Imagem: Kate com "asas" segurando Emilico, imagem está nos padrões de resenha do JBox.

Crítica | Shadows House: Tem algo errado nessa casa de bonecas

Com ritmo mais lento, ‘Shadows House’ conquista com seu ambiente cheio de mistérios e “tensão psicológica”, e uma protagonista aparentemente desconexa com isso tudo.

O animê de Shadows House chegou ao fim há alguns dias. Como já apontado na resenha do episódio 1, a série traz uma premissa um tanto peculiar: uma boneca-viva com aparência humana servindo como empregada pessoal de Kate, uma jovem de uma família nobre sem rostos, os Shadow.

Todo membro da família Shadow possui uma boneca (ou boneco) para chamar de sua (ou seu). Esses bonecos são supostamente seres criados pelo Lorde-Avô, o grande “chefe da família”, mas essa história vai cada vez ficando mais e mais estranha frente aos fatos, até chegar na grande revelação nos últimos episódios, um ponto talvez não tão inesperado para uma parte do público.

A presente resenha contém menções a algumas passagens ainda não adaptadas do mangá, mas não exatamente spoilers de seu conteúdo. São evitados spoilers importantes do animê, mas alguns pontos são abordados. Portanto, continue por usa conta e risco.

Imagem: Emilico e Kate, com a Emilico dizendo "Como pão pode ser tão bom?".
Eis a questão. | Reprodução: CloverWorks/Funimation.

O mangá de Shadows House tem um problema quando pensamos em adaptação em animê: ele é meio parado. Há capítulos e capítulos que, em tela, talvez sejam um tanto tediosos, mas com informações extremamente importantes para o worldbuilding da série. Para ter uma noção, são 6 capítulos apenas dentro do quarto da Kate, sem nenhum personagem além dela e Emilico.

A produção do animê deu a dica de como resolver isso logo no começo: juntar passagens de vários capítulos em uma mesma sequência, trocar a ordem de algumas coisas para fazer os eventos andarem mais rápido e omitir partes cuja importância só fica clara bem lá na frente.

Antes de ávidos fãs torcerem os olhos: a escolha funciona bem para deixar a trama mais movimentada. Temos então uns 46 capítulos condensados em 11 episódios – a partir da segunda metade do 11º, a animação entra num arco filler.

Esse arco foi provavelmente a solução encontrada fechar a trama sem apelar para um gancho (ou cliffhanger) – não há nenhuma segunda temporada confirmada, então precisavam de um ponto final minimamente aceitável.

Não poderiam parar antes dos eventos do capítulo 46 porque deixariam o espectador sem revelação mais central da história. O problema é que uma nova fase já é emendada no mangá logo na sequência, sem muito espaço para um fechamento numa adaptação.

Imagem: Emilico carregando Kate estilo Tony Hawk.
Ação, ação, ação! Os jovens querem ação! | Reprodução: CloverWorks/Funimation.

Então fizeram o Edward, o principal antagonista nessa parte, raptar Emilico para criar uma reta final com algumas emoções. É uma saída interessante, especialmente por ser divertida, mas pode deixar (como de fato deixou) alguns leitores do original um tanto frustrados.

Há quem saia correndo quando ouve o termo “filler”, mas este arco é bastante justo com os personagens. Se essa passagem ocorresse no mangá, provavelmente todos fariam algo próximo – ou igual – aos seus atos aqui. A única personagem a sofrer alguma mudança talvez seja a Kate – na animação, ela tem uma espécie de downgrade.

Vamos combinar, a Kate no mangá poderia ser descrita por um termo dos jovens de hoje: “OP” (de overpower, em português “poderoso além demais da conta”), pois ela esconde um baita poder e está quase sempre a frente dos passos dos outros. Embora com certa sorte em alguns momentos, num geral é precavida em um nível a deixar qualquer um impressionado.

Mas mesmo a Kate, com um calculismo tão acurado, tem seus pontos fracos. Aqui, ela não é tão diferente de quando é pega desprevenida no vindouro (espero!) arco da Rosemary. Quando a Emilico está em jogo, ela se desespera – é o que torna o relacionamento das duas tão bonito. Então mesmo parecendo “menos inteligente” e “mais descuidada”, não deixa de ter a tal “essência” da personagem ali.

O Edward talvez não fizesse algo tão descarado, ele é num geral um pouco mais discreto, mas quando implica com a Kate, é capaz de usar estratégias um tanto ousadas. Talvez mais cômodas e seguras de uma potencial retaliação de seus superiores, mas ousadas. Isso fica claro num dos arcos recentes do quadrinho, o “arco do café”.

Imagem: Edward na reta final de 'Shadows House'.
Reprodução: CloverWorks/Funimation.

O único fator realmente incômodo é a facilidade na qual Ricky e Lou superam uma certa coisa. Não é nem devido a como o fato ocorre no mangá, mas sim em comparação a como Emilico e Shaun passam pelo mesmo no animê – ela passa quase por uma tortura com água e ele apanha feio, enquanto Ricky e Lou simplesmente “resolvem” isso do nada. Essa passagem fica cômoda demais e, de certa forma, injusta com a gravidade do problema.

