34 perdas, dor, solidariedade e esperança para se reerguer. 1 semana do incêndio no Kyoto Animation

Mortos na tragédia já foram identificados. Suspeito do crime ainda está hospitalizado.

Uma semana após a tragédia no estúdio Kyoto Animation, ainda é muito difícil compreender tudo o que aconteceu. A consternação que toma conta dos fãs e todos que acompanharam o inexplicável pelos noticiários, transparece na forma das centenas de homenagens espalhadas e recebidas como motor propulsor de coragem àqueles que ficaram por aqui para seguir essa história.

O primeiro trabalho de animação que me fez chorar foi um trabalho da KyoAni. Ainda estou em estado de choque e não posso acreditar no que aconteceu“, declarou ao jornal Kyodo News um estudante de 17 anos com um sonho comum a muitos que almejam se tornar animadores no Japão: um dia trabalhar para esse estúdio, reconhecido pelos espectadores assíduos de anime pelo primor de sua qualidade.

O cenário em volta do prédio abalado pelo incêndio no último dia 18 de julho tornou-se um memorial. Pessoas que passam pelo que restou da estrutura fazem questão de deixar flores e recados de carinho. O choro de muitos é inevitável. Para o presidente e um dos fundadores do KyoAni, Hideaki Hatta, as mensagens otimistas que chegam do mundo todo têm se tornado o “apoio emocional” mais que necessário para ele e o restante de sua equipe. No último dia 20, Hatta também manifestou a possibilidade de demolir o prédio queimado, construindo ali um parque e um monumento em homenagem às vítimas. Ele acredita que a equipe e toda a vizinhança do local não deva conviver com o considera uma “uma imagem terrível”.

 

Ajuda global

Vários órgãos ligados à indústria do anime se solidarizaram com a situação e buscaram meios de ajudar o estúdio a se reerguer, estendendo também sua ajuda às famílias das vítimas. A Sentai Filmworks, empresa americana que atua com o licenciamento de dezenas de animes, abriu já no dia 18 uma campanha de arrecadação através da plataforma GoFundMe. Em uma semana, a meta de 750 mil dólares foi superada em mais que o dobro, ultrapassando 2,1 milhões de dólares. A campanha seguirá até o dia 31 de julho e garante esforços para entregar cada centavo aos envolvidos na tragédia.

Suas promessas e os fundos que levantamos visam fornecer a assistência mais direta e significativa possível às vítimas dessa tragédia comovente. Estamos nos coordenando com outros da indústria do anime no Japão para garantir que os fundos coletados cheguem aos que precisam. Continuaremos a fornecer atualizações à medida que esses detalhes forem sendo desenvolvidos.

Por enquanto, quero agradecer a todos pela gentileza, generosidade e apoio a esse esforço. A quantidade de preces e mensagens de apoio têm sido extraordinária. Por favor, ajude-nos a continuar esse esforço.” – trecho das palavras do presidente da Sentai, John Ledfort.

Clique aqui para acessar a página da campanha.

Na quarta-feira passada (24), o próprio Kyoto Animation abriu uma conta bancária para arrecadar fundos às vítimas e também para a reconstrução de seu estúdio. Em menos de 1 dia, cerca de 2,53 milhões de dólares foram arrecadados, somando doações de pessoas físicas e também de empresas.

 

O 2º maior assassinato em massa no Japão

Era por volta de 10h30 da manhã do dia 18 de julho, no bairro de Fushimi, em Kyoto. O barulho de uma explosão assustou a vizinhança do Estúdio 1 do Kyoto Animation, edifício principal onde várias obras importantes foram produzidas. Um incêndio se espalhou rapidamente, levando 5 horas para que os 30 carros de bombeiros que se mobilizaram para o local pudessem cessar as chamas. Elas só se apagaram por completo às 6h20 do dia seguinte.

A tragédia se originou de um crime. O suspeito, um homem de 41 anos identificado como Shinji Aoba, teria espalhado gasolina pelo prédio, antes de atear fogo aos gritos de “morram!“. Ferido no incidente, ele confessou seus atos e foi levado ao hospital. Até o momento, a polícia ainda não o deteu e o interrogou, pois aguarda a sua recuperação.

Ainda em sua confissão do momento, o suspeito teria dito que foi motivado pelo fato de que o  KyoAni teria roubado um de seus romances. Além da produção de animações, o estúdio também mantinha uma editora de novels, recebendo novos projetos com frequência em um concurso conhecido como Kyoto Animation Awards. Entretanto, o presidente Hatta afirma nunca ter ouvido falar do sujeito – não que isso possa justificar o injustificável.

