nível “intermediário” está o baixista da banda, Haruki Nakayama. O cabeludo tem noção há tempos sobre seus sentimentos pelo baterista, Akihiko Kaji, mas parece preferir, ou talvez se veja preso em, manter isso de forma platônica. E entre todos, é o que mais tem ressalvas quanto a demonstrações afetivas entre Uenoyama e Satou, ao mesmo tempo em que “joga verde” para ver se Kaji colhe maduro e corresponde seus sentimentos. Mais para o fim da trama, Nakayama diz para si mesmo que está precisando de uma namorada, assim ele poderá focar seu amor em alguém que poderá corresponder à altura (e possivelmente sem amarras sociais).

Por fim, Akihiko Kaji parece ser o mais maduro nesse sentido. Ele já passou pelo seu primeiro amor por um outro cara, e viveu ele, de modo que, agora, é amigo do rapaz, inclusive divide a casa com ele. É ele quem declara aos outros que não há problema gostar de rapazes, que ele já viveu isso, que é uma coisa boa, que deve ser celebrada e não reprimida. Na trama, é mostrado que ele dá margem a uma relação com a irmã mais velha do Uenoyama. Contudo, também tem interesse por rapazes.

Imagem: Personagens de Given no mangá.

A trama também traz, com uma boa sensibilidade, outros temas que são comuns ao universo bissexual. Em uma passagem, após uma noite de bebedeira, Kaji pede para pernoitar na casa de Nakayama. Numa cena, o baterista pula em cima do amigo e adormece em cima dele, que sai debaixo, o cobre e vai dormir em outro lugar. Essa é uma questão interessante a esse universo, pois discute sobre os limites entre o “jogo sexual” e a simples confiança mútua de uma amizade.

Kaji deitar em cima de Nakayama pode ser uma maneira dele dar em cima do baixista para que os dois tentem algo a mais naquela noite? Talvez. Porém, pode ser que não. Pode ser que fosse só uma brincadeira sem qualquer intuito do tipo feita com um amigo. Para que Nakayama descobrisse qual era a intenção, Kaji teria que estar acordado.

Em outra passagem, quando Uenoyama e Satou contam à banda que estão juntos, Kaji aceita sem qualquer ressalva, o que impressiona Nakayama, que questiona internamente a falta de piadas da parte do colega quanto a isso. Também é algo que dialoga com o lado de cá da tela, já que bissexualidade (e homossexualidade, e outras coisas que fujam do universo hétero) é encarada como chacota em grupos masculinos. Então, há receio de se abrir para amigos, pois as reações podem não ser as melhores.

Tem algum parente ou amigo bissexual, ou está descobrindo sua própria bissexualidade nesse momento? Assista a Given e entenda como representatividade em histórias pode ser boa para entender a nossa realidade.

Convido também às leitoras lésbicas, bissexuais ou pansexuais que deixem nos comentários recomendações de animês, mangás ou doramas que apresentem essa boa representatividade — o mesmo sobre pessoas trans e não-binárias.


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