Crítica | The Rising of the Shield Hero (Episódios 1 ao 12)

Sabe aquele típico anime que só fica bom depois de uns episódios? Parece o caso de ‘Rising of the Shield Hero’, não pela qualidade do que vem depois, mas em comparação com a ausência dela em seu início.

O texto a seguir pode conter spoilers dos episódios 1 ao 12 de The Rising of the Shield Hero. Esteja ciente antes da leitura.


Há um grande problema quando determinada coisa que estamos consumindo, seja um livro, uma série, novela, filme, quadrinho, desenho etc., só começa a ficar bom depois de uma grande quantidade de páginas, episódios, capítulos, tempo de tela. “O começo é ruim, mas engata mais pra frente, vale o esforço.” Acontece que, comumente, esse “ficar bom”, na verdade, se limita a simplesmente deixar de ser tão ruim quanto o que é feito no início, não necessariamente indo a mais que isso. E aí está um dos – entre vários – problemas de The Rising of the Shield Hero (Tate no Yuusha no Nariagari), um dos grandes animes em audiência e burburinhos dentro do nicho nessa temporada.

Baseado em uma web novel escrita por alguém que usa o pseudônimo “Aneko Yusagi” (o nome é feminino, mas não sabem se é uma mulher ou um homem por trás da publicação), temos aqui a história de um jovem chamado Iwatani Naofumi, que é invocado para uma dimensão medieval fantástica com aparência de videogame ao lado de outros 3 rapazes para que, juntos, formem um time de heróis que salvarão aquele lugar de uma série de ondas mágicas que vêm assolando os moradores ali, conforme contam as lendas passadas de geração em geração. Cada herói carrega uma arma na qual será especializado: lança, espada, arco e, no caso de Naofumi, um escudo.

No entanto, diferentemente dos companheiros, que declaram já ter tido alguma experiência parecida em suas respectivas dimensões com aquele mundo em termos de mitologia, estilo e ferramentas, Naofumi foi invocado imediatamente após seu primeiro relance nesse sentido, enquanto folheava uma light novel numa biblioteca que contava uma história parecida com a que ele estava vivenciando ali. Essa falta de controle da situação parece ser o engate para que todos ao redor o qualifiquem como inferior aos outros pretensos heróis, com seus colegas o menosprezando, além dos moradores da cidade e mesmo a corte real. O que se soma ao fato dele só poder utilizar um escudo, que não é uma arma ofensiva, ampliando ainda seu status de dependente. E as coisas ainda pioram para ele: quando o rei disponibiliza auxiliares para ajudarem os invocados a adquirirem experiência e poder, de modo que estejam mais preparados para enfrentar as ondas que surgirão, apenas uma menina se prontifica a acompanha-lo, já que todos os outros acreditam que ele não é capaz, preferindo os demais heróis. No entanto, essa auxiliar, na verdade, fez isso apenas para enganá-lo, acusando-o de estupro (o que é um crime grave naquela autointitulada sociedade matriarcal), manchando sua imagem perante todo o reino.

Essa sequência de acontecimentos injustos mexe com o emocional de Naofumi, que passa a adotar uma postura mais sombria, negativa, pessimista, agressiva perante sua situação naquela outra dimensão. Ele que, antes, enxergava aquele reino de videogame de forma mais aberta a possibilidades heroicas, agora, converte-se num anti-herói macabro, que vê na compra de uma escrava algo aceitável, como uma consequência do que o transformaram.

E eu, genuinamente, não poderia achar essa história de “o otaku reprimido, injustiçado e traído por todos que passa para o lado do mal e resolve dar o troco” mais idiota nem se tentasse. Mas o maior de todos os problemas nisso é que essa mensagem é muito mal vendida ao longo da série, com o roteiro se apropriando de uma porção de coincidências narrativas e facilidades que tornam a experiência toda muito fútil, rasa, pouco convincente.