Mas, fora isso, temos um arco divertido e fiel à substância dos personagens e, por isso, não importa se é filler. Ele cumpre bem o papel de adicionar tensão a esses momentos finais. A maior questão então talvez seja que, depois desse evento tão intenso, tudo volte a estaca zero.

Afinal, se houver uma outra temporada, ela vai seguir o caminho da trama original, então não pode ocorrer nada de fato prejudicial à narrativa… Fica meio “legal, mas não serviu para nada”, embora já aproveitem para dar dicas das futuras revelações.

Para quem não leu o mangá, essa passagem provavelmente será apenas divertida e interessante, pois ela traz todos os personagens principais interagindo mais intensamente pela primeira vez. Sendo animês vitrines para aumentar as vendas dos quadrinhos, no fim das contas, é com esse público “leigo” que a produção deveria estar mais preocupada.

Mas mesmo sem ter um cliffhanger, o fechamento dá um gosto de “precisamos de mais”… porque algumas coisas ainda estão muito erradas, pouco explicadas, ou em aberto. Enfim, fora essa reta final, possivelmente controversa para os fãs, todo mundo deve concordar que a animação é muito boa adaptando o original (mas deixando claro: o filler é bom!).

O segundo episódio tem um momento interessante, trazendo as bonecas cantando uma música com uma letra bastante incômoda. Se essa cena já passa um sentimento de vergonha e espanto no mangá, a versão animada acerta em cheio em deixar o espectador desconfortável. Da falta de instrumentos acompanhando a música à sequência de cenas, parece uma paródia de musicais clássicos – é uma delícia de ver.

Imagem: MaryRose e Emilico no salão da mansão Shadow.
Reprodução: CloverWorks/Funimation.

As cenas de tensão geralmente são aliviadas em momentos com a Emilico, de longe a personagem mais “inocente” da casa. A desconexão entre ela, praticamente vivendo numa síndrome de Poliana, e os “horrores” daquela mansão fazem até alguns se incomodarem.

Mas esse defeito por vezes se transforma numa qualidade e faz a garota encarar desafios por uma perspectiva diferente. No fim das contas, é exatamente esse o charme da personagem. É como se ela fosse a protagonista típica de musicais dentro de uma paródia – e funciona nesse caso. É divertido ver tudo isso animado.

Com um ritmo mais lento em comparação a outras séries, o animê consegue se manter interessante apostando nos mistérios e, principalmente, neste sentimento de algo estar muito errado dentro da residência Shadow, mesmo com uma boa porção de cenas mais leves e “slice-of-life”. A ação aumenta durante o debute, o grande evento da temporada.

Particularmente, acho esse o arco arrastado no mangá, mas é bem mais interessante em tela, justamente por ter mais “movimento”. No debute, vemos os bonecos interagindo entre si, sem seus mestres, precisando resolver uma série de desafios. Então, vamos conhecendo melhor cada um e laços começam a ser formados.

Imagem: Os Shadow e seus bonecos no debute.
Reprodução: CloverWorks/Funimation.

Como há espectadores, outros Shadow, vamos conhecendo também melhor a estrutura dessa casa, com uma espécie de ranqueamento para os membros. Há uma ala infantil e uma ala para os adultos – e na ala dos adultos, os andares mais altos são para quem possui maior respeito.

Assim, dentro da casa rola uma competição para “subir de nível”, e é meio cada um por si, com membros formando algumas pequenas alianças entre eles e querendo “passar a perna” no resto – completamente oposto ao modo de Emilico de fazer amizade com basicamente todo mundo.

O estreitamento da relação entre Emilico e Kate é um dos pontos fortes dessa parte. É bastante divertido ver as duas se aproximando enquanto verdades vêm à tona (e outros mistérios surgem). Por fim, a “revelação final” (e os métodos para tal) ajudam a trazer uma sensação de fechamento, mesmo com pontas soltas.

Imagem: Kate segurando a mão de Emilico.
Dá para shippar se você quiser… | Reprodução: CloverWorks/Funimation.

Evitando dar spoilers importantes, a série vale pelos mistérios. Quem gosta de algo no estilo de Promised Neverland provavelmente se interessará por esse animê. O setting é até parecido: temos um monte de crianças e uma mansão quase-assombrada, num microecossistema um tanto elaborado. É criando mistérios e cenas de “tensão psicológica” que Shadows House brilha mesmo, mas sem esquecer de momentos mais leves.

A trilha sonora é boa e as músicas e sequências de abertura e encerramento são incríveis. A série também tem algumas sutilezas divertidas, como a presença de uma boneca chamada “Barbie”. Sim, eu acho engraçado.

Talvez quem não tenha lido o mangá possa achar o começo parado demais, mas ele é necessário para a trama. Quem leu o mangá pode estranhar a velocidade e omissão de alguns eventos, mas a série abre e fecha de forma satisfatória. Mas a melhor parte, infelizmente, ainda fica por vir – e provavelmente é mais difícil ainda de adaptar.


Os 13 episódios de Shadows House estão disponíveis com legendas em português na Funimation. A empresa fornece ao JBox um acesso à plataforma.


O texto presente nesta resenha é de responsabilidade de seu autor e não reflete necessariamente a opinião do site JBox.


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