34 pessoas morreram no incêndio, sendo 21 mulheres e 13 homens. Esse tornou-se o segundo maior assassinato em massa no Japão desde os horrores da bomba atômica na Segunda Guerra Mundial – atrás somente de outro incêndio que vitimou 41 pessoas em 2001. Outras 34 pessoas ficaram feridas, sendo que parte delas permanece em estado grave. Todos os materiais usados nas animações e os computadores foram perdidos. Os mortos já foram totalmente identificados pela polícia e devem ter seus nomes revelados em breve.

Em entrevista ao jornal Mainichi Shinbun, a família da colorista Naomi Ishida confirmou que ela estava entre as vítimas fatais. A artista de 49 anos trabalhava no estúdio desde o ano de 1993, quando era comum que fossem recebidos trabalhos terceirizados – foi aí que ela participou de obras como InuYasha, Doraemon e Shin-Chan. Em The Melancholy of Haruhi Suzumiya, série de 2006 que destacou o nome do KyoAni, ela é creditada como a principal designer de cores. Free!, Violet Evergarden e A Voz do Silêncio são outras obras que tiveram participação de Ishida, dentre vários títulos.

 

Um estúdio raro

Fundado em 1981 pelo casal Yoko Hatta e Hideaki Hatta, o Kyoto Animation tornou-se reconhecido por todos que acompanham a indústria dos animes não só pela excelência de suas obras, mas por nadar contra a maré dos abusos do meio. São frequentes os casos de animadores mal pagos no Japão, com extensas cargas de trabalho e horas extras não remuneradas por contratos temporários.

No KyoAni o cenário era outro. Trata-se de um estúdio que só possui funcionários contratados, nada de freelancers. É também o local que mais se preocupa em ter funcionárias mulheres, reflexo também em suas séries e filmes, que trazem protagonismo feminino com frequência.

Full Metal Panic! Fumoffu | 2003, Kyoto Animation

Após prestar serviços a obras famosas de outros estúdios, como InuYasha, Cowboy Bebop, Pokémon e até mesmo o clássico Akira, o KyoAni começou a investir em suas próprias animações em 2003, com o especial para vídeo Munto e a série de TV Full Metal Panic! Fumoffu (série essa que foi exibida aqui no Brasil pelo extinto canal pago Animax). Nessa primeira leva dos anos 2000, destacam-se também The Melancholy of Haruhi Suzumiya (2006), Lucky Star (2007), Clannad (2007) e K-On! (2009).

Já na última década, muitas obras de destaque também chegaram oficialmente ao Brasil, algumas inclusive na TV aberta. Na Crunchyroll, Free!, Miss Kobayashi’s Dragon Maid e Sound! Euphonium são os representantes do KyoAni (os dois primeiros também foram exibidos pela Rede Brasil de Televisão). A Netflix proporcionou a primeira transmissão simultânea de um anime com dublagem em português, com a série original Violet Evergarden. A plataforma também traz o tocante filme A Voz do Silêncio, baseado no mangá publicado por aqui pela NewPOP Editora – que também trouxe os quadrinhos de K-On!

 

Para o futuro

É muito cedo para sabermos quais serão os passos de reestruturação do Kyoto Animation. Obras já haviam sido anunciadas e agendadas, aguardando pronunciamento sobre suas continuidades.

Violet Evergarden, 2018 | Kyoto Animation

O que há de concreto até então é o lançamento de um episódio especial de Violet Evergarden. Subintitulado de Eternity and the Auto Memories Doll, sua premiere continua agendada para os próximos dias 3 e 4 de agosto, a pedido formal do próprio estúdio, como divulgado pelo site The Hollywood Reporter. A exibição ocorre no evento AnimagiC, em Mannheim, na Alemanha.

A lista de projetos anunciados para produtos já conhecidos inclui um filme de Violet Evergarden (lançamento marcado para 10 de janeiro de 2020), um filme de Free! (para o verão japonês de 2020) e a 2ª temporada de Miss Kobayashi’s Dragon Maid. Entre as obras inéditas, uma série adaptando a novel 20 Seiki Denki Mokuroku e o curta Baja no Studio: Baja no Mita Umi.

[Com informações do Kyodo News, NHK, ANN e Jovem Nerd]

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