Particularmente, não vejo como fator crucial para que algo seja bom ou ruim ele portar ideais que eu concorde ou não (se terei boa vontade ou estômago para ir atrás e consumir, aí já são outros 500). Por exemplo, sou a favor do investimento em produções que tragam heroínas não sexualizadas em todos os meios possíveis, ampliando o leque de representatividade ao máximo. No entanto, achei o recente reboot de She-Ra, da Netflix, um dos troços mais chatos já feitos pelo serviço de streaming, com uma história boba, personagens unidimensionais e ausência de qualquer fluidez no modo como a animação foi conduzida. Essa ampliação de opções ocorre bem melhor em outro desenho da plataforma, também adaptando aos tempos atuais uma personagem de anos atrás: Carmen Sandiego. Aqui sim, proporcionando um entretenimento escapista interessante e cativante do início ao fim, dando personalidade, camadas e todos os demais itens necessários para que sua protagonista brilhe, estendendo isso a todo o resto.

Do outro lado da moeda, posso citar No Game, No Life. Detesto esse fetiche nojento da caçula erotizada que desenvolve uma paixão com o irmão mais velho, tão representado em uma porção de animes e mangás. No entanto, é inegável que todo o resto retratado ali, indo da ideia principal até a construção de mundo, animação muito bem feita e demais atributos, acaba se sobressaindo, fazendo com que mesmo um anime que traga algo que não concordo seja reconhecível em minha cabeça como ótimo. Só que Rising of the Shield Hero não só não consegue vender bem essas ideias que consideram erradas, pois seu roteiro é fraquíssimo, como não dispõe de atributos suficientes para fazer dele aproveitável de qualquer maneira.

Os 4 heróis da profecia que, juntos, irão salvar aquele mundo.

A pior em todas essas ideias idiotas é a de banalizar o estupro como justificativa para a construção do papel de injustiçado do protagonista. Pois, além de insensível, antiético, desligado da realidade e ligeiramente patético por parte da autora (ou autor), é tão mal feito que acaba sendo só gratuitamente ofensivo. É demasiadamente pobre usar isso como a “gota d’água” em tal narrativa inicial. Honestamente, parece escrito por um pivete sexualmente frustrado mirando outros pivetes sexualmente frustrados. E falho, muito falho dentro do universo construído. É explicado que aquela é uma sociedade matriarcal, onde as mulheres dominam, inclusive colocam uma cena de exposição apenas para isso, onde não aceitam uma bebida de uma garota e isso soa “transgressor”. O que até justificaria toda a reação negativa ao garoto do escudo ser acusado de estupro, sem a chance de se defender, já que mulheres ali, supostamente, teriam a palavra final, estariam acima dos outros. Justificaria, caso todo esse ideal matriarcal fosse realmente executado em tela, o que não é. O reino é governado por um rei, com quase nenhuma mulher como guarda ou ocupando cargos de importância dentro da monarquia e demais papéis políticos ali. É um suposto matriarcado que só aparece quando é conveniente a alimentar o papel de injustiçado do protagonista. Mal escrito demais.

E se tal matriarcado até justificaria a reação inflamada da corte e dos demais moradores do reino, em nada ele faz sentido quando os outros 3 heróis invocados compram a suposta vilania do Injustiçado do Escudo, imediatamente taxando-o como o errado ali, sem sequer ouvir o que tem a dizer. Eles não agem com o distanciamento de quem vem de fora. Não faz sentido com a imagem mais sínica e arrogante que vinham construindo de modo a alimentar sua superioridade perante o Naofumi momentos antes, enquanto tratavam todo o ambiente como um jogo no qual eles já dominavam os movimentos. Mesmo porquê, a garota que se diz atacada, em questão de dias, perde todo o medo de seu alegado agressor, o tratando de maneira debochada em diversos momentos. Como isso não gerou desconfiança dos demais japoneses ali no grupo? Novamente, é só mais um recurso pobre de roteiro para forçar uma empatia às avessas com o protagonista.

Na verdade, muita coisa sem sentido acontece unicamente para que o público veja o Naofumi como um injustiçado, cujas ações negativas no futuro poderão ser justificadas tomando isso como base. A situação toda da invocação de 4 heróis, cada um com sua arma especial e necessária para, a seu modo, impedir junto dos outros as ondas de mal que virão, é jogada pela privada em vários momentos, pois o roteiro faz com que muitos dos personagens ignorem as próprias regras estipuladas nele diversas vezes. Na primeira apresentação dos heróis na sala do trono, o rei já desdenha do Injustiçado do Escudo, mesmo antes do episódio do estupro e de vazarem as informações de que ele não domina corretamente as ferramentas “gamers” daquela dimensão. E quando sua incompetência ganha o público, não faz o menor sentido que ele seja o único dos invocados a não conseguir nenhum auxiliar para “upá-lo”, sendo que o coerente seria, justamente, o contrário, o reino separar soldados que o ajudassem a subir de nível, pois ele não conseguiria fazer isso sozinho. Afinal, de acordo com a lenda, são necessários 4 heróis para que se obtenha sucesso. E quando é colocado que o reino só poderia invocar outro herói do escudo caso todo o quarteto morresse, não faz sentido que os 3 demais simplesmente o abandonem, já que deveriam estar cientes de que há mais chances deles serem derrotados sem ele do que conseguirem sobreviver sozinhos. É tudo muito fraco, mal escrito e com uma sensação inorgânica de que elementos do enredo estão sendo ocultados para forçar algum plot twist pouco criativo mais à frente.

A frieza do Shield Hero que está Rising.

E aí, voltamos ao que foi explicado lá no começo do texto, sobre coisas que “ficam boas” depois de um tempo, mas não sabemos se por, realmente, serem boas, ou se só melhoram em comparação a todos os erros cometidos até então. Depois de todo um primeiro arco envolvendo tudo isso listado acima (e também a compra de uma escrava que desenvolve síndrome de Estocolmo pelo Injustiçado do Escudo), Rising of the Shield HeroAté que melhora.

A opção por adotarem ares mais leves após as resoluções da primeira onda vem bem a calhar, combinando bem mais com o clima aventureiro daquele local que as pretensões sombrias e “adultas” de antes. O melhor episódio de todos nessa primeira metade é, ironicamente, onde eles ignoram todos os problemas anteriores. Nele, Naofumi, sua escrava e uma nova integrante do grupo (uma ave gigante que se transforma em humana) precisam completar uma série de “quests” que, ao fim, reunirão itens para que consigam adquirir um vestido especial que não rasga durante as transformações da criaturinha recém-chegada. Todo ele adapta muito bem o clima de uma aventura de RPG, com situações que levam a outras situações em prol de um prêmio maior. Excelente do início ao fim.

E alguns dos que vêm a seguir, com ele e seu novo time precisando resolver problemas resultados da arrogância dos outros heróis também são uma delícia de assistir (como a praga vegetal em uma cidade por conta de uma semente levada pelo cara da lança; a peste gerada pelo apodrecimento do corpo do dragão derrotado pelo cara da espada; e a ajuda aos refugiados gerados pelo golpe de estado influenciado pelo cara do arco). Nesse caso, vejam só, construindo de maneira inteligente e nada óbvia a imagem de renegado do Naofumi, visto com maus olhos pela sociedade, mas sendo o único que se prontifica a consertar os erros dos heróis admirados quando necessário – e bem pago. Isso lhe dá camadas, tons de cinza, imprime de modo sutil sua imagem de injustiçado. Sutileza essa que não existiu no início do anime.

Mas como gostar de algo com um ponto de partida tão terrível? Como classificar esses bons momentos tendo como parâmetro de comparação outros tão ruins? É impossível desassociar os pontos positivos dos negativos, pois a impressão final é que um depende do outro. O problema é que o que é legal em The Rising of the Shield Hero, honestamente, não consegue ser bom o suficiente para enfrentar o que há de ruim nele. E esses momentos ruins, olha, são intragáveis, angustiantes, risíveis, quase constrangedores.


Esse texto foi feito com base nos 12 primeiros episódios de The Rising of the Shield Hero. Aqui no Brasil, o anime é exibido oficialmente na Crunchyroll com áudio em japonês e opção de legendas em português.


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